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28 Outubro 2015

O Sínodo dos Bispos terminou com um discurso proferido pelo Papa Francisco que pareceu ser um carimbo de borracha, separado das conclusões do Sínodo. Em sua alocução, ele ressaltou que “no caminho deste Sínodo, as diferentes opiniões que se expressaram livremente – e às vezes, infelizmente, com métodos não inteiramente benévolos – enriqueceram e animaram certamente o diálogo, proporcionando a imagem viva duma Igreja que não usa ‘impressos prontos’, mas que, da fonte inexaurível da sua fé, tira água viva para saciar os corações ressequidos”.

O comentário é de Andrea Gagliarducci, publicado por Monday Vatican, 26-10-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

O papa em seguida acrescentou que o Sínodo deixou que “os verdadeiros defensores da doutrina não são os que defendem a letra, mas o espírito; não as ideias, mas o homem; não as fórmulas, mas a gratuidade do amor de Deus e do seu perdão”.

Portanto, é como se o papa quisesse traçar uma linha entre os que tentaram permanecer fiéis à doutrina e os que quiseram adaptá-la. Esta sua fala tem muitas influências “jesuíticas”, como, por exemplo, o tópico da enculturação da fé e a forma como os evangelhos são interpretados.

Afinal de contas, o papel dos jesuítas no Sínodo foi importante: o Pe. Antonio Spadaro, editor da La Civiltà Cattolica e um dos mais importantes assessores do papa, preparou o caminho para o debate sinodal com uma série de artigos publicados nessa mesma revista, textos que promoveram a pauta da misericórdia; a revista jesuíta America publicou uma entrevista que criticava os que eram contrários aos procedimentos deste Sínodo e trouxe a sua visão sobre o método do Sínodo e os seus resultados; o Pe. Adolfo Nicolás Pachon, membro da equipe de redação do Relatório Final do Sínodo e Superior Geral dos Jesuítas, também deixou o seu impacto via entrevistas na imprensa.

Os prós e contras do Relatório Final

O Relatório Final foi completado pelo discurso de encerramento do papa, e provavelmente levantará polêmicas. Ele pede que um documento papal resuma o ensinamento magisterial sobre a família. Pode ser uma exortação pós-sinodal, uma exortação: o Relatório Final não é explícito quanto à natureza do documento. Mas os Padres Sinodais gostariam de ver o testemunho de Pedro, porque Pedro continuamente se apresentava como um garante durante o Sínodo. Resta ainda saber como o documento papal irá aderir à pauta da misericórdia.

O Documento de Trabalho carecia de fundamentos teológicos. O relatório intercalar do Sínodo de 2015 teve o mesmo problema. Assim, o Relatório Final 2015 incluiu muitas citações das Escrituras; ele cita por completo a definição de família presente em Gaudium et Spes, conforme recomendado; ele também inclui um longo parágrafo sobre a pedagogia divina, e este trata da liturgia.

No entanto, o primeiro parágrafo do documento é, na maior parte, sociologia. É uma imagem instantânea das dificuldades das famílias, com um pedido de compromisso às famílias por parte dos políticos e por aqueles engajados na sociedade, além de um elogio implícito do trabalho da Igreja.

A conversão vem no fim da segunda parte. Aí, o consenso diminui. O dever de acompanhar a família ferida inclui informações sobre os procedimentos para uma declaração de nulidade [matrimonial]. Esta seção recebeu uma votação de aprovação menos do que unânime dos bispos. O parágrafo 54, concernente à atenção pastoral para as “novas uniões”, recebeu uma votação menos consensual ainda: os bispos querem definições e situações melhores delineadas.

Verdade seja dita: todos parágrafos ganharam o consenso sinodal necessário de uma maioria de dois terços. Mas esta maioria ficou sob risco no Parágrafo 85, quando se abordou a questão dos fiéis divorciados e recasados no civil. O parágrafo cita a Familiaris Consortio, de São João Paulo II, e fala da necessidade do discernimento, caso a caso, ao mesmo tempo em que enfatiza o papel da consciência individual. Todavia, ele nunca menciona a palavra “Comunhão”.

