“Basta de lamentações. Não podemos excomungar jovens que não são casados”, diz Papa aos bispos presentes em Filadélfia

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Por: André | 28 Setembro 2015

O Papa Francisco fala aos bispos que participam do Encontro das Famílias e diz que acaba de se reunir com um grupo de vítimas de pederastia clerical. Falando sobre a família, convida-os para não se queixarem pela secularização nem pelo fato de que os jovens já não se casam. “Devemos excomungá-los?”, pergunta Bergoglio. Convidando os pastores para valorizar a proposta positiva da família, acompanhando e curando as feridas, porque também aqueles que vivem nas situações mais complexas, como a samaritana com seus “cinco não-maridos”, descobrem que são capazes de dar testemunho.

A reportagem é de Andrea Tornielli e publicada por Vatican Insider, 27-09-2015. A tradução é de André Langer.

Desta vez, o Papa também pede aos bispos uma mudança de atitude, porque não se trata de um motivo de preocupação, mas da feliz confirmação da bênção de Deus. A estima e a gratuidade devem “prevalecer sobre as lamentações”, apesar de todos os obstáculos que enfrentamos.

Francisco não esconde “a profunda transformação do contexto atual, que incide sobre a cultura social – e agora também jurídica – dos laços familiares e que afeta a todos, crentes e não-crentes. O cristão não está ‘imune’ às mudanças do seu tempo”.

Recorda que tempos atrás se vivia em um contexto em que as afinidades da instituição civil e do sacramento cristão eram fortes e compartilhadas: estavam conectadas entre si e apoiavam-se mutuamente. Agora já não é mais assim, constata Francisco, já não se encontra a força para confiar. “Nos enganaríamos se interpretássemos a desafeição, que a cultura do mundo atual tem pelo matrimônio e a família, só em termos de puro e simples egoísmo. A cultural atual, explica o Papa, parece estimular as pessoas a entrar na dinâmica de não se vincular a nada nem a ninguém. Não confiar e não fiar-se. Porque a coisa mais importante hoje parece ser esta: correr atrás da última tendência ou atividade. E isto também no nível religioso. O consumo é que determina o que é importante hoje”.

E isto provoca, segundo Francisco, “uma grande ferida. Ousaria dizer que uma das principais pobrezas ou raízes de muitas situações contemporâneas é a solidão radical a que se veem forçadas muitas pessoas. E assim, indo atrás do que ‘me agrada’, olhando para o aumento do número de ‘seguidores’ numa rede social qualquer, as pessoas seguem a proposta oferecida por esta sociedade contemporânea. Uma solidão temerosa de qualquer compromisso, numa busca frenética de se sentir reconhecido”.

“Devemos – perguntou-se o Papa – condenar os nossos jovens por terem crescido nesta sociedade? Devemos excomungá-los, porque vivem neste mundo? Será preciso ouvirem da boca de seus pastores frases como estas: ‘antes era melhor’, ‘o mundo está um desastre e, se continuar assim, não sabemos como iremos acabar’? Isto me soa a um tango argentino. Não, não creio que seja este o caminho. Nós pastores, seguindo os passos do Pastor, somos convidados a procurar, acompanhar, erguer, curar as feridas do nosso tempo. Olhar a realidade com os olhos de quem sabe que é chamado a se mexer, é chamado à conversão pastoral. O mundo atual pede-nos com insistência esta conversão. ‘É vital que hoje a Igreja saia para anunciar o Evangelho a todos, em todos os lugares, em todas as ocasiões, sem demora, sem repugnâncias e sem medo. A alegria do Evangelho é para todo o povo, não se pode excluir ninguém’ (Evangelii Gaudium, 23). O Evangelho não é um produto de consumo.”

Francisco disse que seria errado interpretar esta “cultura do mundo atual” apenas como se fosse “aversão ao matrimônio e à família, em termos de puro e simples egoísmo. Será que os jovens deste tempo se tornaram todos irremediavelmente medrosos, frágeis, inconsistentes? Não nos deixemos cair na cilada! Muitos jovens, no contexto desta cultura dissuasiva, interiorizaram uma espécie de medo inconsciente, que os paralisa relativamente aos impulsos mais belos e mais altos, e também mais necessários. Há muitos que adiam o matrimônio à espera das condições ideais de bem-estar. Entretanto, a vida é consumida sem sabor. Porque a sabedoria dos verdadeiros sabores matura com o tempo, como fruto de um generoso investimento da paixão, da inteligência e do entusiasmo”.

