O Papa aos jovens cubanos: “Sonhem e caminhem juntos”

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Por: André | 22 Setembro 2015

No domingo à tarde o Papa Francisco participou, no Centro Cultural Padre Félix Varela, de um encontro com cerca de 5 mil jovens, aos quais dirigiu o seguinte discurso improvisado, após ouvir o testemunho do jovem cubano Leonardo Fernández.

A reflexão é publicada por Iglesia Cubana, 20-09-2015. A tradução é de André Langer.

Eis as reflexões do Papa.

Vocês estão em pé e eu estou sentado, que vergonha! Mas sabem por que me sento? Porque anotei algumas coisas que o nosso companheiro disse, e sobre estas coisas quero lhes falar.

Uma palavra que soou forte: sonhar. Um escritor latino-americano dizia que as pessoas têm dois olhos: um de carne e outro de vidro. Com o olho de carne vemos o que olhamos. Com o olho de vidro vemos o que sonhamos. Lindo, né?

Na objetividade da vida tem que entrar a capacidade de sonhar. E um jovem que não é capaz de sonhar está enclausurado em si mesmo. Cada um, às vezes, sonha coisas que nunca vão acontecer. Mas, sonhe, deseje, procure horizontes, abra-se, abra-se a coisas grandes. Não sei se em Cuba se usa a palavra, mas os argentinos dizem: ‘não se enrugue, né?’. Abra-se e sonhe, sonhe que o mundo contigo pode ser diferente.

Sonhe que se você puser o melhor de si, vai ajudar para que esse mundo seja diferente. Não se esqueçam: sonhem. Por aí se vai e sonhem muito e a vida corta o caminho, não importa, sonhem e contem seus sonhos. Contem, falem das coisas grandes que desejam, porque quanto maior é a capacidade de sonhar e a vida lhe deixa a metade do caminho, mais terá percorrido. Assim, primeiro sonhar.

Você disse uma frase – eu a tinha escrita na intervenção dele porque a sublinhei e tomei alguma nota – ‘que saibamos acolher e aceitar quem pensa diferente’. Realmente nós, às vezes, somos fechados. Entramos em nosso mundinho: ou este é como eu quero que seja ou não. E foi mais à frente ainda: que não nos encerremos. Que não nos encerremos nos conventinhos das ideologias ou nos conventinhos das religiões, que possamos crescer ante os individualismos.

Quando uma religião se torna conventinho, perde o melhor que tem, perde sua realidade de adorar a Deus, de acreditar em Deus. É um conventinho, é um conventinho de palavras, de orações, de eu sou bom, você é mau, de prescrições morais e quando eu tenho minha ideologia, meu modo de pensar e você tem o seu, me fecho nesse conventinho de ideologias.

Corações abertos, mentes abertas. Se você pensar diferente de mim, por que não vamos falar? Por que sempre atiramos a pedra sobre aquilo que nos separa, sobre aquilo em que somos diferentes? Por que não nos damos as mãos naquilo que temos em comum? Animemo-nos a falar do que temos em comum e depois podemos falar das coisas que temos diferentes ou que pensamos, mas digo falar, não digo brigar, não digo nos encerrar, não digo ‘conventillar’ – como você usou a palavra. Mas isso somente é possível quando a gente tem a capacidade de falar daquilo que temos em comum com o outro, daquilo para o qual somos capazes de trabalhar juntos.

Em Buenos Aires, certa vez estavam em obras em uma paróquia nova, em uma área muito, muito pobre. Um grupo de jovens da universidade estava construindo salões paroquiais e o pároco me disse: por que não vem em um sábado e assim apresento-os a você. Trabalhavam sábados e domingos na construção. Eram rapazes e moças da universidade... Então cheguei e os vi e o pároco os foi apresentando. Este é o arquiteto, é judeu, este é comunista, este é católico praticante, todos eram diferentes, mas todos estavam trabalhando em comum pelo bem comum. Isso se chama amizade social, procurar o bem comum.

