"Não à pena de morte e ao comércio de armas": o papa "progressista" adverte o Congresso

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26 Setembro 2015

"A maioria de nós fomos uma vez estrangeiros. Recordemos a regra de ouro: faça aos outros o que gostaria que fizessem a você. A América foi grande quando defendeu a liberdade e os direitos para todos, com Lincoln e Martin Luther King." O Papa Francisco é o primeiro pontífice da história a falar ao Congresso dos Estados Unidos em sessão conjunta. Ele conquista Washington com um discurso apaixonado e também duro: pede a abolição da pena de morte e da venda de armas, invoca políticas de acolhida para imigrantes e refugiados, um compromisso contra as desigualdades, a luta contra as mudanças climáticas. São os grandes temas do seu pontificado, mas, dentro da sala do Congresso, diante dos legisladores da superpotência mundial, eles assumem um peso político enorme.

A reportagem é de Federico Rampini, publicada no jornal La Repubblica, 25-09-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Standing ovation: é unânime o aplauso de pé na sua chegada, mas enquanto o papa profere o seu discurso os aplausos tornam-se mais alinhados e seletivos. "Um discurso claramente progressista", julgam-no todos os meios de comunicação norte-americanos, do New York Times ao Washington Post, do Huffington Post ao Politico.com.

O entusiasmo, ao contrário, é avassalador e incondicional na multidão que assiste do lado de fora: 50.000 pessoas o acompanham nos telões montados especialmente no West Lawn, vasto gramado na colina do Capitólio na capital federal.

O Papa Bergoglio mediu, no dia anterior, as afinidades eletivas com Barack Obama. Mas é uma América diferente a que o esperava no Congresso. Essa é a cova dos leões, uma maioria de republicanos, em plena campanha para a nomeação presidencial: à direita está em voga a xenofobia de Donald Trump, o negacionismo climático dos irmãos Koch, o apoio ao lobby das armas e à pena de morte, a recusa de políticas fiscais redistributivas.

Sobre cada um desses temas, o papa não faz concessões, não suaviza as asperidades. Ele fala diante de um Congresso onde, além de senadores e deputados, estão governadores dos Estados, candidatos presidenciais e muitos VIPs convidados.

Com uma enorme representação do mundo católico: são católicos o vice-presidente, Joe Biden, e o secretário de Estado, John Kerry, o presidente da Câmara (o republicano John Boehner) e a líder democrata Nancy Pelosi. Cerca de 31% dos católicos no Congresso, enquanto na população dos EUA são 22%.

O sonho americano e a acolhida aos estrangeiros são o primeiro tema forte do discurso, Bergoglio o aborda partindo da sua biografia e o expressa falando de Américas, no plural. "Milhões de pessoas vieram a esta terra para buscar o seu sonho de construir um futuro em liberdade. Nós, os povos deste continente, não temos medo dos estrangeiros, porque muitos de nós foram estrangeiros. Digo isso a vocês como um filho de imigrantes, sabendo que muitos de vocês também são descendentes de imigrantes. (…) Milhares de pessoas são levadas a viajar para o Norte em busca de uma vida melhor para si mesmas e para os seus entes queridos, em busca de melhores oportunidades. Não é o mesmo que nós queremos para os nossos próprios filhos?"

Ele coloca na mira os quatro males mais graves do nosso tempo: ódio, ganância por dinheiro, pobreza, poluição. Mas se destaca uma passagem sobre o papel do dinheiro na política, e há um reconhecimento à economia de mercado que é notado pelos norte-americanos: "A atividade empresarial é uma nobre vocação orientada para produzir riqueza e melhorar o mundo para todos, pode ser uma maneira muito fecunda de promover a região onde instala os seus empreendimentos, sobretudo se pensa que a criação de postos de trabalho é parte imprescindível do seu serviço ao bem comum".

Sobre a proteção do ambiente, o papa põe em causa diretamente o Congresso, onde tantas reformas do governo Obama estão paralisadas: "Eu não tenho nenhuma dúvida de que os Estados Unidos e este Congresso têm um papel importante a desempenhar. Agora é a hora de ações e estratégias corajosas", para combater os efeitos mais graves da degradação ambiental causadas pela atividade humana.

É a passagem sobre os imigrantes que torna mais clara a diferença de reações. "Não devemos nos assustar com os seus números, mas vê-los como pessoas, ver os seus rostos e ouvir as suas histórias, tentando responder da melhor forma que conseguirmos à sua situação." Dentro da sala do Congresso, só os democratas aplaudem. Do lado de fora, no grande gramado, há um rugido de aprovação: muitos hispânicos vieram para ouvi-lo de toda a América.

Um gelo na direita também quando o pontífice invoca a abolição da pena capital: "Peço a abolição global da pena de morte. Toda pessoa humana tem uma dignidade inalienável, e a sociedade só pode se beneficiar com a reabilitação dos condenados por crimes".

Mais ardente foi a afirmação sobre as armas: o papa não condenou apenas o grande tráfico internacional de armas, mas também as vendas individuais, um assunto tabu para a direita norte-americana, alinhada com o lobby da National Rifle Association.

A direita aplaude unida quando o papa defende o valor tradicional da família. No entanto, aqui também Bergoglio insere uma referência à crise econômica, ao desemprego, às desigualdades: "Os jovens estão sob pressão, não formam famílias porque não veem um futuro de possibilidades".

E denuncia a "espiral de pobreza que aprisiona tantas pessoas": tema central da Assembleia da ONU à qual falará hoje. As Nações Unidas devem fazer um balanço das Metas do Milênio. O Banco Mundial destaca que haverá 148 milhões de pobres a mais, se o limiar da pobreza absoluta for atualizada.

Um discurso pouco "religioso": a única referência explícita às Escrituras é uma citação de Moisés, isto é, a figura bíblica reconhecida pelas três religiões monoteístas, judeus, cristãos e muçulmanos. O discurso ao Congresso se encerra com o desejo de que o sonho americano permaneça fiel à sua inspiração original: paz, liberdade, defesa dos oprimidos.

Antes de voar para Nova York, o papa celebrou a missa em espanhol na Igreja de St. Patrick, onde famílias pobres estavam reunidas. Lá, ele voltou ao tema que lhe é mais caro: "O Filho de Deus veio ao mundo como um homeless [sem-teto]. Ele soube o que significava começar a vida sem um teto".

Poucas horas antes, Los Angeles, a metrópole glamourosa da riquíssima Califórnia, teve que tomar uma medida sem precedentes: a proclamação de um estado de emergência pelo aumento dos homeless.

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