Financeirização do campo da saúde e medicalização da vida

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24 Setembro 2015

A sociedade neoliberal se vê tensionada pelo medo do risco na saúde e aprisionada por manuais de conduta de prevenção como garantia do futuro

Luis David Castiel
Foto: Leslie Chaves/IHU
A lógica econômica permeia a organização social contemporânea, contaminando toda sorte de relações de outras ordens que não têm relação com o âmbito monetário. Trata-se de uma das faces do neoliberalismo: a financeirização, que em linhas gerais consiste na transposição da perspectiva financeira como balizadora de outros campos, entre esses a saúde, que esteve em foco na conferência do professor Luis David Castiel, na manhã desta quarta-feira, 23-09-2015, no Anfiteatro Pe. Werner, no campus da Unisinos em São Leopoldo. A atividade integra a programação do V Colóquio Latino-Americano de Biopolítica, o III Colóquio Internacional de Biopolítica e Educação e o XVII Simpósio Internacional IHU - Saberes e Práticas na Constituição dos Sujeitos na Contemporaneidade, que acontece até o dia 24 de setembro na universidade.

Em sua exposição intitulada “Autocontrole e biopolítica: a gerência do risco na saúde”, o professor defende a importância de considerar o contexto contemporâneo para entender os processos engendrados na área médica. “É inegável a capacidade da medicina em seus turnos técnicos e científicos, eficácia instrumental e tecnocientífica, mas ela está inserida no contexto histórico, biopolítico e econômico neoliberal. Assim, para além do atendimento da saúde, muitas coisas estão envolvidas nesse campo”, aponta.

Entre esses elementos que extrapolam o ato médico especificamente, está o ponto de vista ético, uma questão de fundo que move e atravessa os modos de exercício dessa atividade. Conforme enfatiza Castiel, a medicina também acaba se valendo da “ética da financeirização gerencialista vigente, que é utilitarista, isto é, dá ênfase às escolhas individuais na busca de benefícios, mesmo que ele venha para poucos. A questão que se coloca é: O que se faz com os que não foram beneficiados?”, indaga.

Sob este prisma, o médico se transforma em prestador de serviços de saúde e o paciente em cliente. “É aí que se arruína a relação médico-paciente, uma vez que os médicos tendem mais a serem profissionais neoliberais prestadores de serviços técnicos e menos cuidadores. Nessa relação se consegue resolver agravos de saúde, mas não se resolvem as aflições das vicissitudes dos pacientes nesse âmbito do zelo da vida. Assim, no atendimento médico muitas vezes há más práticas que ao transformar o paciente em cliente, condicionam a qualidade da consulta à forma de pagamento”, esclarece o professor.

Castiel ressalta ainda que hoje há no campo médico uma perspectiva de “gestão gerencialista” mediante protocolos que transformam os médicos cada vez mais em “protocologistas”. Tal mecanismo acentua ainda mais o processo de financeirização desse campo, pois torna os atos médicos passíveis de monitoração pelos gestores com vistas a otimizar a relação entre custos e ganhos. Pensamento que conduz a uma dinâmica de política de redução de danos e custos através de medidas de controle.

Essa questão do controle começa a ser estruturada desde as investigações científicas. De acordo com o professor, os cientistas produzem pesquisas e discursos acerca dos objetos de estudos como se estes elementos estivessem separados e protegidos da realidade. Entretanto, além da existência de alguns objetos estáveis, há outros instáveis, em relação aos quais o contexto deve ser considerado em sua análise. A consequência é que sem esta condição se produzem manuais, estratégias retóricas que recomendam o que fazer ou não fazer para manter a saúde, que acabam centrando no paciente a responsabilidade pelo cuidado de si. “Há um moralismo conservador em tudo, baseado em evidências científicas com frequência construídas dessa forma. A ciência é movida pela representação, pela construção de metáforas e alegorias. Na medicina a produção de conhecimento e nossas relações nesse espaço são mediadas por representações”, constata.

Dentro desse esquema se inclui um ato tomado exaustivamente pela medicina: a prevenção, que é a ação de prevenir advertindo, de trabalhar a partir de uma representação de algo que ainda não existe na sua vida, mas já está nas pesquisas. Conforme analisa Castiel, “o tempo todo somos impelidos e advertidos a antecipar tudo (as doenças, o envelhecimento etc.), mas se você se viciar nisso também será advertido, tratado e medicalizado. Para citar Foucault, isso é sintoma da geração do homo oeconomicus, que transforma tudo em números e acredita que só existe o que for possível de ser mensurável. Constrói-se uma ideia de verdade sancionada pela experimentação”.

Medicamentalidade e o lado obscuro da medicalização

São extremas as dificuldades de atenuar a atuação poderosa e abusiva da indústria farmacêutica no contexto do neoliberalismo sustentável em suas estratégias mercadológicas. “Essas indústrias visam à proliferação contínua do consumo de medicamentos e recursos diagnósticos através de práticas eticamente discutíveis. Muitas pesquisas sobre doenças são financiadas pela indústria farmacêutica que deseja resgatar seu investimento e ter mais retorno sobre dele. Um dos efeitos dessa organização é o escamoteio dos efeitos colaterais que podem advir das medicações, muitas vezes compactuado pelos médicos”, denuncia o professor. Nesse cenário, se debilitam as interações entre médico e paciente, médico e outros profissionais, gerando uma a crise de confiança.

A prática da medicalização está sendo transportada para outras áreas como a nutrição, onde os alimentos são vistos como remédios para certas doenças; a odontologia, com a ênfase em tratamentos estéticos como remédio para a autoestima; a educação-física, onde o exercício é o remédio para muitos males da saúde, entre outras áreas. Nesse espírito, cada vez mais se trata o risco antes da existência da doença. “O excesso de precaução gerado pelo cuidado do risco em lugar da doença propicia um exagero nos tratamentos, com a administração de medicamentos mais fortes e em maior quantidade em busca de garantir a eficácia”, ressalta.

“Moderem a moderação”

Esse é o recado de Castiel a respeito da vida presente, que atualmente ele traduz como a colonização do futuro, sempre direcionada ao risco e à prevenção. “A sociedade do risco exige um presente altamente securitizado para assegurar o futuro. A lógica do medo e da prevenção do risco autentica suas ideias a partir de gráficos que modelam pensamentos e colonizam as pessoas e seus modos de viver. Assim se constroem mandamentos sobre como viver para se salvar e quais são os comportamentos saudáveis e virtuosos a serem seguidos. E seguir esses manuais não é tarefa fácil, há uma série de recomendações e modismos opressivos em jogo. Portanto, moderem a moderação”, recomenda. E ainda destaca que “debater esses temas a partir do conceito de biopolítica é um bom caminho para desmistificar essas concepções e discuti-las de maneira crítica”.

Quem é o conferencista:

Luis David Castiel
Foto: Leslie Chaves/IHU
Luis David Castiel é graduado em Medicina pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, mestre Medicina Comunitária pela University of London, doutor em Saúde Pública pela Fundação Oswaldo Cruz, e pós-doutor pelo Departamento de Enfermeria Comunitaria, Saúde Pública y Historia de la Ciencia da Universidade de Alicante, da Espanha. É pesquisador titular do Departamento de Epidemiología e Métodos Quantitativos em Saúde, Escola Nacional de Saúde Pública, Fundação Oswaldo Cruz. É professor permanente do Programa de Pós-graduação em Saúde Pública e do Programa de Pós-graduação de Epidemiologia em Saúde Pública.Fundação Oswaldo Cruz – FIOCRUZ

Por Leslie Chaves

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