Teilhard de Chardin e as mulheres; guiado por seu entourage feminino.

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09 Setembro 2015

Publicamos trechos da palestra ministrada pelo Padre Bosco Lu, jesuíta chinês, no Congresso sobre Teilhard de Chardin, realizado em Pequim em outubro de 2003. 

Os textos foram publicados por Nouvelle Revue Théologique e reproduzidos por L'Osservatore Romano, 01-09-2015. A tradução é de Ramiro Mincato.

Quase todo mundo conhece Teilhard de Chardin cientista e sacerdote, mas poucos sabem que foi também um homem apaixonado. Como cientista, tornou-se famoso com a teoria da evolução. Como sacerdote e jesuíta, ofereceu-se totalmente a Deus. Entrou na Companhia de Jesus em 1899, foi ordenado sacerdote em 1911, e fez sua profissão solene em 1918.

Não obstante as provações enfrentadas durante sua vida tumultuada, nunca pôs em dúvida sua vocação inicial. Permaneceu toda sua vida sacerdote e cientista. O universo era para Teilhard uma realidade viva, dinâmica e pessoal. Repetir sempre que o universo tem espírito, coração e rosto. O rosto, no final, tornou-se o para ele o rosto de Cristo. Inspirado pelo “Eterno Feminino” representado pela Beatriz de Dante, Teilhard desenvolveu a teologia do princípio unificador. Beatriz é vista como Maria. Logo depois, esta beleza concretizar-se-á em várias mulheres.

Jesuíta, Sacerdote e cientista, como juntou, Teilhard Chardin, o amor a Deus e o amor por uma mulher? Como favoreceu-se desta experiência amorosa?

Para Teilhard o universo não é um “Ele”, mas um “Tu”, que se preocupa e se envolve comigo num diálogo. No “Hino à Matéria” dizia: “Eu te saúdo, Meio Divino, carregado de Potência Criadora, Oceano agitado pelo Espírito, Argila amassada e animada pelo Verbo encarnado. (…) Se quisermos ter a ti, é preciso que te sublimemos na dor, depois de haver-te voluptuosamente agarrado em nossos braços.” Para Teilhard, a elevação espiritual era comunhão espiritual com Deus por meio da Mãe Terra. A fé no Senhor ressuscitado levou-o ao Cristo cósmico, pleno de amor-energia que renova o mundo. Em sua procura mística, foi acompanhado, incentivado e, até mesmo guiado pelo seu entourage feminino.

A Divina Comédia” de Dante e o “Eterno Feminino” de Goethe, na segunda parte do Fausto, inspiraram Teilhard a descobrir o Eterno Feminino. Thomas King escreve no prefácio das Cartas: "Em março de 1918, Teilhard escreveu um ensaio, “O Eterno Feminino”. Nele explica que "quando o homem ama uma mulher, imagina que seu amor vai somente para uma pessoa como ela, que o envolve com seu poder e que se une com ela livremente". Mas logo é surpreendido pela violência das forças que se manifestam nele e "estremece ao compreender" que não pode estar unido ao Feminino sem "submeter-se a um trabalho escravo de criação universal". Assim, o Feminino é percebido como a força que faz o homem sair de si mesmo, para entrar na vida. O Evangelho recomendou a virgindade, o que não significa, em absoluto, que o Feminino devia perder seu poder. A virgindade não deve banir o amor do coração humano: "Ao contrário, deve mantê-lo, fundamentalmente, humano”.

De acordo com Henri de Lubac, o motivo por que Teilhard mudou Beatriz em Beatrix é que ele queria transformar o ideal virginal presente em Dante, numa Virgem Cristã bem concreta, Maria. A primeira, vagamente identificada, envolta num véu, como símbolo, não podia revelar o mistério do Feminino em sua essência mais pura. Nossa Senhora, ao contrário, como mãe do Verbo Encarnado, é uma pessoa real. Em Maria, Teilhard espelhava sua vocação e o modo de viver no celibato consagrado.

Foi somente depois da longa formação, concluída em 1911, com a ordenação sacerdotal, quando já tinha trinta anos, especializando-se em Paleontologia em Paris, que viveu sua primeira experiência amorosa. Este episódio influenciaria sua compreensão do Feminino. Marguerite Teilhard-Chambon, prima distante de Pierre, seis meses mais velha do que ele, também tinha crescido em Clermont-Ferrand. Como crianças, compartilharam muitas experiências. Marguerite, mudou-se depois para Paris, habilitou-se em filosofia e ensinava numa escola de renome. Seu reencontro, depois de longa separação, representou uma etapa importante na educação sentimental de Teilhard.

