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06 Julho 2015

Estimado pelos fiéis, mas novamente objeto de obscuras ameaças de morte. Apreciado pelas aberturas ecumênicas e ouvido pelos líderes políticos, mas obstaculizado por círculos influentes – laicais e clericais – no seio da sua Igreja.

A reportagem é de Gianni Valente, publicada no sítio Vatican Insider, 04-07-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A notícia da última hora é que o governo egípcio reforçou a escolta até para ele. O Papa Tawadros II, patriarca da Igreja Copta, parece ter voltado ao centro de manobras obscuras. Depois do atentado que causou a morte do procurador-geral Hisham Barakat e da ofensiva sangrenta travada pelos jihadistas no norte do Sinai, o primaz da mais consistente comunidade cristã dos países árabes também foi inserido na lista dos próximos possíveis alvos do terrorismo.

Não é uma novidade. Ainda no verão de 2013, por motivos de segurança, ele teve que suspender as suas tradicionais catequeses das quartas-feiras. O seu nome também figurava no topo de uma lista de algumas dezenas de pessoas "a serem eliminadas", encontrada em agosto daquele ano em um envelope anônimo dentro de uma mesquita no Cairo.

Agora, para complicar o quadro, também estão envolvidas as alusões de complô lançadas nas redes sociais por aqueles que atribuem aos próprios aparatos de segurança o projeto de matar Tawadros, para transformá-lo em "vítima excelente" do terrorismo e, assim, poder justificar novas medidas repressivas contra a Irmandade Muçulmana.

Se as manobras políticas e de inteligência em torno do papa copta permanecem por natureza obscuras e não verificáveis, parece bastante evidente que, mais do que eventuais "inimigos" externos, o patriarca também deve proteger as suas costas de círculos laicais e clericais da própria comunidade eclesial confiada à sua liderança.

Entre os chefes das Igrejas cristãs do Oriente Médio, Tawadros seguramente é um dos mais clarividentes e empreendedores. No entanto, desde que foi eleito, há quem se aproveite de todos os pretextos para enfrentá-lo. No início de junho, o patriarca teve até que interromper a catequese que ele profere todas as quartas-feiras na catedral de São Marco, no Cairo, depois que um grupo de manifestantes o acolhera com gritos e barulho. Eles protestavam pedindo uma mudança nas leis sobre o estatuto pessoal que também regulam o direito matrimonial, atualmente em fase de redefinição.

Quem contesta o patriarca e a hierarquia episcopal sobre a disciplina do matrimônio são principalmente grupos de ativistas ligados à sigla "Copts 38", o movimento surgido em 2011 para pedir a restauração das disposições canônicas estabelecidas pela Igreja Copta Ortodoxa em 1938, que contemplavam nada menos do que nove casos em que era concedido que os cristãos coptas se divorciassem.

Entre os motivos de concessão do divórcio, na época, figuravam também o abandono por parte do cônjuge por um período de cinco anos e a incompatibilidade de caráter.

Em 2008, com o Patriarca Shenouda III, as normas de 1938 foram revogadas, e a possibilidade de divórcio tolerado pela Igreja foi reduzida aos casos de adultério, passagem do cônjuge a outra confissão cristã ou conversão do cônjuge ao Islã. Com o efeito – defendem os militantes do Copts 38 – de que milhares de coptas se converteram ao Islã e formalmente abandonaram a Igreja a fim de ver oficialmente reconhecida a dissolução do próprio vínculo matrimonial que deu errado.

O protesto de grupos leigos sobre a disciplina do matrimônio – na verdade, dirigido mais contra a linha rigorista imposta pelo falecido Shenouda do que contra o seu sucessor – representa apenas uma das frentes abertas para o Patriarca Tawadros.

Outros críticos censuram o atual primaz da Igreja copta por um colateralismo excessivo em relação ao presidente Abdel Fattah al-Sisi, o homem forte do Egito de hoje, que, por outro lado, desde que chegou ao poder, deu sinais claros e inéditos de querer proteger os direitos de cidadania dos cristãos egípcios.

