Igreja puramente masculina: a grande fuga de mulheres

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02 Setembro 2015

Laura é simpática. Mulher jovial, aberta, psicologicamente "resolvida", pode-se dizer. Casada, três filhos, deixou o trabalho quase imediatamente após a graduação, vida dedicada ao bairro, à escola, à paróquia. Especialmente à paróquia. Quando menina frequentava pouco a Igreja, talvez por causa da fé um pouco fria dos pais, o pai jornalista, a mãe, professora.

A reportagem é de Marco Marzano, publicada pelo jornal Il Fatto Quotidiano, 30-08-2015. A tradução é de Ramiro Mincato.

Laura frequentava a igreja raramente, com os avós. Depois da crisma, sempre menos. Em seguida, conheceu Franco, seu futuro marido, que na paróquia passava os dias. "Você sabe como isso acontece nessa idade - me diz, na frente de uma xícara de café quente – me apaixonei por ele. E também pelo mundo que ele frequentava. Percebi que gostava do ambiente da paróquia, da quantidade e da intensidade das relações humanas que ali era possível construir".

Chegaram os filhos, agora já crescidos, os mais velhos na universidade. Mas o entusiasmo inicial de Laura não parece adormecer. A paróquia tornou-se lugar de compromisso constante: primeiro, nos cursos de preparação para o matrimónio, hoje, no "espaço dos temas", onde crianças com dificuldades na escola são ajudadas.

Laura é uma mulher de esquerda, “cidadã ativa”, comprometida. "Esse clima democrático que você tanto gosta, você encontra também na paróquia?", pergunto. "Nem sempre – responde - porque ali tem um homem, que decide por todos, o pároco. Está aberto, disposto a nos ouvir. Mas no final, decide sempre ele. Às vezes é frustrante. "Claro, é frustrante, eu acho, mas faz parte das "regras do jogo" paroquial: o pároco decide e os paroquianos obedecem.

Esta é a disposição tradicional, o legado de Trento, da Igreja Católica e não há sinais de mudança. Pergunto-lhe novamente se não se sente, às vezes, humilhada, como mulher, de ter que aceitar a autoridade indiscutível (e inevitavelmente masculina) de seu pároco, e se alguma vez não teve vontade de largar tudo. Respondeu que essa tentação nunca teve. "Porque não sou impulsionada pela ambição do poder, mas pelo desejo de viver a fé na minha comunidade. No que diz respeito à feminilidade, acho que a Igreja perdeu um monte de recursos por não utilizar, como poderia, a capacidade das mulheres. Capacidades estas, que dizem respeito à habilidade de construir relações, de pragmatismo, de realismo e, muito menos, de tomar decisão, de poder e de o governo. As mulheres tem senso de proporção, sabem fazer os homens pôr os pés no chão. Não têm constantemente desejo de autoafirmação, não amam a competição, nem o conflito".

Laura insiste na importância das virtudes "femininas", na "doçura maternal" que as mulheres poderiam tornar mais presente na vida da Igreja. Doçura esta que nunca põe em questão a subordinação das mulheres (e dos leigos, em geral), mas que, ao contrário, invoca um governo (clerical) da paróquia mais temperado e suave, um autoritarismo mais soft.

Enquanto Laura está falando, lembro-me das minhas alunas, de vinte e poucos anos, como uma das filhas de Laura. Imagino que uma filosofia de vida como a dela, elas não aceitariam e nem aceitarão jamais. Pode ser que as temidas (por parte do mundo católico) teorias do gênero já fizeram efeito e já se tornaram patrimônio comum das jovens gerações, mas nenhuma das minhas alunas aceitaria ser considerada uma criatura sobretudo que cuida, que costura, que remedia, com a paciência de Penélope, os danos produzidos pela dominação masculina. Minhas alunas, e talvez também a filha de Laura, pretendem as mesmas chances dos homens, mesmo em matéria de decisões. E de liderança. Também por isso, talvez, que as moças de vinte e poucos anos de hoje não vão mais à Igreja. Certamente menos que suas mães. E ainda menos que suas avós. Como confirmam os interessante dados da pesquisa de Alessandro Castegnaro do OSRET sobre a "Fé no Nordeste". O dado que mais impressiona é a diminuição, também neste campo das diferenças de gênero, pois no passado os homens paravam mais cedo de ir à Igreja enquanto muitas mulheres, ao contrário, permaneciam nela toda a vida.

Meninas nascidas por volta de 1990 que atribuem grande importância à religião são 14,5% da amostra do OSRET. Contra 11,6% dos seus coetâneos masculinos. Uma diferença mínima se comparada com aquela dos nascidos por volta de 1940: entre estes as mulheres "muito religiosas" são duas vezes mais que os homens. E não é só isso. "As mulheres mais escolarizadas hoje tendem a ser mais autónomas e mais críticas com relação à Igreja Católica do que seus colegas do sexo masculino": mais estudam e mais se acostumam a pensar por si mesmas. E mais se afastam da Igreja Católica. Em número maior do que os homens. Porque o católico é um ambiente onde não se experimentam a igualdade de direitos conhecidos em outros lugares.

Porque, em última análise, é um ambiente governado por homens, especialmente aqueles de batina. E quanto mais se sobe de nível, quanto mais nos aproximamos dos palácios do poder, mais o monopólio masculino é feroz e inatacável. Basta olhar para o destino das quatrocentas teólogas italianas, usadas minimamente como professoras nos seminários e faculdades de teologia, não obstante terem titulação acadêmica para tal. Ou dar uma olhada nas listas dos responsáveis pela liturgia e pela catequese nas dioceses, para encontrar apenas nomes masculinos. Quase sempre sacerdotes, mas de qualquer forma, de homens. As mulheres estão somente na base da pirâmide, onde 90 por cento da população de catequistas é feminina. Mesmo no último sínodo sobre a família (tema em que as mulheres têm competência!) as mulheres eram cerca de 20, contra mais de 250 homens. Neste terreno, o Papa Francisco fez muito pouco. Parece interpretar o papel das mulheres em chave puramente intimista, enfatizando sua vocação ao "serviço", à cura, ao cuidado, ao conforto e à solidariedade. Nunca à responsabilidade. Mesmo as responsabilidades que poderiam obter ainda hoje, sem tocar na doutrina, nos Conselhos Pontifícios (para a família ou para a cultura), nas congregações e nos tribunais. Cargos para os quais é suficiente ter competência, e a ordenação sacerdotal não é indispensável. Seriam escolhas de grande impacto simbólico. Igual ao que seria a designação de uma mulher cardeal ou a instituição do diaconato feminino. Decisões que mostrariam a vontade da Igreja de reconhecer e aceitar os resultados da maior "revolução do nosso tempo", para citar Norberto Bobbio: a emancipação feminina. Para um dia chegar à ordenação sacerdotal. Mas aqui tocamos a utopia. Se na Igreja atitudes conservadoras e discriminatórias permanecerem por muito mais tempo, ficarão somente as capazes de aceitar, como provavelmente já acontece em outras áreas, um papel subordinado. Ou seja, uma porção sempre menor e marginal da sociedade, desprovida de meios culturais para alcançar a emancipação e a igualdade.

Muitas já estarão em outros lugares. Não necessariamente mais distantes da fé, mas certamente não mais dispostas a "obedecer em silêncio".

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