Declínio e Cisma na Religião. Artigo de Ross Douthat

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05 Junho 2015

Uma instituição religiosa em declínio tem a probabilidade de perder primeiro seus membros mais mornos, os "cristãos culturais", enquanto os membros teológica e ideologicamente mais comprometidos continuam nos bancos das igrejas. Quando esses membros comprometidos estão todos de um lado teológico ou de outro, a Igreja vai simplesmente balançar nessa direção. Mas, onde há divisões reais e intratáveis, o desaparecimento dos mornos remove um tampão importante entre as facções polarizadas e torna mais difícil evitar colisões e conflitos.

A análise é de Ross Douthat, escritor católico e colunista do jornal The New York Times. O artigo foi publicado no sítio do jornal The New York Times, 27-05-2015. A tradução é de Claudia Sbardelotto.

Eis o texto.

Eu acho que não mencionei nesta coluna, mas os leitores regulares provavelmente já viram o meu longo artigo na edição de maio da revista The Atlantic sobre a biografia e a agenda do Papa Francisco e o que seu pontificado pode significar para o futuro do catolicismo. O ensaio foi escrito um pouco antes de sua publicação, como acontece com longos artigos de revistas, e houve todos os tipos de desenvolvimentos recentes em torno da Igreja e do pontífice que merecem ser discutidos de novo. Espero percorrer mais plenamente essas questões no próximo mês, mas, em primeiro lugar, antes que passe muito tempo, quero falar sobre a palavra cisma - que aparece em meu artigo na The Atlantic, embora talvez não tão destacadamente como o título sugere - no contexto dos dados da pesquisa feita pelo Instituto Pew, que geraram repercussão há duas semanas.

Eu disse, na época, que o quadro sombrio que o Pew apresentava da situação do catolicismo norte-americano era provavelmente mais uma anomalia estatística do que uma representação perfeitamente precisa, e eu continuo a sustentar essa análise. Mas, mesmo tomada com uma pitada de sal, a avaliação do Pew sugere, pelo menos, que a Igreja Católica nos EUA está vulnerável a declinar mais do que a relativa estabilidade da sua quota da população desde a década de 1940 possa sugerir. Existem várias maneiras de reduzir seus números, mas a análise de Leah Libresco em FiveThirtyEight é particularmente interessante: se você levar em conta uma combinação de taxas de conversão, taxas de pessoas que deixam a fé e taxas de natalidade, você pode estabelecer uma espécie de número "em repouso" para cada uma das principais religiões norte-americanas, um lugar onde os ganhos em seu ritmo atual seriam iguais a exatamente a atual taxa de perdas, e uma espécie de equilíbrio seria alcançado. (Note-se que ela não está dizendo que isso vai realmente acontecer; esse é um barômetro da vitalidade atual, não uma projeção para 2045 ou 2060.) Esse número de repouso para os cristãos evangélicos é um pouco maior do que a atual porcentagem de evangélicos da população; para os mórmons esse número é muito mais elevado (mais uma vez: não uma projeção real); para os protestantes tradicionais é um pouco menor; para os não afiliados é maior até que as taxas de natalidade sejam fatoradas e, em seguida, o número cai um pouco. Mas para o catolicismo a diferença é grande: 22% dos norte-americanos se identificam como católicos, hoje, mas o equilíbrio católico com base em idas e vindas atuais é de apenas 6%.

Mais uma vez, Libresco está usando números que podem muito bem exagerar a fraqueza do catolicismo. Mas se o Pew está mesmo capturando um pouco da realidade, então a possibilidade de um colapso repentino deveria preocupar os líderes do catolicismo mais do que preocupa, digamos, os Santos dos Últimos Dias e os Batistas do Sul. E, dadas as atuais divisões dentro da Igreja, deveria preocupá-los particularmente porque - ou assim eu suspeito - uma Igreja em declínio pode mais provavelmente arrebentar de forma repentina pelas costuras.

Existem algumas razões pelas quais isso pode ser assim. Por um lado, uma instituição religiosa em declínio tem a probabilidade de perder primeiro seus membros mais mornos, os "cristãos culturais" (o que, na verdade, é aquilo que estamos vendo em toda a vida religiosa norte-americana), enquanto os membros teológica e ideologicamente mais comprometidos continuam nos bancos das igrejas. Quando esses membros comprometidos estão todos de um lado teológico ou de outro, a Igreja vai simplesmente balançar nessa direção. Mas, onde há divisões reais e intratáveis, o desaparecimento dos mornos remove um tampão importante entre as facções polarizadas e torna mais difícil evitar colisões e conflitos.