No Congresso dos Estados Unidos, há alguns dias, recorda Bergoglio, explicou que “estamos vivendo uma cultura que impulsiona e convence os jovens a não fundar uma família. Uns pela falta de recursos materiais para fazê-lo, e outros por ter tantos meios que estão cômodos assim. Mas, essa é a tentação, não fundar uma família”.

“Como pastores – destaca –, nós bispos, somos chamados a reunir as forças e a relançar o entusiasmo pelo nascimento de famílias que correspondam mais plenamente à bênção de Deus, segundo a sua vocação. Devemos investir as nossas energias não tanto para explicar uma vez e outra os defeitos da condição hodierna e os valores do cristianismo, como sobretudo convidar com audácia os jovens a serem ousados na opção do matrimônio e da família. Em Buenos Aires, quantas mulheres se lamentam... ‘Tenho meu filho de 30, 32, 34 anos e ele não se casa, não sei o que fazer’. ‘Senhora, não passe mais as roupas dele’. Devemos entusiasmar os jovens para que não corram esse risco, mas é um risco de fecundidade e de vida”.

Naturalmente, a característica fundamental do estilo de vida do bispo é – insiste o Papa Francisco –, “em primeiro lugar, viver o espírito desta jubilosa familiaridade com Deus e propagar a sua emocionante fecundidade evangélica, rezar e anunciar o Evangelho. Sempre me chamou a atenção quando, no começo, nas origens da Igreja, os helênicos foram se queixar junto aos apóstolos porque as viúvas e os órfãos não eram bem atendidos. Claro, os apóstolos não distribuíam alimentos, então descuidavam. Reuniram-se e inventaram os diáconos. O Espírito Santo inspirou-lhes constituir diáconos, e quando Pedro anuncia a decisão, explica: vamos escolher sete homens, assim, assim, para que se ocupem desta questão. A nós pastores nos tocam duas coisas: a oração e a pregação. Qual é o primeiro trabalho do bispo? Orar, rezar. O segundo trabalho que vai junto com esse: pregar. Ajuda-nos esta definição, se não me engano do cardeal Müller, eh? Ajuda-nos, porque define qual é o papel dos bispos, é constituído para pastorear, é pastor, mas pastorear primeiro com a oração e com o anúncio. Depois vem todo o resto, se restar tempo”.

O Papa critica “um cristianismo que pouco ‘faz’ na realidade e ‘se explica’ infinitamente na formação”, vive uma desproporção “perigosa” e encontra-se em “um verdadeiro e próprio círculo vicioso”. O pastor “deve mostrar que o Evangelho da família é verdadeiramente a ‘boa notícia’ em um mundo em que a atenção para consigo mesmo parece reinar soberana. Não se trata de fantasia romântica: a tenacidade em formar uma família e levá-la por diante transforma o mundo e a história”.

Francisco convida os bispos para “perder tempo” com as famílias, estando com elas e compartilhando suas dificuldades, sabendo que estar perto daqueles que se perderam, dos abandonados, dos feridos, dos devastados e dos que foram despojados de sua dignidade. Se “formos capazes deste rigor dos afetos de Deus – conclui Bergoglio –, usando infinita paciência, e sem ressentimento, com os sulcos nem sempre lineares onde devemos semeá-los, até uma mulher samaritana com cinco ‘não-maridos’ se descobrirá capaz de dar testemunho. E, para um jovem rico que tristemente sente que deve pensar ainda com calma, um maduro publicano descerá precipitadamente da árvore e far-se-á paladino dos pobres, nos quais nunca pensara até então”.

“Que Deus nos conceda – pede o Papa Francisco ao concluir – o dom desta nova proximidade entre a família e a Igreja. Dela tem necessidade a família, a Igreja e os pastores”.

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