A relação entre o jovem sacerdote e sua prima foi, em todos os sentidos, um verdadeiro encontro de amor. Ursula King descreve assim a história: "Teilhard descobriu o poder do “ideal feminino" e da "beleza inalterável" somente quando encontrou sua prima Marguerite, como mulher adulta, culta, inteligente, espírito sutil, cheia de charme e muito gentil, dotada de fé e devoção profundas. Encontraram-se, na véspera da guerra, e se apaixonaram. Ela foi a primeira a ouvi-lo desenvolver suas ideias, foi sua primeira leitora, bem como sua primeira crítica. Havia entre eles colaboração espiritual e intelectual, mas Marguerite também foi a primeira mulher a amá-lo como homem, e foi graças a ela que Teilhard encontrou-se totalmente consigo mesmo. A descoberta do amor por Marguerite e a resposta amorosa dela mudou tudo. Aquela foi exatamente a energia que ele precisava, para que suas ideias fermentassem e se organizassem plenamente"(Spirit of Fire).

Em dezembro 1914, Teilhard foi alistado. Do fronte, escreve várias cartas para Marguerite e compreende que o celibato não exclui certa intimidade com o outro sexo. No elogio do “Eterno Feminino”, diz à mulher: "Quem ouve o chamado de Jesus não deve banir o amor de seu coração. Pelo contrário, deve permanecer essencialmente humano. Tem, portanto, necessidade de mim para sensibilizar suas forças e despertar sua alma à paixão do divino". Num dos últimos livros, “O Coração da Matéria”, Teilhard diz que ninguém, mesmo dedicado à Deus, pode encontrar o caminho para "a maturidade e plenitude espiritual, fora da influência sentimental que sensibiliza a inteligência e estimula, ao menos inicialmente, a força de amar. Não mais do quanto pode fazer a menos da luz, do oxigênio e das vitaminas, nenhum homem pode fazer a menos do feminino".

Depois de Marguerite, Teilhard teve relacionamento profundo com Léontine Zanta, Ida Treat, Lucille Swan, Rhoda de Terra, Claude Rivière, Jeanne Mortier e outras, mas nunca desviou-se do seu fim: todo amor para com uma mulher é para Deus e com Deus, e em última análise, deverá convergir em Deus. Seu amor para com cada uma das mulher constituía um relacionamento "a três termos: homem, mulher e Deus". Esta forma triangular do amor, ou o amor-a-três, era, para Teilhard, o princípio do amor, não apenas para ele e para os religiosos, mas para toda a humanidade. "Logo só terá Deus para ti, num universo inteiramente virginizado. É Deus quem te espera em mim".

Vejamos agora a amizade extraordinária que uniu Teilhard e Lucille Swan, e o preço para manter este relacionamento. Encontraram-se em Pequim, pela primeira vez, em 1929. A lua de mel na Cidade Proibida durará doze anos. Teilhard, em grande parte, desenvolveu, seu poder criativo graças às conversas com Lucille. Sua correspondência epistolar, iniciada em 1932, continuou por vinte e três anos. O aparecimento desta americana sacudiu os princípios do amor-a-três.

Lucille era escultora, divorciada, recém chegada em Pequim, de Iowa. Conheceu Teilhard por meio do Dr. Grabau, geólogo americano, no outono de 1929. Teilhard tinha quarenta e oito anos, Lucille, nove a menos. Tornaram-se bons amigos. Em 1932 Lucille fez o primeiro busto de Teilhard. Em seu estúdio, enquanto posava como modelo, continuavam suas longas conversas. No outono do mesmo ano, Teilhard partiu para a França, ausentando-se por seis meses. Do navio, escreveu a primeira carta a Lucille (30 de agosto de 1932). No ano seguinte, foi para os Estados Unidos, e as cartas tornaram-se mais frequentes, em intervalos de seis ou treze dias.

