O que a encíclica do Papa Francisco realmente diz sobre o mundo digital

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Por: André | 29 Junho 2015

A encíclica Laudato si’ aponta os perigos do mundo digital. Para o Papa Francisco, as redes sociais fazem correr o risco de amar sem generosidade, de mergulhar na insatisfação melancólica e na solidão. O big data confunde, satura e polui. Enfim, os algoritmos eliminam e excluem.

A reportagem é de Michel Danthe e publicada por Le Temps, 20-06-2015. A tradução é de André Langer.

Atento ao ambiente em que a humanidade se desenvolve, a encíclica do Papa Francisco, a Laudato si’, dedica todo um capítulo da sua reflexão e de sua exortação ao mundo digital, às redes sociais, à internet e ao big data.

As redes sociais são citadas indiretamente

Certamente, a encíclica não cita esses termos: nem Facebook, nem Twitter, nem “big date data” aparecem nomeados na encíclica. A palavra internet aparece uma única vez em toda a carta, e a palavra digital aparece duas vezes.

Mas o texto do Sumo Pontífice não dá margem para nenhuma ambiguidade: é às redes sociais e ao big data que ele se refere quando fala, no subcapítulo consagrado “à deterioração da qualidade de vida e à degradação social”, “das dinâmicas dos meios de comunicação social e do mundo digital”.

No número 46, o Papa faz uma síntese dos componentes sociais da mudança global. Ali ele elenca especificamente alguns fenômenos, entre os quais “os efeitos de algumas inovações tecnológicas sobre o trabalho, a exclusão social, a desigualdade na disponibilidade e consumo de energia e de outros serviços, a fragmentação social, o aumento da violência e a emergência de novas formas de agressividade social, o narcotráfico e o consumo crescente de drogas entre os mais jovens, a perda de identidade”.

Esses sinais, para Francisco, mostram que dificilmente podemos falar de um “verdadeiro progresso integral nem [de] uma melhoria da qualidade de vida”. E acrescenta: “Alguns desses sinais são ao mesmo tempo sintomas de uma verdadeira degradação social, de uma ruptura silenciosa dos vínculos de integração e comunicação social”.

As redes sociais impedem de amar com generosidade

Vem, então, no número que segue, o 47 da encíclica, as censuras mais especificamente consagradas à internet, às redes sociais e ao big data. O Papa constata, com efeito, que à degradação social, à ruptura dos vínculos de integração e comunicação social, “vêm juntar-se as dinâmicas dos meios de comunicação e do mundo digital, que, quando se tornam onipresentes, não favorecem o desenvolvimento de uma capacidade de viver com sabedoria, pensar em profundidade, amar com generosidade. Neste contexto, os grandes sábios do passado correriam o risco de ver sufocada a sua sabedoria no meio do ruído dispersivo da informação”. O mesmo vale para as redes sociais.

O big data satura, confunde e polui

O big data é citado nesta frase: “A verdadeira sabedoria, fruto da reflexão, do diálogo e do encontro generoso entre as pessoas, não se adquire com uma mera acumulação de dados, que, numa espécie de poluição mental, acabam por saturar e confundir”.

Os algoritmos eliminam e excluem

A comunicação nascida da internet comporta, de acordo com o Santo Padre, um perigo cardeal: “Ao mesmo tempo tendem a substituir as relações reais com os outros, com todos os desafios que implicam, por um tipo de comunicação mediada pela internet. Isto permite selecionar ou eliminar a nosso arbítrio as relações e, deste modo, frequentemente gera-se um novo tipo de emoções artificiais, que têm a ver mais com dispositivos e monitores do que com as pessoas e a natureza” (n. 47).

Se fôssemos tomistas, diríamos que a internet rompe e manipula a conaturalidade das relações humanas. O Papa diz isso dessa maneira: “Os meios atuais permitem-nos comunicar e partilhar conhecimentos e afetos. Mas, às vezes, também nos impedem de tomar contacto direto com a angústia, a inquietude, a alegria do outro e com a complexidade da sua experiência pessoal” (n. 47).

As redes sociais reforçam a melancolia e a solidão

Enfim, a encíclica, sempre no número 47, ecoa as recentes pesquisas que imputam às redes sociais, e em particular ao Facebook, um crescimento da melancolia depressiva: “Por isso, não deveria surpreender-nos o fato de, a par da oferta sufocante destes produtos, ir crescendo uma profunda e melancólica insatisfação nas relações interpessoais ou um nocivo isolamento”.

A encíclica não é, portanto, nem tecnofóbica nem digitalfóbica

Disso a crer que a encíclica papal seja tecnofóbica ou digitalfóbica seria apenas um passo. Que nos guardemos, no entanto, de dar esse passo, tendo para isso presente o que diz nos números 102 e 103. Francisco faz ali uma ode à tecnologia: “A humanidade entrou em uma nova era, em que o poder da tecnologia nos põe diante de uma encruzilhada. Somos herdeiros de dois séculos de enormes ondas de mudanças: a máquina a vapor, a ferrovia, o telégrafo, a eletricidade, o automóvel, o avião, as indústrias químicas, a medicina moderna, a informática e, mais recentemente, a revolução digital, a robótica, as biotecnologias e as nanotecnologias. É justo que nos alegremos com estes progressos e nos entusiasmemos à vista das amplas possibilidades que estas novidades incessantes nos abrem, porque ‘a ciência e a tecnologia são um produto estupendo da criatividade humana que Deus nos deu’”.

Em suma, a encíclica não pode deixar de “apreciar e agradecer os progressos alcançados especialmente na medicina, engenharia e comunicações. Como não havemos de reconhecer todos os esforços de tantos cientistas e técnicos que elaboraram alternativas para um desenvolvimento sustentável?”

Toda a questão consiste em utilizar bem esta tecnociência: “A tecnociência, bem orientada, pode produzir coisas realmente valiosas para melhorar a qualidade de vida do ser humano, desde os objetos de uso doméstico até os grandes meios de transporte, pontes, edifícios, espaços públicos. É capaz também de produzir coisas belas e fazer o ser humano, imerso no mundo material, dar o ‘salto’ para o âmbito da beleza. Poder-se-á negar a beleza de um avião ou de alguns arranha-céus? Há obras pictóricas e musicais de valor, realizadas graças à utilização de novos instrumentos técnicos. Assim, no desejo de beleza do artífice e em quem contempla esta beleza dá-se o salto para uma certa plenitude propriamente humana”.

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