O Parágrafo 84 também quase não alcançou a maioria exigida. Ele pede pela integração à vida da Igreja daqueles católicos divorciados e recasados. Mas ele também insiste que estas pessoas “deveriam evitar toda e qualquer ocasião de escândalo”.

O Sínodo e a comunicação

A comunicação é uma das principais preocupações deste pontificado. Foi assim durante este Sínodo. Muitos reconheceram que este Sínodo em especial foi, finalmente, transparente, e que os Padres Sinodais puderam, enfim, conceder entrevistas livremente. Mas isso não é verdade. Mesmo nos sínodos passados, os Padres Sinodais podiam conceder entrevistas sem pedir permissão.

Além disso, antes de o Cardeal Baldisseri assumir o cargo de Secretário Geral do Sínodo, não havia apenas uma única coletiva geral de imprensa; haviam seis coletivas espontâneas em seis idiomas diferentes. Nestes momentos, o debate sinodal era informado informalmente e, assim, os jornalistas tinham uma ideia dos vários caminhos pelos quais a discussão percorreu. Antes, havia muito mais palavras sobre o Sínodo, e menos oportunidades para manipulação.

Gostemos ou não, o novo curso das informações sinodais pavimentou o caminho para uma série de rumores e fofocas entregues juntas com a informação oficial da Sala de Imprensa da Santa Sé. O Sínodo da Imprensa foi tendencioso porque os relatos tinham de estar baseados no que os Padres Sinodais contavam, em vez de se saber o que, efetivamente, fora dito no Salão Sinodal. Isso gerou uma opinião pública favorável a uma série de mudanças doutrinais que, de fato, Sínodo algum pode decidir. Ele não pode assim decidir porque, simplesmente, o Sínodo dos Bispos é um organismo consultivo, e não deliberativo.

De um Sínodo a outro

Se a comunicação sinodal se tornou, passo a passo, menos transparente, pelo menos os Padres Sinodais ficaram mais espertos. Durante o Sínodo de 2014, a discussão pareceu acontecer em termos positivos até a divulgação do relatório intermédio. Nesse momento, ficou claro – conforme explicou o Cardeal Wilfrid Fox Napier, arcebispo de Durban – que havia uma agenda por detrás do Sínodo. Ao falar sobre o relatório intercalar, Napier disse: “Nós recebemos o texto no mesmo momento em que os jornalistas o receberam. Imediatamente observei que havia alguns tópicos que somente 2 ou 3 Padres Sinodais haviam falado a respeito”.

A divulgação do relatório intermédio fiz os bispos compreenderem quais as questões estavam em jogo. Os bispos africanos, cuja Igreja é jovem, por conta do que eles ainda têm o ensino católico claro na mente, tiveram uma causa comum. E o mesmo tiveram os bispos da Europa oriental, preocupados com uma traição para com os ensinamentos de São João Paulo II. Existem ainda as periferias da Igreja às quais se deve voltar o olhar.

O debate

Na verdade, a defesa mais forte do ensino católico veio das periferias. Elas não negam nenhum amor ou atenção pastoral pelas pessoas em situações irregulares ou difíceis. Mas sempre propõem este ensino de forma forte e rigorosa. Os prelados aí estão certos de que as pessoas devem receber um grande ideal a almejar. Não creem que a fé deva ser diluída para ir ao encontro das fraquezas e fragilidades das pessoas.

Algumas das intervenções no Salão Sinodal nos ajudam a compreender como se deu o debate. Dom Stanislaw Gadecki, presidente da Conferência dos Bispos da Polônia, tomou a decisão de publicar no sítio eletrônico de sua Conferência as suas observações a respeito das falas dos Padres Sinodais. Tal decisão levantou a cortina de fumaça presente na comunicação sinodal.

Dom Zbignevs Stankevics, de Riga (Letônia), pediu aos Padres Sinodais por uma pausa para refletir sobre a questão da disciplina em acessar aos Sacramentos. Explicou que “o Papa Francisco abriu uma brecha da misericórdia no muro da justiça”, com a reforma dos procedimentos em se declarar a nulidade de um matrimônio, e então, agora, é uma questão de tempo para eles pararem e pensar sobre como eles, os bispos, podem levar adiante os seus ministérios. Ele também falou que “os argumentos que apoiam o acesso à Comunhão aos divorciados e recasados parecem ser mais sociológicos e emocionais/psicológicos do que teológicos”.

