Arquivos vaticanos e ditadura argentina. A abertura do Papa ajudará a esclarecer os fatos?

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Por: Jonas | 11 Maio 2015

A presidente da Associação de familiares de presos e desaparecidos por razões políticas, Lita Boitano, informou que o Papa Francisco está decidido a abrir os arquivos da Igreja relacionados aos fatos que ocorreram entre 1976 e 1983, na Argentina. A senhora Boitano, mãe de dois filhos desaparecidos, não tem dúvidas de que neles será possível encontrar material que ajude na identificação dos desaparecidos e na recuperação de crianças roubadas. “Naqueles anos de terrorismo de Estado, nós, familiares, denunciávamos as violações de direitos humanos que eram cometidas na Argentina e escrevíamos cartas ao Vaticano. Deve haver evidências dessa informação”. Lita Boitano afirmou que o Papa Francisco está decidido a desfazer o segredo que ainda pesa sobre uma parte dos arquivos vaticanos. Não só isso, também afirmou que o Papa pensa em publicar “um documento de autocrítica sobre a Igreja” nos anos da ditadura. “Disse-me que está preparando um documento sobre o tema”, declarou a uma rádio argentina quando retornou a seu país. Também levantou a hipótese de que o texto poderia ficar pronto “mais ou menos dentro de um mês”. O secretário particular do Papa, monsenhor Guillermo Karcher, da Secretaria de Estado, confirmou praticamente tudo o que foi dito, exceto o detalhe mais explosivo, a preparação do documento sobre o qual ninguém havia ouvido falar, afirmando que “a Secretaria de Estado já começou a trabalhar no tema da abertura dos arquivos do Vaticano relacionados à ditadura argentina”. Não fez nenhuma referência ao andamento, apenas esclareceu que “levará tempo para que as coisas sejam bem feitas”. É nada menos que uma operação glasnot quarenta anos após o golpe de Estado que instalou uma junta militar no governo do país sul-americano.

 
Fonte: http://goo.gl/KEtGqI  

A reportagem é de Ignacio Grimaldi, publicada por Tierras de América, 07-05-2015. A tradução é do Cepat.

As afirmações de Lita Boitano – e sobretudo as do estreito colaborador do Papa – são acompanhadas com suma atenção na Argentina. O presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara de Deputados, Remo Carlotto, admitiu que sentia “grande esperança” pelo que o Papa estava fazendo. A Conferência Episcopal Argentina, em seu conjunto, prefere não fazer comentários até que o Pontífice não tenha manifestado publicamente suas intenções.

Um dos juízes do processo contra as Juntas Militares da ditadura argentina, o ex-deputado Ricardo Gil Lavedra, em diálogo com Tierras de América, recordou que naqueles anos os familiares das vítimas percorriam as paróquias com a esperança de conhecer o paradeiro de seus desaparecidos. É provável que vários párocos ou sacerdotes tenham informado ao núncio vaticano no país, e ele à Santa Sé. “Não é possível que a Igreja não tenha informação”, confirma Gil Lavedra.

Remo Carlotto, filho da presidente da comissão da organização Avós da Praça de Maio, Estela de Carlotto, resume as duas atitudes que, em sua opinião, estavam presentes na instituição eclesiástica nos anos mais duros da repressão militar. A daqueles que ocupavam altos postos hierárquicos, que “acompanhavam a ação criminal do Estado e abençoavam os aviões da morte” e a daqueles que fizeram o possível para salvar vidas. Entre estes últimos, Carloto destaca a figura de dom Enrique Angelelli, que também foi vítima da ditadura.

Gil Lavedra concorda e, entre os “cúmplices”, destaca monsenhor Christian Federico von Wernich, capelão da Polícia da Província de Buenos Aires nos anos do Processo de Reorganização Nacional, condenado a prisão perpétua em 2007. Apesar disso, o ex-deputado nega que a Igreja, enquanto tal, tenha cometido crimes e prefere falar de “responsabilidade por omissão”. Se os arquivos não foram abertos até hoje “é porque não houve vontade para isso”.

Gil Lavedra, ex-ministro de Justiça e Direitos Humanos da Nação, confia e considera que a Igreja “trará novos elementos” na busca da verdade. “A justiça necessita da verdade”, afirma, “e enquanto não tivermos a verdade, também não haverá justiça plena”. O ex-deputado afirma que, 32 anos após o fim da ditadura, ainda restam muitas coisas para saber, tanto sobre o destino dos desaparecidos como das crianças raptadas de seus legítimos pais, em geral assassinos. “Conhecer a fundo tudo o que ocorreu pode evitar que voltem a ocorrer fatos tão atrozes”.

Gil Lavedra é prudente quando procura avaliar as consequências da abertura dos arquivos nos processos que ainda estão em curso na Argentina ou sobre eventuais processos novos que poderão ser iniciados. “Seria arriscado fazer avaliações aleatórias sem, primeiramente, tomar conhecimento dos elementos novos que os arquivos contêm”.

Remo Carlotto insiste, por sua vez, na importância de uma indenização aos familiares dos desaparecidos e em que os eventuais processos que sejam abertos com base na informação oferecida pelo Vaticano sejam efetivados na Argentina. O filho de Estela de Carlotto relaciona estreitamente a abertura dos arquivos sobre a ditadura com a chegada de Jorge Bergoglio ao papado. “Trouxe uma mudança na visão de Igreja”. Por fim, “está dando resposta a mais de 30 anos de democracia na Argentina”. Em seguida, recordou o assassinato de sua irmã Laura, sequestrada na cidade de Buenos Aires, em fins de 1977, e as torturas que seu pai sofreu: “O esquecimento não cura as feridas; só o conhecimento da verdade pode fazer isso”.

No dia 5 de agosto do ano passado, Remo Carlotto soube que havia sido identificado o filho de sua irmã Laura. “Senti que, finalmente, a mesa familiar estava completa, onde sempre havia uma cadeira vazia”. Está feliz por ter mantido a promessa que fez “na sepultura de Laura”. Também reconheceu que, nestes anos, muito trabalho foi realizado, mas ainda falta, “e nisso a Igreja tem um papel importante”. Destaca três linhas de ação que devem ser simultâneas: “A memória, para que o ocorrido não volte a se repetir, a verdade como ato de reparação e a justiça como sinal para o conjunto do povo argentino de que a impunidade não existe”. A decisão inédita do Papa Francisco, de abrir os arquivos vaticanos, é uma luz de memória, verdade e justiça que ilumina as páginas mais obscuras da história argentina.

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