Al-Sisi, já quando era chefe do exército, sempre envolveu intencionalmente o patriarca copta – junto com o reitor da Universidade Islâmica de Al-Azhar – nas passagens de maior impacto simbólico do processo de transição que se seguiu à deposição do governo islamita de Mohamed Morsi.

Depois de se tornar presidente, al-Sisi continuou credenciando o chefe da Igreja copta como autoridade "nacional", jogando a carta do Egito "multirreligioso" em chave antifundamentalista e consagrando a sua reputação de presidente amigo dos cristãos com a sua participação na vigília de Natal na catedral copta.

Nesse cenário, as críticas à linha "pró-presidencial" do atual primaz copta também chegam de ambientes eclesiais nostálgicos do protagonismo social "direto" que caracterizara o longo reinado do Papa Shenouda, quando a Igreja, marginalizada politicamente, tinha visado a se estruturar como uma espécie de contra-sociedade autossuficiente, comprometida com a criação de redes de proteção assistencial para os próprios fiéis.

Entre os críticos mais fortes da atual linha da hierarquia copta, está o padre Philopateer Gameel Aziz, artífice de campanhas contra o exército pelo chamado massacre de Maspero, que foi realizada em 2011, quando os militares abriram fogo contra manifestantes cristãos e muçulmanos, matando 28 pessoas.

Outro ponto delicado tocado pelo ministério do Papa Tawadros é o do independentismo das comunidades monásticas e da tendência de algumas delas de se transformar em centros autônomos de acumulação de poder e de propriedades imobiliárias. O patriarca pede que as comunidades voltem às fontes da vida monástica.

Ao longo dessa linha, o Sínodo dos bispos da Igreja Copta Ortodoxa chegou ao curto-circuito com alguns mosteiros influentes como o de São Macário em Wadi al-Rayan, entrou em conflito também com as autoridades locais por uma série de obras de construção realizadas sem permissão.

Em maio passado, o Sínodo dos bispos coptas promulgou disposições disciplinares, que, a partir de agora, tornarão mais estreito o controle do episcopado sobre a vida das comunidades monásticas masculinas e femininas. As novas regras vinculam os superiores dos mosteiros a indicar por carta ao patriarca os nomes dos novos candidatos à vida religiosa, para receber a aprovação. A instituição de novas fundações e casas monásticas estará submetida à aprovação prévia do patriarca ou do bispo local.

Por trás das objeções explícitas e das mudas hostilidades com que a liderança do Papa Tawadros se encontra, entreveem-se também resistências organizadas por dignitários eclesiásticos que ocupavam posições de influência nos anos do Patriarca Shenouda. Aparatos que mal toleram o processo de renovação pastoral e de conversão espiritual das dinâmicas eclesiais sugerido por Tawadros.

Um campo onde a oposição se manifesta com mais veemência é o das aberturas ecumênicas promovidas pelo novo patriarca desde a sua posse na cátedra de São Marcos. Tawadros, além de ir a Roma para se encontrar com o Papa Francisco ainda em maio de 2013, dois meses antes, também tinha presenciado a entronização do patriarca copta ortodoxo Ibrahim Isaac Sidrak.

Foi o atual patriarca copta que escreveu, ainda em maio de 2014, uma carta ao Papa Francisco sobre a necessidade de identificar uma data única para a celebração da Páscoa em todas as Igrejas cristãs. E relatórios oficiosos das últimas assembleias sinodais coptas relatam a sua tentativa de modificar a regra do rebatismo a que são submetidos os cristãos de outras confissões que optam por passar para a Igreja copta.

Diante da resistência compacta de alguns bispos influentes, o Papa Tawadros suspendeu temporariamente o pedido de pôr fim a essa prática escandalosa e ecumenicamente repreensível. À espera de que venham tempos melhores.

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