Nenhuma novidade na referência vaticana ao “Estado da Palestina”

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14 Mai 2015

Uma feliz consequência do fascínio público geral para com o Papa Francisco é que muitas pessoas estão dando atenção a um pontífice pela primeira vez, e assim tendem a supor que tudo o que acontece atualmente seja uma novidade.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 13-05-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Tal é o caso ocorrido nesta quarta-feira com o novo tratado entre o Vaticano e os palestinos, que está sendo alternativamente saudado ou condenado, dependendo do ponto de vista do sujeito, como um reconhecimento importante da soberania palestina – tudo porque um breve comunicado vaticano empregou a frase “o Estado da Palestina”.

Na verdade, este tratado não nenhuma novidade tampouco um reconhecimento diplomático.

O Vaticano tem usado a frase “o Estado da Palestina” em sua diplomacia desde novembro de 2012, quando a Assembleia Geral das Nações Unidas votou a favor da admissão dos palestinos como um Estado observador não membro. O Vaticano sempre apoiou o Estado palestino, e assumiu a postura de seguir a orientação da ONU quanto ao momento em que começaria se referir a ele como um fato.

Deve-se notar que a votação na ONU aconteceu durante o papado de Bento XVI, o que significa que este reconhecimento da Palestina como um Estado não se trata de uma nova política vaticana sob o comando do Papa Francisco.

Quando o Vaticano emitiu uma nota à imprensa em 2013, em que anunciava o início das negociações com os palestinos no sentido de firmar o tratado que, hoje, foi finalizado, disse que as tratativas seriam conduzidas com os “representantes do Ministério do Exterior do Estado da Palestina”.

Portanto, a “notícia” informada nesta quarta-feira já tem dois anos de meio.

Quando o porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, confirmou aos jornalistas na quarta-feira (13-05) que a linguagem empregada no comunicado é “um reconhecimento de que o Estado existe”, ele se viu repetindo um ponto já estabelecido.

Desde o começo do conflito israelo-palestino, o Vaticano sempre foi a favor de uma solução de dois Estados, com garantias de segurança para Israel e de autodeterminação para os palestinos. Ele também vem apoiando um status especial para Jerusalém. Aqui, o Vaticano defende que a tutela dos lugares sagrados seja feita pelas três religiões monoteístas – o judaísmo, o islamismo e o cristianismo.

O tratado acordo anunciado na quarta-feira não tem nada a ver com a questão de se reconhecer os palestinos como um Estado independente.

Em vez disso, o seu texto diz respeito aos impostos e ao status jurídico de instalações e pessoal católicos na Cisjordânia e Faixa de Gaza, e foi construído na base de um tratado alcançado entre o Vaticano e a Organização da Libertação Palestina – OLP em 2000.

Para constar: não é errado ver o Papa Francisco como um apoiador do movimento palestino em nome da soberania.

Quando Francisco visitou a Cisjordânia em maio de 2014, a imagem dele parado em oração silenciosa diante da polêmica barreira de segurança israelense – e próximo a uma pichação que dizia: “Palestina Livre!” – transformou-se imediatamente num ícone da causa palestina.

No entanto, não há nada de novo nesta postura assumida.

Quando o Papa Bento XVI viajou ao Oriente Médio em 2009, ele comprometeu-se em apoiar o reconhecimento de um Estado palestino. São João Paulo II fez, muitas vezes, declarações semelhantes e era particularmente admirador do ex-líder da OLP Yasser Arafat, a ponto de ter um conjunto das Estações da Cruz feito de marfim, dado a ele por Arafat como um presente. Esta obra encontra-se instalada numa pequena capela de uma câmara vaticana onde os bispos de todo o mundo se reúnem num encontro chamado “Sínodo”.

O tratado anunciado nesta quarta-feira solidifica, mais ainda, a relação entre o Vaticano e os palestinos, e certamente os diplomatas vaticanos não são tão ingênuos a ponto de não reconhecerem a relevância política de se usar a frase “o Estado da Palestina” em um comunicado oficial.

Entretanto, considerar esta frase como mais outra inovação diplomática sob o atual papa é demais. Na melhor das hipóteses, trata-se de uma confirmação de que o Vaticano, sob o Papa Francisco, não está se afastando de uma posição já antes assumida.

Talvez, no futuro, a equipe de comunicação do Vaticano queira considerar um aviso do tipo: “Atenção. Nem todas as coisas contidas no seguinte comunicado correspondem a uma revolução”.

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