Por que o papa não fecha as portas para Putin

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10 Junho 2015

No domingo, o papa recebeu por uma hora e quarenta minutos a presidente argentina, Cristina Kirchner. Mas, na realidade, há vários dias, o Vaticano está projetado sobre outra audiência: a desta quarta-feira, 10 junho, com Vladimir Putin.

A reportagem é de Massimo Franco, publicada no jornal Corriere della Sera, 09-06-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Parece que o líder da Federação Russa vai aproveitar o encontro para pedir que seja levantado o bloqueio do governo ucraniano às controversas ajudas russas destinadas aos territórios orientais: os contestados com os "rebeldes" pró-Moscou.

Não só isso. Nos últimos dias, o patriarca ortodoxo Hilarion reiterou discretamente a apreciação pela linha equilibrada e independente do Vaticano: um reconhecimento evidentemente compartilhado pelo Kremlin, do qual a ortodoxia é a interface religiosa.

A entrevista concedida pelo presidente russa ao jornal Corriere foi analisada com a máxima atenção na Secretaria de Estado; e, relatam no círculo papal, bastante apreciada. Aquela frase de Putin: "Eu não sou um agressor", pode ter parecido surpreendente para muitos, contra o pano de fundo do conflito na Ucrânia. Na realidade, para a Santa Sé, Putin continua sendo um interlocutor inevitável e considerado precioso para conter o terrorismo islâmico no Oriente Médio, e não só.

Por isso, apesar das pressões dos Estados Unidos, do governo de Kiev e de uma Europa relutante, o Vaticano continua não se inclinando contra a Rússia sobre a questão ucraniana.

O arcebispo Sviatoslav Shevchuk, chefe da Igreja greco-católica em Kiev, tentou inutilmente induzir a Santa Sé a se pronunciar contra Putin. E, se alguém tivesse aparecido no dia 12 de maio no International Institute for Strategic Studies de Londres, teria recebido a confirmação de um Vaticano ancorado no Ocidente, mas não disposto a se despedaçar prejudicialmente sobre a sua política externa.

Falando para cerca de 40 analistas da estratégia da Santa Sé, o núncio na Grã-Bretanha, Dom Antonio Mennini, anteriormente "embaixador" em Moscou por oito anos, lembrou que o papa nunca definiu Putin como um agressor.

São reflexos de uma corrente fortemente majoritária dentro do Vaticano. Eles explicam por que a estratégia internacional de Francisco é olhada do outro lado do Atlântico com uma mistura de curiosidade, admiração e perplexidade.

A diplomacia estadunidense teria recomendado ao Vaticano que desconfiasse de Putin. "Ele só quer usar a Igreja Católica para encobrir as suas costas" é a tese de um país como os Estados Unidos, preocupado com as capacidades de propaganda do Kremlin. Mas o papa argentino sempre manteve a sua estratégia cautelosa e autônoma, em plena sintonia com o secretário de Estado, o cardeal Pietro Parolin.

Prevalece a consciência das implicações geopolíticas, mas especialmente georreligiosas, de uma onda crescente das tensões entre Leste e Oeste; e a determinação para atenuá-las e não para promovê-las. A preocupação vaticana é a de evitar que uma nova Guerra Fria entre EUA e Rússia bloqueia a distensão entre o mundo católico e o ortodoxo; divida o ortodoxo entre pró e antirrussos; e, no fim, torne-se guerra fria religiosa. A visão retomada por Jorge Mario Bergoglio é a de João Paulo II, segundo o qual a Europa, para respirar bem, tinha que ter "dois pulmões: um oriental e um ocidental".

Nos bastidores, no Vaticano, explica-se que o verdadeiro movimento vencedor de Putin seria o de convencer o patriarca Hilarion a convidar Francisco a Moscou. Isso significaria parar a deriva do conflito e favorecer a reconciliação religiosa. O patriarca irá a Roma em torno do dia 20 de junho para se encontrar com o cardeal Parolin, mas não se exclui também uma conversa com Francisco.

Até agora, as dificuldades para uma visita do papa à Rússia se mostraram insuperáveis por causa da competição dentro do mundo ortodoxo e das desconfianças históricas em relação ao catolicismo: mesmo que Francisco esteja pronto para conceder muito à ortodoxia de Moscou.

A sua mediação nas crises mundiais o consagra como um protagonista, que a guerrilha insistente e subterrânea dos seus adversários na Cúria Romana não corrói. Intui-se isso também a partir da atenção com a qual os Estados Unidos se preparam para recebê-lo no fim de setembro. A previsão é de que será uma festa popular, acompanhada pela hostilidade daqueles que somam as aberturas a Putin às aberturas ao cubano Raúl Castro para criticá-lo. O encontro com o ditador cubano em Roma há cerca de um mês fez com que o Wall Street Journal, porta-voz da comunidade financeira estadunidense, escrevesse no dia 19 de maio passado que "muitos católicos" teriam ficado "perplexos, e com razão".

O pontífice latino-americano teria mostrado com aquela audiência cordial um reflexo da "antipatia" para com os EUA. Os ambientes nostálgicos das sanções contra Cuba, entre os republicanos mas também entre os democratas, não digerem a mediação do Vaticano. E estão prontos para se fazerem ouvir em vista das eleições presidenciais de 2016: um modo para atacar tanto Barack Obama quanto os candidatos moderados republicanos como Jeb Bush, prudente sobre o papel papal.

A Casa Branca teria ficado surpresa com a decisão de Francisco de chegar a Washington parando primeiro em Havana: uma "passagem a Sul" que o papa pensou e quis desde o início, desafiando também algumas perplexidades.

A pergunta que os Estados Unidos se fizeram é por que Bergoglio decidiu fazer uma etapa no último baluarte do comunismo caribenho. O clichê do "papa socialista", cara a alguns expoentes conservadores, parece risível. O anticomunismo de Bergoglio remonta aos tempos da Companhia de Jesus na Argentina. O fato de que agora Francisco se mostre disponível ao diálogo com os teólogos da libertação, com os quais, no passado, ele estava em choque, se explica sobretudo pelo fato de que o marxismo morreu e não representa mais o perigo de antigamente para a Igreja. A explicação, portanto, é diferente.

O catolicismo cubano, liderado pelo cardeal Jaime Ortega, e o próprio regime castrista não querem que as negociações que começaram no fim de 2014 se reduzam a uma negociação bilateral Cuba-EUA. Castro teria pedido com insistência que o pontífice acompanhe a transição. Em troca, Francisco teria recebido a confirmação de que serão ampliadas as liberdades ainda hoje reprimidas.

É um jogo delicado: tanto que o cardeal Ortega, aos quase 79 anos, não deveria ser substituído nem mesmo ao completar os 80 anos. Ele tem um papel estratégico demais para ser mudado nesta fase.

"Ninguém quer que Cuba se torne um apêndice de Miami", explicam no Vaticano. A Igreja deveria funcionar como um antídoto contra o deslize para uma sociedade consumista. No entanto, é provável que a conquista da liberdade, embora em etapas, acentue o apelo poderoso do estilo de vida norte-americano: embora a palavra "yankee", no mundo cubano, continue tendo um eco poluído por mais de meio século de ditadura e de Guerra Fria.

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