“Ignacio Martín-Baró enfrentou sua morte com elegância e humor”, revela seu irmão

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Por: André | 21 Agosto 2015

O padre Ignacio Martín-Baró enfrentou com “elegância e humor” os momentos finais de sua vida, morte provocada supostamente pelo ex-coronel salvadorenho Inocente Montano, cuja extradição à Espanha estava sendo decidida pela Justiça nesta quarta-feira nos Estados Unidos, segundo relatou à agência Efe o irmão do jesuíta, Carlos Martín-Baró.

A reportagem é publicada por Religión Digital, 19-08-2015. A tradução é de André Langer.

“A última vez que o vi estava muito preocupado. Como nunca o havia visto. Se ouvia algum barulho ou um avião parecia que algo lhe poderia acontecer”, recorda Carlos, que se encontrou na Espanha com seu irmão em 1989, meses antes que membros do Exército salvadorenho o assassinassem na Universidade Centro-Americana (UCA).

Montano é um dos acusados de orquestrar, há quase 26 anos, durante a guerra civil de El Salvador (1980-1992) o assassinato de cinco jesuítas espanhóis – entre eles Martín-Baró e Ignacio Ellacuría – além de outro religioso salvadorenho, a cozinheira Elba Julia Ramos e sua filha Celina, de 16 anos.

“Estou convencido de que, de alguma forma, meu irmão sabia qual era seu final. Falou que iria despedir-se por telefone dos meus pais em Valladolid com esse humor e elegância tão seus. Dir-lhes-ia: ‘Olhem, coloco o telefone para escutem o tiroteio’ e ‘Não se preocupem que estamos rodeados pelo Exército’”, recordou. “Tão rodeados que entraram impunemente para matar a todos”, acrescentou Carlos.

Um esquadrão da morte irrompeu na madrugada de 16 de novembro de 1989 na residência da universidade dos jesuítas, ordenou a todos para saírem ao jardim e deitarem de cabeça ao solo, onde apareceram na manhã seguinte sem vida e com vários tiros no corpo, segundo mostraram as imagens.

“A dor foi muito profunda e permanece em nós. (...) Mas, do ponto de vista pessoal, nunca tivemos desejos de vingança. A dor foi se interiorizando e a gente se acostuma a viver com essas coisas”, destacou Carlos, de 74 anos, mais velho que seu irmão Ignacio, a quem se refere como Nacho.

“Claro que nos importa verdadeiramente que se abra um processo para fazer justiça, mas pensando em Nacho e nas repercussões que isso possa ter em El Salvador, em seu país”, destacou Carlos, conhecedor de primeira mão da influência que o país centro-americano teve no pensamento de seu irmão.

Ignácio, seguidor da Teologia da Libertação, deixou a Espanha aos 18 anos e mudou-se para a América, um continente que o transformou e o converteu em uma referência na Psicologia Social.

“Viu que o mundo era completamente diferente. Ele acreditava que salvaria almas, dentro de um espírito religioso tradicional. Mas, se deu conta de que tinha que fazer um trabalho muito mais humano e começou um processo de mestiçagem. Acabou por ser um salvadorenho dedicado aos problemas de seu povo”, destacou o seu irmão.

“Mataram-no como aos outros e é isso que importa. O assassino teve seus frutos perversos, porque deixaram uma universidade acéfala, universidade que era um centro de análise dos males de El Salvador. Era gente que estudava e vivia os problemas de seu povo”, acrescentou Carlos por telefone de Huelva.

Durante um longo período de tempo, enquanto estudava em diferentes universidades em Quito ou Chicago (Estados Unidos), Ignacio Martín-Baró não retornou à Espanha, terra à qual voltou de vez em quando, cada vez mais frequentemente e onde despertava a expectativa de toda a família. Ignacio (1942-1992) era o quarto de seis irmãos.

Na noite de 15 de novembro, horas antes de sua morte, também falou por telefone com sua irmã Alicia, em Valladolid, sua terra natal, segundo escritos judiciais do Centro de Justiça e Responsabilidade, uma das organizações responsáveis, em 2008, pela abertura do caso na Espanha.

Durante o telefonema, Alicia lhe perguntou: “Nacho, quando isso vai parar?”, ao que o jesuíta respondeu: “Tem que haver muitas mortes, muitas mortes ainda para que isso aconteça”.

Horas mais tarde, Ignacio Martín-Baró e os outros jesuítas seriam assassinados, e os suspeitos ficariam sem castigo pela Lei de Anistia de 1993 de El Salvador, que protege militares e insurgentes que cometeram crimes de lesa humanidade durante o conflito armado.

Se a Justiça dos Estados Unidos decidir abrir a porta para a extradição, Montano seria o primeiro acusado a responder pelos assassinatos, embora o faria em solo espanhol.

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