Eles também são mais difíceis de evitar, porque os incentivos materiais para o conflito são mais fortes quando as coisas estão indo ladeira abaixo. Igrejas são entidades espirituais, mas elas também são entidades corporativas, com um certo conjunto de nomeações a fazer, paróquias a atribuir, fluxos de receita a gerenciar; seus escritórios também carregam uma certa quantidade de prestígio social e de capital que diminui à medida que a instituição se torna mais fraca (e ideologicamente mais desfavorecida). Da mesma forma que um bolo econômico em expansão permite uma espécie de política do tipo "ambos/e" (investimentos em defesa e bens de consumo, reduções de impostos e aumentos de gastos), uma Igreja que está crescendo oferece incentivos mais fortes para que as facções vivam essencialmente em uma paz inquieta umas com as outras (você ganha uma diocese e você ganha uma diocese e você ganha uma diocese), para buscar a via mediana sempre que possível, para evitar guinadas evidentes com a tradição, mas também conflitos demasiado evidentes com a cultura secular ou com o consenso político. Considerando que um período de estagnação econômica torna as batalhas de grupos de interesse de esquerda versus de direita parecerem empatadas, um período de declínio institucional dá não apenas aos bispos e clérigos, mas também aos burocratas e administradores e acadêmicos religiosos um incentivo para pegar o que eles puderem para a sua facção, para criar espaços onde apenas o seu lado seja bem-vindo, a fazer o que puderem para preservar seu próprio prestígio social - mesmo que tudo isso exija levar a unidade da Igreja em geral ao ponto de ruptura.

E, então, finalmente, o declínio dá credibilidade aos casos intelectuais para uma mudança disruptiva, fortalecendo a mão de ambos, os radicais e os reacionários, às custas de quem deseja perturbar. No caso do catolicismo norte-americano, o estabelecimento pós-Vaticano II da era João Paulo II teve por muito tempo críticos progressistas e (em menor número) tradicionalistas, mas uma relativa estabilidade da Igreja fazia a alternativa tradicionalista parecer muito automarginalizante, e a alternativa progressista, muito radical - e dado o exemplo do declínio dos protestantes históricos, talvez até suicida. Mas se o catolicismo fosse entrar numa espiral descendente, o argumento de que o que estamos fazendo não está funcionando pode parecer mais atraente para muitas pessoas, seja na direita ou na esquerda teológica - quando você esperaria ver tanto mais bispos rezarem Missa ad orientem quanto mais agitação por mudanças ao estilo Walter Kasper com relação à disciplina e doutrina da Igreja, um giro ampliado em que o centro já existente, não consegue simplesmente segurar.

O que está acontecendo no catolicismo europeu, onde o declínio demográfico da Igreja está muito mais avançado, atesta essa realidade. O impulso contínuo dos bispos da Alemanha para alterar (eu diria desconstruir) a ética sexual do catolicismo é claramente entendido por seus apoiadores simplesmente como a única opção se a Igreja quiser sobreviver como uma instituição importante na Alemanha (e em toda a Europa Ocidental). Um observador cínico pode argumentar que a "importância" está sendo medida principalmente pelos fundos colocados à disposição da Igreja através do imposto religioso da Alemanha (o que está fazendo a população secularizante evitar), mas, sem dúvida, qualquer motivação financeira mistura-se com crenças teológicas sinceramente mantidas e um desejo igualmente sincero de ver a Igreja resistir e prosperar novamente. De tanta sinceridade urgente, porém, surgem conflitos que não podem ser facilmente ocultados ou resolvidos sem pelo menos uma divisão de facto, em que a Igreja "universal" acaba ensinando uma coisa sobre o casamento em Berlim e outra um pouco além, em Varsóvia (para não mencionar Lagos ou Durban).

Ou vamos pegar um exemplo um pouco diferente: na França, onde muitos bispos tendem a inclinar-se na mesma direção do episcopado alemão, o sentimento tradicionalista sempre foi mais forte do que em outras partes do mundo, mas o declínio acentuado do catolicismo não lefebvriano está ampliando a sua influência em potencial. A atual (e, claro, pequena) geração de jovens padres franceses tem mais chance do que a geração mais velha de estar associada às ordens religiosas (algumas em plena comunhão e algumas não) que rezam a missa em latim, e, dadas as tendências atuais, é possível que, em trinta anos, esses sacerdotes com tendências tradicionalistas irão ultrapassar todos os outros. Um sacerdócio com uma composição cada vez mais tradicionalista (em vez de meramente conservadora) poderá coexistir facilmente com a ascensão de ideias teológicas kasperianas na hierarquia da Europa Ocidental? Talvez sim, mas pelo menos a Igreja francesa poderá lidar com divisões muito mais marcantes dentro de vinte anos do que com aquelas que ela está lidando hoje.

Mais uma vez, nos Estados Unidos as coisas são diferentes: já que a Igreja é maior e (até agora) mais estável, ainda há um certo centro católico, embora inquieto e instável e puxado por ambos os lados, o que torna os incentivos para todos muito diferentes, e menos polarizados e radicalizados. Os católicos conservadores são mais propensos a resistir tanto às críticas tradicionalistas do Vaticano II quanto à visão implícita das ideias da "opção Bento", porque eles parecem implicar uma automarginalização ou recuo desnecessário pelo menos por enquanto. Os católicos liberais (com algumas exceções) são mais propensos a serem gradualistas do que revolucionários em seus argumentos sobre o que a Igreja deve fazer para prosperar. O que faz com que falar de cisma iminente, por parte de alguns jornalistas, pareça ser algo mais remoto, improvável, irreal.

Mas é apenas remoto se os métodos atuais da Igreja parecerem estar funcionando de forma decente. Dê ao catolicismo norte-americano uma trajetória demográfica igual à Igreja Episcopal [Anglicana], e - dependendo dos eventos em Roma, é claro - ninguém deveria estar confiante de que ele vai escapar de um resultado episcopal.

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