Eis exatamente o ponto, e ele se refletiu no Documento de Trabalho do Sínodo: a sociologia substituiu a teologia, uma imagem instantânea dos tempos atuais vindo antes do anúncio do ideal evangélico. Talvez aqueles que elaboraram o Documento de Trabalho tentaram ser fiéis ao pensamento do Papa Francisco de que a realidade é mais do que a ideia – conforme se lê na exortação apostólica Evangelii Gaudium.

De fato, a questão da falta de uma formação teológica sólida poderia ser percebida em muitos dos debates sinodais. Os bispos alemães, em determinado momento, buscaram por um fundamento sólido em Tomás de Aquino. Começando pelas palavras de Aquino, eles desenvolveram a questão do discernimento “caso a caso” para se acessar a Comunhão por parte dos fiéis divorciados e recasados no civil. Esta é uma questão do assim-chamado “foro interno”, ou seja: de confissão sacramental e de uma relação espiritual pessoal com o sacerdote. Mas, nesse momento, tudo se torna uma questão de consciência.

Desde o início esta questão fora identificada como o “Cavalo de Troia”, que os “adaptadores” usariam para abrir o acesso à Comunhão sacramental a todos as pessoas em situações sexuais/maritais irregulares sem a exigência de um propósito firme de melhoramento. Não por acaso, o Cardeal Reinhard Marx, presidente da Conferência dos Bispos da Alemanha, insistia durante uma coletiva que “dentro do Sínodo, todos concordam que o matrimônio/casamento é entre um homem e uma mulher, para sempre, e aberto à vida. Mas existem casos de fragilidade e rompimentos, e é necessário que a Igreja diga a estas pessoas que vivem em situações difíceis: Eu estou próxima de vocês”.

Descentralização

A descentralização foi uma outra questão em jogo. O Papa Francisco deu grande ênfase a ela em sua fala pelo 50º aniversário de criação do Sínodo dos Bispos, e alguns bispos imediatamente perceberam que este tema poderia ser explorado. Pouco a pouco, o pensamento por detrás de uma maior autonomia às Conferências Episcopais ganhava força. Esta noção também foi incluída em Evangelii Gaudium, exortação apostólica do Papa Francisco que ele considera como o documento que lhe fornece as diretrizes para o seu pontificado.

A Evangelii Gaudium igualmente propôs que as Conferências Episcopais pudessem ser as responsáveis por algumas das tarefas da Congregação para a Doutrina da Fé – CDF, e isto levou à suspeita de que ele “poderia desmantelar o antigo ‘Sant’Uffizio’” [Santo Ofício]. Na verdade, Francisco frequentemente fala de uma Igreja menos autorreferencial, mas, ainda sim, uma Igreja hierárquica. No entanto, a discussão no Sínodo sobre este assunto se tornou importante.

Conforme todos concordaram ao final em que “este é um Sínodo pastoral”, muitos Padres Sinodais salientaram que a “descentralização já está em ação, e que ela foi alimentada com o ‘motu proprio’ que altera os procedimentos para as declarações de nulidade. Porém uma descentralização saudável diz respeito a questões pastorais, não doutrinais. A Igreja é uma coisa e a doutrina é outra. Não é possível que um casal possa receber a Comunhão sacramental em um país, enquanto que em outro o comportamento deles é considerado um pecado”. O porta-voz destas preocupações foi o Cardeal George Pell, prefeito da Secretaria para a Economia. Ele foi um dos bispos mais ativos dentro do Salão Sinodal.

