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Por: Cesar Sanson | 15 Outubro 2015

A 1° Feira Nacional da Reforma Agrária, que acontece entre 22 e 25 de outubro no Parque da Água Branca em São Paulo, tem o objetivo de fortalecer a relação entre campo e cidade, oferecendo para população o acesso a alimentos saudáveis, livres de agrotóxicos, ao mesmo tempo em que favorece a agricultura camponesa, hoje responsável por cerca de 70% da produção de alimentos no país, segundo dados do IBGE.

Durante os quatro dias serão comercializados mais de 230 toneladas de alimentos entre os cerca de 800 produtos das áreas de assentamentos de 23 estados mais o Distrito Federal.

Em entrevista ao portal do MST, 14-10-2015, Carla Guindani, do setor de produção do MST, relaciona a Reforma Agrária como mote para a produção de alimentos saudáveis no país. Para ela, num cenário em que a Reforma Agrária está parada, “é importante, por meio da feira, trazer essa pauta à população brasileira e os resultados que a Reforma Agrária proporciona”.

Guindani também afirma que a falta de investimentos no setor evidencia a escolha do governo federal pela indústria do agronegócio, que tem como meta apenas o lucro. “Os assentamentos de Reforma Agrária tem toda a condição de atender a demanda massiva de produção de alimentos saudáveis, caso o Estado fomentasse. O que fica claro para nós é que essa é uma opção política do governo de não apoiar a Reforma Agrária e apoiar os agroquímicos, o latifúndio e o agronegócio”, ressalta.

Eis a entrevista.

Além da comercialização dos produtos, quais os objetivos da feira? 

A feira é um instrumento de diálogo com a sociedade. O objetivo é debater com a cidade o papel da soberania alimentar, da produção saudável e diversidade de alimentos. Uma produção socialmente justa e ambientalmente sustentável, que leva em consideração quem produz.

Com a paralisia da Reforma Agrária é importante colocar em pauta para a população brasileira, através da feira, os resultados que a Reforma Agrária proporciona. Uma feira realizada na cidade de São Paulo trazendo agricultores de 23 estados mais o Distrito Federal, mais de 800 produtos, uma mostra de cultura camponesa e uma mostra de culinária da terra são instrumentos importantes da produção que vem deste setor. É um momento de troca e aproximação: a cidade conhecendo o que o campo produz e este, por sua vez, entendendo qual o potencial consumidor desta cidade.

E qual a importância de ser realizada na cidade de São Paulo?

São Paulo é a maior cidade do Brasil, é o local onde o debate campo cidade é mais evidente. Aqui é onde os dois modelos em disputa - o modelo do agronegócio e da agricultura camponesa -, estão mais visíveis. E fazer essa feira no Parque da Água Branca, espaço que já é conhecido na capital paulista pela cultura aos orgânicos, é também um espaço de diálogo com o público consumidor. É o momento de pautarmos as diferenças entre a produção saudável de alimentos, a produção orgânica e a produção fetichizada de alimentos pautada pelo agronegócio. Afinal, as pessoas precisam saber o que colocam em suas mesas. 

Sem falar na ideia do abastecimento dos mercados locais...

A ideia de produção dentro do MST é o abastecimento do mercado local. Você produz e vende para arredores, assim não existe desperdício, não existe adição de nenhum tipo de conservante químico para os alimentos durarem. Esse processo de produção e de fortalecimento dos mercados locais é um dos nichos de atuação do Movimento. O fato de conseguirmos reunir numa feira em São Paulo toda produção do MST é dar espaço e visibilidade a essa produção que é invisibilizada pela grande imprensa. Não é todo mundo, por exemplo, que sabe que hoje a maior produção de arroz orgânico da América Latina pertence aos assentamentos da Reforma Agrária.

Quais são as maiores dificuldades enfrentadas na produção dos assentamentos da Reforma Agrária?

As condições de produção sofrem com a falta de incentivo do governo, nós não temos fomento, assistência técnica, incentivo, os investimentos nos assentamentos são precários. As cooperativas que conseguiram acessar algum tipo de recursos se estruturaram e organizaram uma cadeia produtiva. E, hoje, são industrializadas.

Os assentamentos de Reforma Agrária são produtivos porque as famílias que ali moram estão imbuídas de produzir seu auto sustento e, consequentemente, repassar aquela produção para a sociedade como um todo.

Se tivéssemos incentivo do governo federal com linhas de crédito de assistência técnica, agroindustrialização, de formação, conscientização nas escolas, se o governo federal investisse nessa gama de políticas públicas para o campo, teríamos condições de fazer isso numa escala ainda maior, e todas as mesas do país teriam receberiam uma alimentação saudável e de qualidade.

E o que evidencia essa situação?

Alimentação saudável, sem uso de agrotóxicos, valorizando a agricultura camponesa, revalorizando o campo. Os assentamentos de Reforma Agrária tem toda a condição de atender a demanda massiva de produção de alimentos saudáveis, caso o Estado fomentasse.

O que fica claro para nós é que essa é uma opção política do governo de não apoiar a Reforma Agrária e apoiar as agroquímicos, o latifúndio e o agronegócio. Não colocamos um prato de comida em nossas mesas, mas um cálice de veneno. É isso que queremos barrar, esse é o debate que precisa ser feito com a sociedade, a maior consumidora e afetada por esse sistema.

A população precisa saber que existe outra alternativa, que é a agricultura familiar.  E esse é o principal mote da feira, atrelar a Reforma Agrária à produção de alimentos saudáveis.

Veja também:

Agrotóxicos. Pilar do agronegócio. IHU On-Line, n. 368. Ano XI 04.07.2011

Agrotóxicos. Remédio ou veneno? Uma discussão. IHU On-Line, n. 296. Ano IX 08.06.2009

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