Elogio do casamento, segundo Kristeva-Sollers

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13 Outubro 2015

Paris. Quando debatem juntos em uma sala de aula universitária, pode-se pensar que seduzir esses dois com as alegrias simples da vida seria uma obra em vão até mesmo para os mais geniais oradores. Porque os cônjuges Joyaux, que em 1966 se conheceram e se amaram imediatamente às margens do Rio Sena, envolvem o lar desde então em redes quilométricas de conversas densas em citações muito cultas e frases bem amarradas, incluindo as de cada novo livro publicado por um ou por outro, tratando-se de uma linguista-semióloga-psicanalista-escritora e de um romancista experimental famosa na França e alhures.

A reportagem é de Daniel Zappalà, publicada no jornal Avvenire, 04-10-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Mas qual é o segredo das resplandecentes "Joias", cuja paixão perdura entre os campos de ruínas sentimentais do ambiente de pertença? Certamente, não só o sobrenome no estado civil, como Julia Kristeva e Philippe Sollers dão a entender abrindo o baú familiar no livro Del matrimonio considerato come un’arte [Do matrimônio considerado como uma arte], publicado na Itália pela editora Donzelli (144 páginas).

A "fisiologia do matrimônio" cara a Balzac é um tema literário em voga há séculos em Paris, com frequente predileção pela sátira dos "costumes burgueses". No preâmbulo, ao contrário, Kristeva explica que, com o marido, ela tentou "contar uma paixão, com precisão, sem vergonha e sem covardia, sem modificar o que ela foi nem embelezar o presente, e evitando o risco espetacular das obsessões sentimentais, dos fantasmas eróticos dos quais vai se comprazendo a autoficção do selfie".

Com essas premissas, deve-se dizer que o livro reúne quatro intervenções bastante heterogêneos (uma antiga entrevista à revista Nouvel Observateur, uma declaração de amor de Kristeva e dois duetos discursivos pronunciados em público) em um arco de 20 anos. E, ao longo do "conto", o leitor tateia um pouco, especialmente quando a brilhantíssima estudiosa reflete sobre os esquemas psicanalíticos fundamentais de matriz freudiana por trás da conjugalidade.

Mas se trata de figuras complexas. Até o sabor sutil da autocontradição, no caso de Philippe, que muitas vezes usa em público a máscara do dândi vagamente kierkegaardiano, em cujo coração o Don Juan juvenil sobrevive orgulhosamente à chegada da paixão civil e, depois, religiosa, cultivada em particular através de uma admiração recentemente muito exibida pela liturgia católica e pelo magistério romano. Philippe, ou "o melhor paciente" de Julia, certamente.

E, no livro, ela ironiza sobre o camaleonismo do marido, mestre de experimentações e pastiches tanto nos sofisticados romances dirigidos a um público de fãs, quanto na vida. Um "polimorfo", explica a psicanalista, por sua vez exemplo de ecletismo com um currículo impressionante, apelidada na famíliade "Honoris causa", como lembra Sollers, evocando as contínuas viagens da esposa para receber títulos e prêmios nos quatro cantos do globo.

A entrevista à revista semanal preferida da chamada "gauche al caviale" [esquerda caviar], concedida naquele 1996 ainda um pouco na onda da rugente Paris mitterrandiana, exibe duas celebridades talvez intelectuais demais. Certamente é brilhante a análise de Kristeva sobre as neuroses conclamadas de casais adulados como Sartre-Beauvoir. Mas às vezes transborda demais na teoria. O que é essencialmente um casamento? "Um modelo de harmonias dissonantes", conclui a estudiosa com mais um paradoxo.

No segundo intercâmbio proferido diante de uma esquisita plateia acadêmica (já estamos em 2011), em uma França culturalmente desorientada, que em 15 anos viu tantas velhas certezas e arrogâncias derretendo como cera, o alegre casal também parece estar visivelmente mudado.

Assim, entre uma dissertação de Julia e uma piada de Philippe, surge também a evocação de dois traumas privados que ocorreram justamente no navio "Gioielli" [joias, em italiano]: um aborto clandestino "dolorosamente sofrido", lembra Julia, antes de evocar David, o filho portador de deficiência que quase não conseguiu sobreviver. Reaparece assim a recordação de uma mulher desesperada por um pequeno, como milhões de outras pessoas neste velho mundo. Deitada em um colchãozinho em um quarto de hospital, implorando sabe-se lá a quem aos pés de um leito. Nesse lado íntimo, nasceu a necessidade das cartas trocadas com "Jean Vanier, católico, fundador da Arca, que criou casas de acolhimento para pessoas portadoras de deficiência em 140 países em todo o mundo".

Chega-se, assim, a um divisor de águas no livro. Porque os dois últimos textos, embora curtos, são de uma humanidade surpreendente. No fio das recordações, a partir do "pacto a dois" de Kristeva-Sollers, assinado no cartório em 1967, começam a brotar faíscas quentes. Despontam pepitas. Julia critica a "banalização dos espíritos que nos ameaça e que, a meu ver, é o mal radical". E, do seu casal, ela também evoca a herança comum recebida dos pais cristãos, ortodoxos búlgaros no seu caso, católicos para Philippe. Legados de família e de estudos em escolas religiosas no decorrer de infâncias a seu modo sonhadoras e que talvez nunca deixaram de sugerir uma estrada.

Muitas coisas, depois,  por um longo tempo, foram colocadas em uma gaveta, mas sobre veludo. Prontas para oferecer emoções vívidas no fio das recordações: "O adolescente Sollers é um fiel rebelde, nunca deixar de reinventar o próprio paraíso. Adão e Eva eram adolescentes. Dante e Beatriz também, todos nós somos adolescentes quando estamos apaixonados". Julia descreve aqui o marido no Collège des Bernardins, o centro cultural parisiense desejado pelo falecido cardeal Jean-Marie Lustiger.

Acaba-se falando de amor, mais do que de técnicas e transferências eróticas. E a brilhantíssima Julia, que emigrou quase clandestinamente aos 25 anos da Bulgária comunista para encontrar em Paris providencialmente os braços do seu Philippe, exalta então "o Cântico dos Cânticos, o texto amoroso preferido por mim, que funda – pela primeira vez no mundo, creio eu – a possibilidade de um vínculo amoroso entre um homem e uma mulher: poesia pura, entrelaçada com uma filosofia do impossível e, mesmo assim, alegre".

É uma obra-prima misteriosamente sempre verde também para o inveterado experimentador Philippe: "O Cântico dos Cânticos diz que o amor é forte como a morte. Isso me impressiona muito: se eu amo, poderei talvez ser tão forte quanto a morte ou vencer a morte?". Na autointitulada boca donjuanina, ressoam então notas de ternura conjugal: "Continuamos sendo crianças juntos, falando-nos como duas crianças".

Julia, no fim, como psicanalista, explica com palavras compreensíveis a todos que, "a partir do momento em que eu acredito ser amada – no sentido de uma certeza inabalável –, que o meu pai me ama, por exemplo, que a minha mãe me ama, então o ciúme não tem o poder de me intoxicar".

Por fim, é consolador que, mesmo nos altos apartamentos parisienses do Quartier Latin com vista para o Senado, o dantesco transumanar ainda provoca um suspiro.

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