O caminho em direção ao Documento Final

Os argumentos do Cardeal Marx na Sala de Imprensa da Santa Sé em 22 de outubro mostraram que havia ocorrido uma espécie de um “passo atrás” na pauta da misericórdia. Mas, na realidade, esta pauta avançou. As falas proferidas no encontro periódico, no dia 25 de maio, entre as Conferências Episcopais francesa, alemã e suíça – o chamado “Sínodo das Sombras” [Shadow Synod] – demonstrava a vontade de se seguir em frente no caminho da misericórdia, enfatizando histórias individuais e abandonando a noção de uma doutrina unificada. A mesma abordagem foi adotada em três encontros a portas fechadas organizados pelo Pontifício Conselho para a Família, cujos resultados foram relatados num livro recente.

Não obstante, a postura do Cardeal Marx ajudou aqueles bispos que queriam adaptar a doutrina aos sinais dos tempos para tomarem um fôlego e achar um jeito de conseguir, pelo menos, um bom resultado. Falando em termos esportivos: como estavam perdendo, eles procuraram acabar o jogo com, pelo menos, o placar empatado.

Então, a primeira versão do Documento Final foi influenciada por esta forte dialética dentro do Sínodo. Os relatórios da terceira parte do Documento de Trabalho sinodal eram claros: quase todos os grupos pediram por uma reescrita substancial do documento; alguns dos grupos foram além e, inclusive, pediram para suprimir os parágrafos sobre o acompanhamento pastoral aos homossexuais (a questão mais polêmica e discutida que surgiu no Sínodo de 2014).

Um grupo chegou a pedir que se convocasse um Sínodo sobre a homossexualidade. Todos os grupos concordaram em condenar a ideologia de gênero. Embora muitos aceitaram as propostas de um caminho penitencial para os católicos divorciados e novamente casados no civil, até mesmo esta proposta foi colocada em termos de um caminho para a conversão.

A primeira versão do Relatório Final – apresentada e debatida na tarde de 22 de outubro e na manhã do dia seguinte – trazia noção de um “caminho à conversão”. Um Padre Sinodal pediu para falar e, claramente, disse: “Que tipo de conversão fala exatamente deste documento?”, já que ele “nunca diz, com clareza, se estamos falando sobre uma conversão dos pecados”. Este bispo acrescentou que “a noção de pecado está sob embargo neste Sínodo”, e destacou: “Nós sempre dizemos: ‘Ora pro nobis’ (Rezem por nós). Eu prefiro dizer: ‘Ora pro nobis peccatoribus’ (Rezem por nós pecadores).

Certamente, o texto apresentado era melhor do que o Documento de Trabalho, o qual a maioria dos Padres Sinodais consideraram como pobremente delineado. O texto também foi simplificado: 49 páginas, ou cerca de uma centena de parágrafos.

A equipe de dez prelados nomeados pelo papa para elaborar o texto – somente dois deles participaram no Sínodo porque foram eleitos por suas Conferências Episcopais – quis elaborar um documento “com todas as dúvidas, mas sem todas as respostas”, explicou o Cardeal Oswald Gracias, de Mumbai (Índia). A esperança deles aqui era a de que a alocução final do papa fosse vaga o suficiente para promover a pauta da misericórdia, mantendo ao mesmo tempo a doutrina da Igreja. Esta escolha irritou a todos. Mas por causa desta escolha, todos puderam manter as suas posições.

O Sínodo, os motivos por detrás dele

Uma grande maioria dos bispos, no entanto, pediu pela intervenção do papa. Espera-se que esta intervenção seja delineada num documento mais completo produzido depois do Sínodo, talvez em forma de uma exortação pós-sinodal que não está ainda planejada. Este pedido mostra uma certa nostalgia pelos antigos procedimentos por parte dos Padres Sinodais. No passado, a equipe nomeada pelo papa não estava, na verdade, encarregada com a tarefa de elaborar um Relatório Final, mas de emitir uma série de “propositiones” (propostas) nas quais a assembleia poderia, eventualmente, votar.

O objetivo era o de alcançar uma comunhão que poderia levar a um documento papal amplamente compartilhado por todos.

