“Toca bem no fundo”. A Civiltà Cattolica promove Carrère

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04 Agosto 2015

Quem sabe, talvez alguns exegetas, lendo Il Regno [O Reino] de Emmanuel Carrère torcerão boca e nariz. E, provavelmente, fá-lo-ão não sem razões. Defeitos hermenêuticos o último romance do escritor francês possui realmente. Mas, não é esta concepção que teve o jesuíta Pierre Gilbert quando precisou recensear a obra para a Civiltà Cattolica. “Num certo período de minha vida fui cristão”, escreve Carrière. “Eu o fui por três anos. Não o sou mais”. Duas décadas depois, todavia, sente a necessidade de “voltar atrás”, de repercorrer os caminhos da Sagrada Escritura: não como crente, desta vez, e sim “como investigador”. Sem esquecer-se de ser antes de tudo um romancista. Assim, Il Regno conduz o leitor para dentro de uma pesquisa sobre “aquela pequena seita hebraica que se teria tornado o cristianismo”.

O texto é de Paolo Rodari, publicado pelo jornal La Repubblica, 31-07-2015. A tradução é de Benno Dischinger.

Uma pesquisa que, embora com alguma lacuna, não escandaliza os vetero-testamentaristas, isto é, o perito em Antigo Testamento, Gilbert. O jesuíta vai de fato além da letra, num certo sentido igualmente além dos seus próprios estudos, para reconhecer o que de genuíno há por trás de um trabalho que, agrade ou não, está tendo um grande sucesso. “Um sucesso – escreve Gibert – que não só se enfraqueceu na França, mas que parece ser retomado na Itália, a julgar pelo eco da imprensa há quase um ano a esta parte”. Por que? A resposta não é simples. E antes de responder é preciso parar ainda um momento na Civiltà Cattolica. Prestigiosa revista dos jesuítas, merecedora de atenção não só quando senta no Sólio de Pedro o primeiro Papa jesuíta, mas que sempre dedicou páginas importantes à crítica literária. Assim foi, por exemplo, na época do padre Ferdinando Castelli, que gostava de repetir que “um crítico não é um apologeta: tem a tarefa de compreender, não de catequizar”.

Procurar compreender. É esta a ação que executa hoje Civiltà Cattolica ante O Reino. Compreender a obra partindo do seu indubitável sucesso. Por que, pergunta-se Gibert, desta vez o trabalho de Carrère foi acolhido também por “outros leitores, ou por leitores sempre aficionados, mas tornados diferentes?”. Sobretudo porque o autor parece ter descido do seu empíreo “para atingir aqueles que, não para si em alguma zona de sombra mais ou menos compacta, se não num íntimo desespero sendo escritores, aceitam receber dele tudo o que teria querido dizer, aquilo que cada um primeiro reservava para si em alguma zona de sombra mais ou menos densa, se não num íntimo desespero”.

Mas, existe também, do outro, a motivar para que Civiltà Cattolica encontre dentro algo positivo. É o fato que ao longo do decurso das páginas algum leitor possa encontrar a si mesmo, “tocado pessoalmente”. Assim é quando Carrère fala de Cristo, da fé perdida nele ressurgido. E, ao falar disso, ele lhe diz: “Te abandono, Senhor, Tu, não me abandones”. Como se o escritor, escapando-lhe a fé, não se possa ao mesmo tempo liberar dela. Como é verdade para cada um, Gibert incluído, que “o tema enfrentado é bem maior não só do que o autor, mas também do que o leitor”.

Procurar compreender. É esta a ação que cumpre hoje Civiltà Cattolica ante o Reino. Compreender a obra partindo do seu indubitável sucesso. Por que, se pergunta Gibert, desta vez o trabalho de Carrère foi acolhido também por “outros leitores, ou por leitores sempre aficionados mas tornados diferentes?” Sobretudo, porque o autor parece ter descido do seu empíreo “para atingir aqueles que, não sendo escritores, aceitam receber dele tudo o que teria querido dizer, aquilo que cada um guardava antes para si em alguma zona de sombra mais ou menos fixa, se não num íntimo desespero”.

Mas, há também outra coisa a motivar para que Civiltà Cattolica encontre ali dentro algo positivo. É o fato que ao longo do curso das páginas algum leitor possa reencontrar a si mesmo, “tocado pessoalmente”. Assim é quando Carrère fala de Cristo, da fé perdida nele ressurgida. E ao falar disso ele, todavia, lhe diz: “Te abandono, Senhor. Tu, não me abandones”. Como se o escritor, escapando-lhe a fé, não se possa ao mesmo tempo livrar dela. Como é verdade para cada um, Gibert incluído, que “o tema enfrentado é bem maior não só do que o autor, mas também do que o leitor”. Jesus, a fé, Deus, são temas que transbordam qualquer compreensão. Se pensa poder atingir, porém quanto mais se procura, quanto mais se escreve, mais se reconhece ser ignorantes. “E para que o livro se feche – escreve Gibert – para este leitor como para o autor acima aquelas humildes palavras: “Não o sei”.”

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