A inimizade social destrói e uma família se destrói pela inimizade, um país se destrói pela inimizade, o mundo se destrói pela inimizade. E a inimizade maior é a guerra. E hoje em dia, vemos que o mundo está se destruindo pela guerra, porque são incapazes de sentar-se e falar. Bom, negociemos, que coisas podemos fazer em comum? Em que coisas não vamos ceder? Mas, não matemos mais gente. Quando há divisão, há morte. Há morte na alma porque estamos matando a capacidade de unir, estamos matando a amizade social. E eu peço a vocês hoje: sejam capazes de criar a amizade social.

Depois saiu outra palavra que você disse... a palavra esperança. Os jovens são a esperança de um povo, isso ouvimos em todos os lados, mas o que é a esperança? É ser otimista? Não! Otimismo é um estado de ânimo. Amanhã, levanta com dor de fígado e não é otimista, vê tudo escuro. Ou seja, a esperança é algo mais, a esperança é sofrida, a esperança sabe sofrer para levar adiante um projeto, sabe sacrificar-se. Você é capaz de se sacrificar por um futuro? Ou só quer viver o presente e que se virem os que vierem depois?

A esperança é fecunda, a esperança dá vida. Você é capaz de dar vida? Ou vai ser um rapaz ou uma moça espiritualmente estéril, sem capacidade de criar vida para os outros, sem capacidade de criar amizade social, sem capacidade de criar pátria, sem capacidade de criar grandeza? A esperança é fecunda.

A esperança se dá no trabalho e aqui quero me referir a um problema muito grave que se está vivendo na Europa: a quantidade de jovens que não têm trabalho. Há países na Europa em que 40% dos jovens com menos de 25 anos vivem desempregados. Penso em um país. Outro país, 47%, outro país, 50 %.

Evidentemente, um povo que não se preocupa em dar trabalho aos jovens – e quando digo povo não digo governos – esse povo não tem futuro.  Os jovens fazem parte da cultura do descarte e todos sabem que hoje, neste império do deus dinheiro, descartam-se as coisas e descartam-se as pessoas.

Descartam-se os rapazes porque não os querem ou porque os matam antes de nascer. Descartam-se os idosos... estou falando do mundo em geral, descartam-se os idosos porque já não produzem. Em alguns países, há lei de eutanásia, mas em tantos outros, há uma eutanásia escondida, encoberta. Descartam-se os jovens porque não lhes dão trabalho. Então, o que resta a um jovem sem trabalho?

Um país que não inventa, um povo que não cria possibilidades trabalhistas para seus jovens, a esse jovem resta ou os vícios ou o suicídio ou sair por aí procurando exércitos de destruição para criar guerras. Esta cultura do descarte está fazendo mal a todos; tira-nos a esperança e é o que você pediu para os jovens.

‘Queremos esperança’, esperança que, sofrida, é trabalhadora, é fecunda, dá-nos trabalho e nos salva da cultura do descarte e esta esperança que é convocadora, convocadora de todos, porque um povo que sabe autoconvocar-se para olhar o futuro e construir a amizade social, como disse, embora pense diferente, esse povo tem esperança.

E se eu me encontro com um jovem sem esperança... certa vez eu disse: jovens aposentados. Há jovens que parece que se aposentam aos 22 anos. São jovens com tristeza existencial, são jovens que apostaram sua vida no derrotismo básico, são jovens que se lamentam, são jovens que fogem da vida.

O caminho da esperança não é fácil e não pode ser percorrido sozinho. Há um provérbio africano que diz: ‘se quer ir depressa, anda sozinho, mas se quer chegar longe, anda acompanhado’. E eu digo a vocês, jovens cubanos, embora pensem diferente, embora tenham seus pontos de vista diferentes, quero que vão acompanhados, juntos, procurando a esperança, procurando o futuro e a nobreza da pátria.

E assim começamos com a palavra sonhar e quero terminar com outra palavra que você disse e que eu estou acostumado a usar bastante: ‘a cultura do encontro’. Por favor, não nos ‘desencontremos’ entre nós mesmos. Andemos acompanhados, unidos, encontrados, embora pensemos diferente, embora sintamos diferente, mas há algo que é superior a nós, é a grandeza de nosso povo, é a grandeza de nossa pátria, é essa beleza, essa doce esperança da pátria a que temos que chegar.

Muito obrigado!

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