A ultrafísica de Teilhard de Chardin

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Por: André | 26 Agosto 2015

Uma reflexão que não passa despercebida quando o autor é o poeta, escritor e acadêmico mexicano Hugo Gutiérrez Vega: “Neste momento de revisão de muitos aspectos do homem e da cultura, convém retornar a um pensador que, com sua sensatez, sinceridade e rigor científico, nos brinda uma visão equilibrada do fenômeno humano”. Diretor de Jornada Semanal, suplemento cultural do jornal mexicano La Jornada, apresenta o amplo artigo de Sergio A. López Rivera sobre a pertinência do pensamento de Pierre Teilhard de Chardin (1881-1955), falecido em Nova York na mais completa solidão humana e intelectual durante a noite da Páscoa de 60 anos atrás.

 
Fonte: http://bit.ly/1NHGiSZ  

A reportagem é de Daniele Metelli e publicada por Tierras de America, 24-08-2015. A tradução é de André Langer.

Geólogo e paleontólogo francês, aos 18 anos Pierre entrou no noviciado da Companhia de Jesus, mas no começo do século viu-se obrigado a abandonar a França. Devido às leis anti-religiosas promulgadas pelo governo de Waldeck-Rousseau (1899-1902) para pôr um fim às desordens que explodiram em decorrência do affaire Dreyfus, os jesuítas foram expulsos do país junto com outras congregações religiosas. Estudou no Egito e na Grã-Bretanha, onde foi ordenado sacerdote em 1911. Durante o primeiro conflito mundial prestou serviço no front como caminhoneiro. Lia e gostava de Dante.

Voltou à sua pátria e começou a trabalhar no Instituto Católico de Paris, mas logo foi afastado por seus superiores devido às suas ideias científicas pouco conformes com a ortodoxia católica. Durante 20 anos viveu e trabalhou na China, participando de numerosas expedições científicas, entre elas a que descobriu o sinantropus (homem de Pequim). Ao terminar a Segunda Guerra Mundial voltou novamente para Paris e foi nomeado diretor do Centro Nacional de Pesquisa Científica. Uma vez mais os superiores o convidaram para deixar a França e em 1951 partiu para os Estados Unidos, onde permaneceu até o final da sua vida.

Do pensamento de Teilhard de Chardin se desprende uma concepção integralmente evolucionista. No opúsculo A vida cósmica, publicado em 1916, o autor sustenta que o mundo é regulado pela lei da concorrência e que a matéria é constituída por uma série incessante de agregações cada vez mais complexas. Em base à especulação filosófica de Henri Bergson e Édouard Le Roy, que afirmam a dimensão temporal da realidade, Teilhard intui que o universo mesmo é uma “história”.

Desde a aurora dos tempos o cosmos participa de um constante movimento progressivo. O processo evolutivo une todos os fenômenos de transformação da matéria a partir de um átomo primigênio até chegar ao homem, síntese da cosmogênese, biogênese e antropogênese. Em virtude desta complexidade a matéria chega a ser capaz de receber a vida e a vida humana chega a ser capaz de receber o pensamento.

Por outro lado, a evolução não termina com o fenômeno humano, em contínua ascensão, mas avança para uma “noogênese” que dirige a humanidade para um fim – o Ponto Ômega –, em virtude do qual são solidários todos os destinos do cosmos. Na reflexão do paleontólogo francês não há lugar para nenhuma forma de determinismo. Cristo mediador é princípio, fim e condição de todo o processo evolutivo. Somente graças à iniciativa divina, vontade perfeita que guia e orienta, o homem avança em sua contínua tensão para o destino.

A ideia de que o homem se encontra dentro de um processo não concluído, mas de uma cosmogênese mais ampla, sustenta toda a arquitetura teórica da reflexão de Teilhard de Chardin, que pretende ser científica e ultrafísica, mas nunca metafísica. Todo o sentido da evolução deve ser buscada no princípio da cosmogênese, que postula o universo como fenômeno temporal in fieri. A originalidade do seu trabalho científico consiste em afirmar que a simples leitura científica do fenômeno evolutivo é por si só uma busca de sentido, do significado profundo da criação, do tempo e da existência humana.

A pretensão de interpretar os fatos observados e de buscar um sentido alimenta o grande debate sobre o seu trabalho desde as primeiras publicações. A originalidade e a profundidade do seu enfoque, a seriedade e a profundidade de observação e de análise dos fenômenos, junto com um impecável rigor lógico, constituem motivos válidos para provocar discussões em diferentes níveis de conhecimento. Um extraordinário esforço de visão unitária que pode ser resumida em um parágrafo de rara intensidade: “A humanidade em sua marcha, está parada, porque os espíritos vacilam em reconhecer que há uma orientação precisa e um eixo específico de evolução”. Talvez esse “parada” que o cientista assinala foi o que impediu os seus contemporâneos de captar a novidade e a profundidade do seu pensamento.

Fustigado pelas autoridades da Igreja católica, abandonado pela comunidade científica, nos últimos anos de sua vida denunciava a impossibilidade de citar sequer um escritor ou um autor que compartilhasse com ele a diafaneidade de um cosmos transfigurado. Inclusive Eugenio Montale, um dos maiores poetas italianos do século XX, dedicou-lhe versos pouco elogiosos em A um jesuíta moderno (Satura, 1962-1970): “Se queres nos convencer / de que uma chispa nssa se desprende da crosta / daqui para baixo, menos crosta que mingau, / para depois alojar-se na noosfera / (...) te direi que a pele se eriça / quando te escuto”.

Suas principais obras, como O fenômeno humano (1955) e O futuro do homem (1959) foram publicadas postumamente. Uma Cassandra dos tempos modernos, uma voz que foi ouvida e reabilitada apenas pelo Concílio Vaticano II. Uma vez mais, é evidente que o tempo da história humana é inexoravelmente mais lento do que o tempo do universo, que viaja – tal como viajava Teilhard de Chardin – na velocidade da luz.

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