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04 Maio 2015

"Caro diretor, oitocentos milhões de pessoas sofrem de fome crônica, dois bilhões são afetados por má nutrição, outros dois bilhões estão em sobrepeso e por isso sofrem de várias patologias. E há mais: a cada ano é jogado fora um terço da produção alimentar global, em torno de 1,3 milhões de toneladas, uma quantidade que seria suficiente para nutrir os que estão famintos. Entre os paradoxos que marcam nossa época, aqueles que se referem à repartição dos alimentos são os mais insuportáveis: isso porque a desigualdade assume uma forma letal, tendo uma parte conspícua da humanidade sob os padrões mínimos de vida e dignidade. Uma desigualdade que golpeia acima de tudo – como sempre acontece – um gênero: são as mulheres, nos países em via de desenvolvimento, que cultivam a terra e vendem a colheita, mas esta sua função não é reconhecida e as sociedades as mantêm às margens. Também destes desequilíbrios nascem tensões e instabilidades, guerras e migrações".

A opinião é de Laura Boldrini, presidente da Câmara dos Deputados da Itália, publicada pelo jornal Corriere della Sera, 28-04-2015. A tradução é de Benno Dischinger.

O nosso País tem uma ocasião importante e positiva para pôr no centro das atenções estes desafios epocais. A Carta de Milão, que é apresentada hoje, na iminência da abertura da Expo 2015, expressa a ambição de não mais fechar os olhos ante as contradições que tornam tão precária a convivência sobre o planeta. Redefinir o modelo de desenvolvimento em termos socialmente e ambientalmente sustentáveis – isso é claro agora para todos – não é uma utopia, mas uma necessidade imprescindível. Assim como não é mais inviável o empenho dos Estados para frear a mudança climática que causa a destruição de inteiros territórios e a morte de milhares de pessoas, além de contribuir para a redução de recursos agrícolas. Ao mesmo tempo, frear os desperdícios não é só exigência ética, mas urgência econômica, se quisermos evitar ser sepultados pelos rejeitos e pelo seu custo. As análises e as propostas de solução nessa matéria são agora amplamente compartilhadas: quinta-feira passada, de fato, também a Câmara dos deputados, numa sessão muito participada, debateu e depois votou com a mais ampla maioria a moção contendo os empenhos conexos com a Carta de Milão.

Esses problemas requerem empenhos que dizem respeito não só às instituições políticas, mas também aos cidadãos, à sociedade civil, às empresas. E isto me parece, junto aos conteúdos, um ulterior aspecto positivo da Carta. Os progressos reais e profundos se realizarão só se formos nós todos unidos a promovê-los: não existe nenhuma mudança possível caso se pretenda impô-la do alto, sem o envolvimento de quem deve concretizá-la cada dia em sua realidade local. A Carta chama todos os indivíduos a um exercício democrático.

Recoloca o valor da participação numa das questões cruciais do nosso tempo. Faz política do modo mais autêntico. Espero que entre tantos, sobretudo jovens, queiramos captar esta ocasião.

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