Mas esta nova metodologia sinodal cria um bloco minoritário e um bloco maioritário e, assim, rompe com a comunhão episcopal. O cisma pragmático de que o Cardinal Walter Kasper fala a respeito foi criado por esta metodologia. Com certeza, não foi culpa dos bispos e sacerdotes supostamente não misericordiosos, ou de uma Igreja que supostamente julgava certa vez e que, agora, não julga mais. Eis os enquadramentos mais retóricos que constroem em torno do Papa Francisco uma narrativa que não ajuda em seu ímpeto reformador. Os verdadeiros inimigos do Papa Francisco parecem, em vez disso, ser aqueles que clamam serem os porta-vozes de sua agenda.

Esta dinâmica tem estado ativa desde a eleição de Francisco. Após a eleição, uma escola teológica que já estava desativada e fora de ação tentou ganhar uma influência renovada na vida da Igreja. Esta escola teológica nutre-se pelo assim-chamado “Time de Bergoglio”, quer dizer: o grupo de cardeais que sustentaram a eleição do Cardeal Jorge Mario Bergoglio.

Foi Austen Ivereigh, o biógrafo do papa, quem primeiro falou sobre este time. Ele era composto pelos cardeais Godfried Daneels, Walter Kasper, Cormac Murphy O’Connor e Karl Lehmann. Eles se reuniram em São Galo (Suíça), conforme admitiu recentemente o Cardeal Daneels. Não era uma “máfia”, mas o encontro periódico de um grupo de cardeais com ideias semelhantes, grupo iniciado na década de 1990. Os membros do grupo pouco mudaram no curso destes anos. O encontro foi organizado pelo bispo, Dom Ivo Fuerer, hoje Bispo Emérito de São Galo. O último encontro teria acontecido em 2013, logo após a eleição do Papa Francisco.

Durante estes momentos em grupo, os cardeais chamados progressistas, fascinados pela mentalidade secular a qual, pensam, a Igreja deve se adaptar, delinearam a sua visão de Igreja. Identificaram alguns candidatos ideais para o papado. Eles também criaram a narrativa que agora tem sido construída em torno do Papa Francisco.

Segundo alguns analistas internos, o mesmo impulso em direção a este caminho sinodal veio deste círculo interno, que ganhou mais influência ainda após a eleição do Papa Francisco. Eles pressionaram por uma mudança doutrinal e para derrubar a Cúria Romana. Mas, desde o início, o papa evitou distribuir cargos a seus apoiadores, estabeleceu um tipo de Cúria paralela e pediu pela “conversão dos corações”.

Os seus apoiadores ocultos, no entanto, estão em idade avançada. Sem a renúncia de Bento XVI, eles não teriam peso algum nos atuais debates teológicos. Então, o movimento deles em alterar a doutrina teria chegado a um impasse, pois para alterá-la é preciso um concílio. Mas a preparação para um concílio é longa e, de qualquer forma, os resultados não são garantidos. Eles não tinham tempo.

Então adentraram na noção de um sínodo, cuja preparação é mais curta. Se as discussões sinodais pudessem ser estendidas no intuito de influenciar a opinião pública, um certo interesse poderia ser criado. Dessa forma, apoiaram a ideia de um sínodo. Quando era arcebispo, o papa não gostava dos sínodos, conforme reconhece o seu ex-bispo auxiliar Dom Horacio Garcia. Mas os membros do “Time de Bergoglio” tinham certeza de que o papa aceitaria a ideia de um sínodo como uma forma colegial e útil de governança. Este método, no fim, era mesmo semelhante àquele empregado no comando da Companhia de Jesus.

Surpresas

A “operação Sínodo” fracassou em dois sentidos. A grande maioria mostrou compreender os ensinamentos de São João Paulo II e Bento XVI. O caminho sinodal deles, um caminho muito longo, estabeleceu fundamentos sólidos para este Sínodo sobre a família. É válido notar que São João Paulo II convocou um sínodo sobre a penitência e reconciliação logo após o Sínodo sobre a família, de 1980, enquanto que em 1990 ele quis um Sínodo sobre a formação sacerdotal. Esta sua escolha foi profética. A questão da formatação sacerdotal foi um dos tópicos mais desenvolvidos e debatidos durante o Sínodo 2015, junto com a questão da formação dos fiéis leigos.

