Um verdadeiro tango vaticano. Entrevista com Iacopo Scaramuzzi

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09 Novembro 2015

Há mais de 10 anos, Iacopo Scaramuzzi se ocupa principalmente da informação sobre o papa e sobre a atividade da Santa Sé. Muitas vezes, você encontra os seus textos na rica produção diária da agência Askanews, além do portal Vatican Insider, onde a sua assinatura é uma das mais renomadas.

A reportagem é de Luis Badilla e de Francesco Gagliano, publicada no sítio Il Sismografo, 04-11-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O seu livro Tango vaticano (Edizioni dell'Asino) é um texto agradável, sério, fácil e bem documentado, portanto, é lido com prazer. É também um texto particular, porque pode ser lido com proveito por aqueles que desejam, sem serem especialistas, conhecer as vicissitudes do papado nos últimos anos, mas também por parte dos conhecedores da matéria que encontrarão, muitas vezes, análises originais e convincentes.

Acreditamos que, com os tempos em que vivemos, esse livro de Iacopo Scaramuzzi é indispensável, se desejarmos aprofundar o papado e as complexas dinâmicas da Sé Apostólica.

Eis a entrevista.

Gostaríamos de começar com uma pergunta que, aparentemente, não tem nada a ver com o tema da nossa conversa, o seu livro Tango vaticano. Entre centenas de vaticanistas que acompanharam o último conclave, apenas dois anteciparam o nome do possível eleito, Jorge Mario Bergoglio. Um foi Lucio Brunelli: no dia 9 de março, em uma reportagem do TG2 (edição das 20h30), mas, antes, no dia 4 de março (TG2 da edição das 13h), a jornalista de Brunelli terminava com estas palavras: "Passa quase despercebido entre os jornalistas o cardeal Bergoglio. Mas ele não passará despercebido na Capela Sistina". O outro vaticanista, como você sabe, é você mesmo. O que fez você pensar que Bergoglio seria eleito?

Acima de tudo, obrigado pela hospitalidade no Il Sismografo. Eu escrevi que Jorge Mario Bergoglio era "papável" desde o dia 28 de fevereiro de 2013, data de início da sé vacante, porque simplesmente fiz o meu trabalho, com um pouco de sorte. O período do conclave, além de apaixonante, foi de trabalho muito intenso. No entanto, eu encontrei um pouco de tempo, não muito, na realidade, para conversar off the record, como se costuma dizer, com algumas pessoas bem informadas sobre o possível andamento da votação iminente. Três delas, aliás, muito diferentes entre si, me indicaram, de modos variados, o perfil do então arcebispo de Buenos Aires. E, efetivamente, provaram ser ótimas fontes.

Daquele Bergoglio "imaginado" por vocês antes do conclave em março de 2013, o que você encontra hoje no Papa Francisco?

Em fevereiro e março de 2013, eu me convenci de que os cardeais eleitores poderiam convergir na pessoa do cardeal Jorge Mario Bergoglio: muito estimado, discreto, proveniente do subcontinente onde vive a maioria dos católicos, embora de origens italianas, fora dos jogos romanos, mas de temperamento forte, seguro na doutrina, mas aberto à mudança, pastor experiente e, ao mesmo tempo, um homem enraizado na oração, capaz de purificar o Vaticano e de relançar a fé. Eu imaginei e escrevi que, seguindo os passos do pontífice que abriu o Concílio Vaticano II e coerentemente com aquele grande evento, o novo papa poderia escolher o nome de João XXIV. Eu estava errado, ao contrário do meu colega Salvatore Izzo, que sugeriu que o novo pontífice se chamaria Francisco. Mas, em relação ao restante, eu encontro no pontificado do Papa Francisco o espírito do cardeal Bergoglio.

Tango vaticano, que nos pareceu ser um livro raro, por ser completo e essencial (não se desperdiçam palavras), relata a difícil passagem de Bento XVI, herdeiro do papado wojtyliano, a Francisco. O que você queria destacar nesse percurso histórico e eclesial? Personagens, dinâmicas do poder, conflitos...?

Eu escrevi esse livro, por uma amigável proposta da editora, com a ideia de contar uma grande história, à qual, como jornalista, eu tive a oportunidade de assistir (na minha opinião, uma das histórias mundiais mais interessantes desses anos), e da qual, a quase três anos do seu início, com a renúncia ao pontificado de Bento XVI, me parecia interessante investigar, deixando de lado os aspectos mais folclóricos, raízes e implicações.

Cito apenas quatro elementos dos quais eu tentei destacar os vínculos com o que aconteceu no Vaticano nesses anos e que determinam a sua profundidade e complexidade:

- a globalização, que investe contra a Santa Sé e, em particular, as suas finanças, a partir dos atentados às Torres Gêmeas de Nova Iorque no dia 11 de setembro de 2001, e que, com o Papa Francisco, chegou à maturação;

- a crise econômica, que serve de pano de fundo da epocal Laudato si', encíclica ecológica, que estabelece um novo modelo de desenvolvimento fundamentado no ensinamento do Evangelho e no testemunho de figuras como São Francisco;

- o fim da Guerra Fria, já remota, mas que se tornou mais concreta com o primeiro papa latino-americano da história, capaz de facilitar, por assim dizer, a reviravolta das relações entre Estados Unidos e Cuba, último remanescente daquela contraposição entre dois blocos;

- o Concílio Vaticano II, evento ainda mais remoto (1962-1965), Jorge Mario Bergoglio, primeiro pontífice a não participar dele, assume como óbvio e parece, por isso, capaz de revitalizar, a partir da valorização do Sínodo, órgão nascido justamente depois do Concílio, mas, desde então, a meu ver, subutilizado.

