As raízes inacianas do Papa Francisco e a desorientação dos católicos. Artigo de Bartolomeo Sorge

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27 Julho 2015

Diante de múltiplos sinais de apreço e entusiasmo para pelo pontificado do Papa Francisco – dentro e fora da Igreja Católica – aparecem também as primeiras críticas entre aqueles que se sentem desorientados perante o modo de proceder do pontífice. O padre Bartolomeo Sorge, diretor emérito da revista italiana Aggiornamenti Sociali, também a partir de memórias pessoais, identifica no carisma inaciano, próprio da Companhia de Jesus da qual Bergoglio provém, a fonte dessa sensação de desorientação.

Às vésperas da festa de Santo Inácio de Loyola (31 de julho), fundador dos jesuítas, publicamos uma parte do artigo publicado na edição de junho-julho de 2015 da revista Aggiornamenti Sociali. Na foto, a visita do papa ao Centro Astalli de Roma, obra dos jesuítas italianos, no dia 10 de setembro de 2013.

Pe. Sorge também é diretor do Instituto San Fedele, ex-diretor da revista La Civiltà Cattolica e especialista em doutrina social da Igreja. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O modo "imprevisível" de agir do Papa Bergoglio (...) não é um caso isolado, uma exceção, mas – como já aconteceu com outros renomados jesuítas – é o fruto da espiritualidade inaciana, renovada à luz do Concílio Vaticano II. Como o próprio papa explica na sua exortação apostólica Evangelii gaudium, o seu pontificado não tem um programa pré-definido, mas é, de natureza própria, "imprevisível".

Em conformidade com o carisma inaciano, ele prefere conduzir a Igreja a "viver a fundo a realidade humana e inserir-se no coração dos desafios como fermento de testemunho, em qualquer cultura, em qualquer cidade, melhora o cristão e fecunda a cidade" (EG 75). Traduzindo essa afirmação nos ensinamentos e nos gestos cotidianos do Papa Francisco, o coração da sua mensagem se identifica com a do próprio Concílio.

No que diz respeito à relação da Igreja com o mundo, o papa insiste na necessidade do diálogo com todos, não tanto movendo-se a partir de princípios doutrinais e abstratos, caídos do céu, mas pondo-se no plano existencial, isto é, testemunhando o Evangelho com a vida mais do que com as palavras.

A presença de Deus que guia a história não deve ser demonstrada, mas deve ser simplesmente descoberta: "A presença de Deus acompanha a busca sincera que indivíduos e grupos realizam para encontrar apoio e sentido para a sua vida. Ele vive entre os cidadãos promovendo a solidariedade, a fraternidade, o desejo de bem, de verdade, de justiça. Essa presença não precisa de ser fabricada, mas descoberta, revelada. Deus não Se esconde daqueles que O buscam com coração sincero, ainda que o façam tateando, de maneira imprecisa e incerta" (EG 71). Essa é a espiritualidade inaciana. Por isso, o Papa Francisco repete: dialoguemos também e discutamos sobre tudo, promovamos a "cultura do encontro"; mas "não deixemos que nos roubem a esperança" (EG, n. 86), a única capaz de dar sentido à vida humana.

No que diz respeito, depois, à renovação da vida interna da Igreja, aqui também o carisma inaciano e a atualização conciliar se fundem em Francisco.

Em primeiro lugar, há a necessidade – esta é a sua mensagem – de uma Igreja em saída missionária, não encurvada sobre si mesma, nem preocupada principalmente com os seus problemas internos; mas que, "com obras e gestos na vida diária dos outros, encurta as distâncias, abaixa-se – se for necessário – até à humilhação e assume a vida humana, tocando a carne sofredora de Cristo no povo" (EG 24).

O Papa Francisco deixa escapar um grito do coração: "Saiamos, saiamos para oferecer a todos a vida de Jesus Cristo! […] prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e pela comodidade de se agarrar às próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada com ser o centro, e que acaba presa num emaranhado de obsessões e procedimentos. Se alguma coisa nos deve santamente inquietar e preocupar a nossa consciência é que haja tantos irmãos nossos que vivem sem a força, a luz e a consolação da amizade com Jesus Cristo, sem uma comunidade de fé que os acolha, sem um horizonte de sentido e de vida. Mais do que o temor de falhar, espero que nos mova o medo de nos encerrarmos nas estruturas que nos dão uma falsa proteção, nas normas que nos transformam em juízes implacáveis, nos hábitos em que nos sentimos tranquilos, enquanto lá fora há uma multidão faminta e Jesus repete-nos sem cessar: 'Dai-lhes vós mesmos de comer' (Mc 6, 37)" (EG 49.).

Em segundo lugar, a Igreja deve ser pobre e dos pobres, isto é, "o lugar da misericórdia gratuita, onde todos possam se sentir acolhidos, amados, perdoados e animados a viverem segundo a vida boa do Evangelho" (EG 114). O amor está nos fatos mais do que nas palavras, ensina Santo Inácio nos seus Exercícios Espirituais. Para revelar o seu amor infinito e misericordioso, Deus não tinha outro meio senão escolher os pobres e a pobreza. A escolha da pobreza, de fato, manifesta a gratuidade da salvação de Deus, que, de rico que era, fez-se pobre para que nós nos tornássemos ricos por meio da sua pobreza (cf. 2Cor 8, 9). O Amor pelos pobres torna visível o Deus invisível.

Por fim, o ideal inaciano enfatiza o "serviço", como "o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir" (Mc 10, 45). A Igreja – insiste, por isso, o Papa Francisco – deve ser semelhante a um "hospital de campanha": "Para mim, a imagem que vem é a do enfermeiro, da enfermeira em um hospital: cura as feridas uma a uma, mas com as mãos. Deus se envolve, se mistura nas nossas misérias, se aproxima das nossas chagas e as cura com as suas mãos, e, para ter mãos, se fez homem" (Papa Francisco, La mia porta è sempre aperta, Ed. Rizzoli, 2013). A Igreja, como Cristo, se faz serva e enfermeira da humanidade.

Em conclusão, se tivermos em mente as raízes inacianas do papa jesuíta, não deve surpreender que ele seja imprevisível e causa de confusão para alguns católicos. Ao contrário, espanta e entristece que, 50 anos depois do grande evento ecumênico, ainda sejam tantos os católicos despreparados para compreender e acolher a reforma desejada pelo Concílio.

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