Muitos bispos não querem alterar a doutrina da Igreja. Entendem que a verdadeira questão é formar sacerdotes que tenham condições de ensinar os ensinamentos católicos, pessoas que sejam capazes de ler os sinais dos tempos sem diluir a doutrina. No fim, eles identificam uma necessidade de sacerdotes que tenham condições de formar uma nova geração de católicos. O tema da consciência – um tema que foi central durante a última parte do Sínodo – está estritamente ligado com a formação das consciências.

Uma outra questão em jogo é a educação para amar. Todos os bispos a defenderam. O Cardeal Napier, numa de suas intervenções livres, propôs uma formação permanente para os namorados e cônjuges. O maior resultado do Sínodo é um impulso em direção a um maior compromisso com a catequese. Eis a verdadeira surpresa do Sínodo.

A educação é uma espécie de “linha vermelha” em todos os relatórios dos pequenos círculos. Os relatórios emitem mais de 1.300 modi (alterações) na tentativa de consertar o texto do Documento de Trabalho. Fundamentado sociologicamente, o Documento de Trabalho foi desenvolvido em três capítulos que espelhavam o esquema “ver-julgar-agir”. Mas, no final – os bispos notaram –, o primeiro capítulo sobre o “ver” também incluía partes do julgar e agir, e o terceiro capítulo estava demasiado vago. Os bispos pediram à equipe de redação que abreviasse os tópicos e desenvolvesse um texto mais suave. Este foi o desejo geral dos bispos para com o texto.

Algumas conclusões temporárias

No fim, o Sínodo dos Bispos deixa a Igreja em um estado confuso. Para os fiéis, nada muda. As Igrejas locais irão determinar se publicam documentos para explicar precisamente como os fiéis deveriam interpretar o Relatório Final do Sínodo, numa tentativa de reestabelecer a doutrina com clareza. A esperança geral é que o papa emita um documento magisterial no intuito de fechar o debate.

O Papa Francisco terá de tomar a decisão final. Ele pode escolher deixar a discussão em aberto, assim deixando também a Igreja em um estado de “Sínodo permanente”. Ele pode escolher dar uma direção precisa à Igreja. Esta decisão não é simples. Francisco tomou a palavra muitas vezes durante a assembleia, e sempre reiterava que ele é “Pedro”, como uma espécie de garante. Isso, porém, não vai ajudar a acalmar a disputa.

O Sínodo produziu uma outra certeza: o de que os inimigos do papa estão provavelmente atrás dos seus amigos. A Carta dos 13 Cardeais que manifestava as preocupações dos signatários sobre os procedimentos sinodais era, na verdade, uma carta privada enviada ao papa. O fato de que ela tenha vazado mostra que as pessoas que circundam o pontífice estavam buscando por um fronte externo para a sua guerra. Já que não podiam vencer no Sínodo, tentaram vencer a opinião pública, descrevendo quaisquer críticas como um ataque pessoal contra o papa.

Na verdade, uma ampla maioria dos bispos no Sínodo compartilhavam as preocupações dos treze cardeais.

Agora, inúmeras dúvidas permanecem em aberto: Será que os apoiadores da agenda da misericórdia são realmente os amigos do papa? Será que o Sínodo realmente abriu uma nova temporada para a Igreja? Somente o tempo irá dizer. Enquanto isso, o Papa Francisco tomou ainda mais o comando do Vaticano, conforme prova a criação de uma comissão concernente ao recém-anunciado dicastério da família: pela primeira vez com o Papa Francisco, o estabelecimento de uma nova estrutura vaticana será precedida pela elaboração de seus estatutos.

Eis a verdadeira novidade. A Secretaria para a Economia e o Conselho para a Economia esperaram um longo tempo por seus estatutos, e eles ainda não estão incluídos na Pastor Bonus, constituição apostólica que regula as funções e os dicastérios da Cúria Romana. O mesmo aconteceu com a Pontifícia Comissão para a Tutela dos Menores com a Secretaria para as Comunicações – embora este seja um organismo crucial na nova Cúria, que visa melhor comunicar o Evangelho ao mundo.

Será que agora o Papa Francisco vai compreender que o Vaticano e a Igreja devem ser governados por meio de orientações claras vindas de cima, e não apenas por uma reorganização?

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