Todos eventos que não determinam, em si mesmos, a eleição desse papa, mas a partir dos quais Francisco (atrevo-me a me citar), "lendo os sinais dos tempos, encarna, herdando e, ao mesmo tempo, acentuando, revelando e enraizando, uma mudança epocal da Igreja Católica".

O meu livro, portanto, não quer ser de revelações ou de furos jornalísticos, mas uma análise que espera fornecer alguma chave de leitura analítica àqueles que estão curiosos sobre esse papa e sobre os eventos recentes do Vaticano, sem, necessariamente, se encaixar no perímetro das pessoas religiosas.

No seu livro, podemos ler: "A relação (de Bergoglio) com il Belpaese [a Itália] muda na medida em que o papa argentino repensa o Vaticano". Entre o papado e a "dileta nação italiana", na sua opinião, está em curso uma mudança radical? Se sim, quais seriam os elementos mais relevantes?

A desorientação dos diversos ambientes italianos – eclesiásticos, políticos, editoriais, intelectuais – diante de Bergoglio, de fato, é um dos fenômenos que, como italiano, mais me impressiona. Esse papa tem raízes italianas, é, como os seus antecessores, primaz da Itália, escolheu o nome do santo padroeiro da Itália, mas às vezes me parece que ele é percebido, para melhor ou para pior, como um alien por aqueles que desconfiam dele, assim como por aqueles que o admiram. Distância ainda mais acentuada porque a Itália (Italieta, como eu a chamo...) atravessa, na minha opinião, um período histórico de particular ansiedade, e há anos. Certos rituais, certos personagens, certas relações sociais, até mesmo certas estratégias de boicote muito italianas ou até muito romanas (as especulações sobre a saúde, os vazamentos de notícias) parecem ter envelhecido de repente.

Um pedaço da Itália, que esperava um papa italiano, parece órfã de um Vaticano a ser adulado ou combatido, mas, ainda assim, fiel a si mesmo há décadas. Outro pedaço da Itália encontra nesse papa aquilo que não encontra em outros lugares, às vezes nem mesmo na Igreja. Entre o papa e a Itália existe uma relação a ser reinventada. Parece-me que emergem muitas resistências, muitas vozes de retaguarda, mas acho que também estão nascendo, nem sempre muito visíveis, energias novas, que é preciso se aparelhar para saber ver, interpretar. Alguns padres muito bons que, nos últimos anos, pareciam um pouco como vozes no deserto – as Edizioni dell'Asino, que publicaram o livro, organizaram uma apresentação, digamos, com o Pe. Vinicio Albanesi e com o Pe. Giacomo Panizza –, hoje me parecem menos solitários, e isso me parece ser uma revelação do pontificado.

Tango vaticano, título-metáfora do livro, além de ser muito eficaz, logo dá a ideia de uma dança a dois muito próximos, agarrados. Além de Francisco, quem é a outra "parte" dessa "dança"?

Confesso que o título me veio à mente instintivamente, só depois pensei a respeito. O termo "tango", obviamente, é evocativo da Argentina da qual esse papa vem, "quase o fim do mundo", como ele mesmo disse, e das novidades que ele trouxe. Mas, é verdade, o tango é dançado a dois, e eu diria que a outra parte, além de Francisco, é o Vaticano e a Igreja, envolvidos por esse papa em uma dança nova, passional, distante das prudências de um certo mundo eclesial, que reage quando se sente suspeito, perdido, feliz com esse ritmo novo.

A partir das suas reflexões, muito documentadas e pontuais, percebe-se que o papado de Francisco é singular e, talvez, uma reviravolta na vida e na história da Igreja. Entendemos bem? E, se assim for, na sua opinião, quais são as grandes linhas dessa provável reviravolta e quais as armadilhas?

Depois de concluir o livro, percebi que há um tema de fundo que o atravessa, o do poder. O poder de quem fala em nome de Deus, como todo poder, pode ser abusado, esmagando os simples, ou, ao contrário, pode servir para libertar, promover e acompanhar o povo fiel de Deus, quer se trate da pastoral familiar no centro do Sínodo; dos abusos sexuais, que sempre são, também, abusos de poder, denunciados pelo Papa Francisco, assim como, antes dele, por Bento XVI; da "salutar descentralização" defendida pelo papa em favor das Conferências Episcopais nacionais. Quando é redistribuído, atacado, posto em discussão um poder consolidado, as reações podem ser fortes, até mesmo rancorosas, ou então assustadas. Mas, creio eu, é o único modo pelo qual o Espírito, liberto, pode, evangelicamente, soprar onde quiser, ser fecundo, consolar.

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