Laudato si' valoriza intuições de Teilhard de Chardin

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22 Junho 2015

"A meta do caminho do universo situa-se na plenitude de Deus, que já foi alcançada por Cristo ressuscitado, fulcro da maturação universal. (…) O fim último das restantes criaturas não somos nós. Mas todas avançam, juntamente conosco e através de nós, para a meta comum, que é Deus, em uma plenitude transcendente onde Cristo ressuscitado tudo abraça e ilumina": assim lemos na conclusão do parágrafo 83 da Laudato si'.

A reportagem é de Marco Roncalli, publicada no jornal Avvenire, 20-06-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Trata-se da parte da nova encíclica dedicada ao mistério da criação (no capítulo II, intitulado "O Evangelho da criação"), em que o pensamento de Pierre Teilhard de Chardin (na abordagem teológica da evolução) é percebido de modo tão evidente, a ponto de merecer uma citação ao pé da página.

Sim, justamente o jesuíta cientista capaz de repensar o Universo à luz da fé e da ciência (unindo espírito e matéria como dois lados da mesma moeda), ele, o místico profeta de uma consciência planetária que convidava a encontrar Deus em todas as coisas e que, suspeito de panteísmo, viu as suas obras tornarem-se alvo de um Monitum do Santo Ofício em 1962 (tendo sido, depois, "reabilitado" por Paulo VI), encontra espaço ao lado de outros pensadores (como Romano Guardini ou Paul Ricoeur), mas, acima de tudo, ao Pobrezinho de Assis, entre as referências do novo texto do Papa Francisco.

De fato, parece que o significado das indicações mais fortes àquela "conversão ecológica" não mais prorrogável que a Laudato si' pede aos fiéis ou não é mais evidente onde o pensamento do Santo de Assis – com as preocupações pelos pobres ou pelas criaturas, mas também com a fidelidade à natureza como livro divino – acaba tocando as intuições do jesuíta francês. Começando pela convergência universal de uma humanidade coesa e projetada para a frente e, ao mesmo tempo, por um destino da criação que passa pelo mistério de Cristo, presente desde a origem: em suma, pela ordem escatológica da Salvação.

Embora seja verdade que "tudo está em relação", "tudo está conectado", "tudo está ligado", como se repete nesse documento, onde são as consequências "sociais" que são postas em destaque pelas análises "ecológicas", mas onde ciência e fé, humanismo e teologia da criação, bem-aventuranças e promessa de redenção também vão ao encontro, eis que Teilhard se assoma entre as páginas.

Com a sua contribuição para ler teologicamente a destruição dos recursos (como uma forma de desprezo da criação, do Criador, das criaturas) e preencher de sentido a "recomposição do mundo quebrado" em que vivemos (para retomar o título de conhecidos documentos dos jesuítas sobre o assunto).

Não somente Teilhard, cujo Hino à matéria reintroduz motivos que estão de modo diferente no Cântico das criaturas, retorna nas partes dedicadas aos sinais sacramentais, no capítulo VI da encíclica ("educação e espiritualidade ecológica"), em particular com a eucaristia, sinal e antecipação do porto final de toda a criação, com o Cristo em tudo o que nos envolve, para realizar a redenção do cosmos destinado a se tornar Hóstia viva.

"A criação encontra a sua maior elevação na Eucaristia. A graça, que tende a manifestar-se de modo sensível, atinge uma expressão maravilhosa quando o próprio Deus, feito homem, chega ao ponto de Se fazer comer pela sua criatura", lê-se no parágrafo 236. E logo depois: "De fato, a Eucaristia é, em si mesma, um ato de amor cósmico".

Depois, a Laudato si' não se esquece de uma passagem da encíclica de João Paulo II, Ecclesia de Eucharistia, em que se lê: "Sim, cósmico! Porque mesmo quando tem lugar no pequeno altar de uma igreja da aldeia, a Eucaristia é sempre celebrada, de certo modo, sobre o altar do mundo".

Essa última imagem teilhardiana também traduz o nosso olhar sobre o mundo e se representa nas sínteses assumidas pela primeira vez por João Paulo II e agora por Francisco: "A Eucaristia une o céu e a terra, abraça e penetra toda a criação" e – iluminando e motivando o nosso cuidado pelo ambiente – "leva-nos a ser guardiões da criação inteira".

Ela nos ajuda, poderíamos acrescentar com o Papa Francisco e o Patriarca Bartolomeu, a "aceitar o mundo como sacramento de comunhão, como forma de partilhar com Deus e com o próximo em uma escala global".

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