A proposta positiva de Padre Arrupe

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Por: Jonas | 19 Maio 2015

Padre Pedro Arrupe foi alguém profundamente ligado a Deus e apaixonado pelos homens”, afirmou o padre jesuíta João Quirino Weber, para um grupo de pessoas atentas e desejosas em adentrar na experiência de vida cristã do homem que, com coragem, levou a Companhia de Jesus a buscar o caminho mais difícil, mas, ao mesmo tempo, o mais genuinamente cristão: servir a fé e promover a justiça. No encontro de sábado, dia 16 de maio, pela iniciativa “Rezar com os Místicos”, mais que falar das obras do padre Pedro Arrupe, entendidas como o resultado de sua vivência do Evangelho, padre Quirino Weber ressaltou a “fonte viva” da qual esse grande jesuíta retirou a força e a coragem que fez dele um sinal do Reino de Deus entre nós.

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O relato é de Jonas Jorge da Silva, da equipe do CJCIAS/CEPAT de Curitiba.

Padre Quirino Weber, um jesuíta já calejado pelos anos de serviço ao Reino de Deus, em seus 83 anos, demonstrou um vigor que impressionou a todos. Ao falar de Pedro Arrupe, não falou sobre alguém distante, no estilo daqueles pesquisadores que estudam com afinco a biografia de alguém e depois fazem um belo discurso, mas, sim, falou sobre o que aprendeu do próprio convívio com Arrupe, quando em missão no Japão. E assim, mais do que alimentar os rótulos e classificações que na tradição historiográfica e sociológica é comum e, às vezes, necessário fazer: progressista versus conservador, esquerdista versus direitista, experiência eclesial libertadora versus experiência triunfalista, padre Quirino Weber preferiu destacar o que se pode chamar de “proposta positiva de Arrupe”, que será delineada até o término deste texto.

Arrupe foi um homem que procurou incessantemente guardar o depósito da fé, buscando rejuvenescer e ressignificar este dom Deus, que, como destacou o padre Quirino, deve ser de acolhimento da dinâmica do próprio Deus que está em nós. Tal dinâmica, ao invés do medo de Deus e do próximo, provoca um movimento de abertura para o outro, daí a superação da ideia do místico como alguém afastado do convívio com as pessoas, ao contrário, o místico é pessoa com as pessoas e sua oração se dá com as pessoas e por causa das pessoas. Foi esta compreensão, elevada a um alto grau, que fez de Arrupe um jesuíta, como bem salientado pelo padre Quirino, universal. Alguém antenado com as principais problemáticas enfrentadas pela sociedade contemporânea, que não se eximiu de levar adiante a proposta do Concílio Vaticano II. No posto de Prepósito Geral da Companhia de Jesus, de 1965 até 1983, fez de sua autoridade um serviço aos mais pobres e, abnegadamente, trabalhou para que a semente do Reino de Deus crescesse, independente das adversidades e hostilidades que são próprias da caminhada daqueles que assumem este caminho.

 
Foto: Don Doll, SJ  

Para o padre Quirino Weber, Arrupe foi portador das três qualidades que o dom da fé proporciona àqueles que o aceitam: a fortaleza, que lhe deu a dignidade, a postura e a coerência nos momentos em que precisou enfrentar os ventos fortes das adversidades; a caridade, uma vez que a fé é inseparável do amor e, por sinal, ele radicalizou esse preceito; e o discernimento, que é fruto da tão necessária sabedoria, que marcou o seu modo de se manter fiel aos desígnios de Deus.

Sem cair no artifício do denuncismo, Arrupe foi um homem de propostas, que abriu caminhos de diálogo, de aproximação e de contato com os povos, em suas mais diversas manifestações culturais e religiosas. Preocupou-se em ajudar a Igreja, a quem tanto amou, a viver e ser a primeira testemunha da boa notícia da qual é portadora: o Evangelho de Jesus Cristo. Arrupe compreendeu muito bem que apontar o erro é mais fácil do que apontar saídas e alternativas. Sendo assim, foi além dos profetas das desgraças e das chagas sociais e eclesiais e, sem deixar de enxergá-las, trabalhou com perseverança abrindo novas fronteiras, propondo com docilidade, mas sem interrupção, um modo de viver a fé que não nega as consequências de tal proposta.

Como não se sensibilizar e se sentir desafiado com a manifestação do padre Arrupe, quando a Congregação Geral 32 concluiu que “A missão da Companhia de Jesus, hoje, é o serviço da fé, do qual a promoção da justiça constitui uma exigência absoluta”? Naquela oportunidade, disse: “Estamos bem conscientes do que acabamos de votar e aprovar? A partir de agora, a prioridade das prioridades de nossa missão é o serviço da fé e a promoção da justiça. Por causa desta decisão vamos ter novos mártires na Companhia de Jesus” (Weber, Quirino. Pedro Arrupe: um jesuíta universal. Coleção Caminhar com Inácio – 1. Porto Alegre, 2007).  

E hoje, quando se olha para os mártires da nossa América e se enxerga nomes como os de Rutilio Grande, Ignácio Ellacuría e seus companheiros, João Bosco Penido Burnier, entre outros, nota-se que a profecia do padre Arrupe ecoou nessas terras tão marcadas pelas injustiças sociais, onde é insuportável conceber uma fé que não esteja associada à promoção da justiça.

Esta é a proposta positiva de Arrupe, que não nasce de uma mera verborragia, mas de um compromisso, de uma tarefa que cabe a cada um de nós, caso haja o interesse em cumprir o mandato de Deus.  Como bem salientou o padre Quirino, a partir de Arrupe se pode afirmar que cada pessoa é uma notícia de Deus e também uma tarefa para cada um de nós. Nesse sentido, não há espaço para uma fé intimista ou concebida na indiferença em relação ao mundo no qual se vive.

Arrupe impregnou sua marca na missão jesuíta e na vida da Igreja porque bebeu da “fonte viva”, que é o amor de Deus. “A força do amor de Deus não se cansa”, disse o padre Quirino. É esta força que sempre alimentou Arrupe, inclusive quando se deparou com a enfermidade e manteve aquela serenidade e fidelidade de sempre, fruto de seus momentos de silêncio, a sós com Deus. Como bem disse o próprio padre Arrupe: “Quando damos a vida, não damos nada. Devolvemos. Por isso, é preciso dar a vida a cada dia, gratuita e generosamente”.

As palavras do padre Quirino Weber a respeito de Pedro Arrupe contagiaram todos os participantes. No início do encontro, algumas pessoas compartilharam o que significa para elas a experiência do “Rezar com os Místicos”. “Tem sido um momento de ação de graças em nossas vidas”, relatou uma das participantes, ao mesmo tempo em que alguém destacou que cumpre o papel de “aprofundar a mística e o compromisso com o Reino”. Trata-se de um momento para “me abastecer”, concordou mais uma das participantes. Ao final do encontro, não foi preciso muito para perceber o entusiasmo de todos diante do testemunho de um irmão (Arrupe) próximo de Deus e, consequentemente, dos irmãos e irmãs que também hoje continuam interpelando a todos, principalmente a partir das grandes violações, das mais diferentes espécies, que sofrem no mundo contemporâneo.  A ousadia de Arrupe faz lembrar que a esperança cristã não pode morrer, mas, sim, deve ser atualizada no atual momento da história, independente da dificuldade humana em que se vive.

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