Lucille acendera nele um fogo intenso que arderia todos os anos da sua maturidade. Sua família, seus amigos e seus futuros admiradores conheceram a força do seu amor recíproco, sua intimidade e seu compromisso, sua separação, seu desencanto e seu sofrimento somente muitos anos depois da morte de ambos. De fato, tiveram muito mais do que uma simples amizade. Não compartilhavam apenas as mesmas ideias, mas também a vida, até nos mínimos detalhes.

Em 1950, Teilhard, aos sessenta e nove anos, no “O Coração da Matéria”, escreveu sua autobiografia, terminando com a frase: "nada se desenvolveu em mim, senão sob o olhar ou sob a influência de uma mulher". Enviou cópia do livro para Lucille dizendo: "Você sempre me ajudou, por quase vinte anos, a subir para Deus, mais luminoso e mais quente". Lucille não foi, porém, só uma colega de trabalho, mas parte da sua personalidade. "Você tornou-se parte da minha vida mais profunda" (17 de julho de 1936). O itinerário místico de Teilhard foi facilitado com o auxílio da mulher que o acompanhava: Lucille. Era uma mulher que precisava de amor e tinha coragem de amar. Sua agonia começou, quando o relacionamento tornou-se mais profundo. Teilhard sonhava com um caminho de virgindade, ou de amor-a-três, que levasse a convergência, enquanto Lucille procurava algo mais. "A amizade é certamente a forma mais elevada do amor, e também a mais difícil. Meus instintos de mulher são tão fortes. É tão difícil aprender a controlar esse amor".

Um ano após o fim da II Guerra Mundial, Teilhard voltou para a Europa. De Paris, fez várias viagens a Nova York e África do Sul. Em dezembro de 1951, emigrou para os Estados Unidos, e lá se estabeleceu de forma definitiva. Naquela década foi Rhoda de Terra quem ficou permanentemente ao lado de Teilhard, tanto em Paris como em Nova York, e também em duas viagens à África do Sul. A presença constante ao seu lado despertou uma crise terrível em Lucille. Depois da crise cardíaca de Teilhard, em 1947, Rhoda tornou-se, aos poucos, sua enfermeira-secretária. Em dezembro de 1951, quando Teilhard mudou-se para os Estados Unidos, estava muito fraco, mas extremamente envolvido na pesquisa acadêmica. Lucille ocasionalmente viajava para Nova York para vê-lo. Teilhard pediu-lhe para reduzir suas visitas, para escrever e telefonar com menos frequência, porque sentia-se demasiadamente fraco. Enquanto isso, Rhoda estava sempre ao seu lado, suplantando completamente Lucille, ao que parecia. Teilhard tinha plena consciência do sofrimento que causava nas pessoas que tinha amado. Thomas King escreve: "Em Paris, em julho de 1954, Teilhard releu o final de “O Coração da Matéria”. Começou a chorar ‘lembrando todas as Beatrizes, cheio de censuras, que tinha involuntariamente ferido’. Uma delas era Lucille".

Alguns dias depois, Teilhard caiu, numa rua em Nova York, durante uma caminhada. No hospital, pediu por Lucille. Ela veio imediatamente e assegurou-o do seu amor. Logo depois, voltando para a residência jesuíta, escreveu-lhe uma carta de agradecimento: "Convergimos, você e eu, com coragem e alegria, para o novo rosto de Deus que nos atrai um para o outro". Em sua última carta à Lucille (30 de março de 1955), diz: "Realmente, eu preciso da sua presença, da sua influência na minha vida (...). Estamos sempre aqui, um para o outro". Na noite do Domingo de Páscoa de 1955, 10 de abril, Teilhard morreu, enquanto conversava, com alguns convidados, na casa de Rhoda de Terra, em Nova York.

A criatividade intelectual de Teilhard de Chardin precisava de afeto para aprimorar-se. Seu amor por Marguerite, foi fonte de novas ideias, que resultaram em alguns artigos importantes, durante a guerra, entre os quais o insuperável “Eterno Feminino”. Segundo essa teoria, as pessoas castas têm, também elas, a possibilidade de viver uma experiência de amor a Deus e com o outro sexo. Amor-a-três, profundo e casto, inscreve-se aqui. Para Teilhard, um amor casto ou virginal liberará da Matéria um Fogo novo. Um novo tipo de energia. O amor virginal é um estágio superior do amor humano. Depois de Marguerite, Teilhard encontraria outras mulheres. Seu calor e seu encanto foram passando, gota a gota, para o sangue das suas mais amadas ideias.

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