A pegada hídrica: outro olhar sobre consumo e gestão da água

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01 Maio 2015

Vanessa Empinotti destaca o quanto se gasta de água para a produção de alimentos e bens de consumo. Ao exportar esses produtos, exporta-se também a água gasta no processo.

Foto: João Vitor Santos/IHU
Um quilo de chocolate é igual a 24 mil litros de água. Um quilo de carne a 15 mil 500 litros de água. Num simples copinho de café, 140 litros de água. Os números impressionam por apontarem o quanto se gasta para a produção desses produtos. O mais impressionante é pensar que quando se exporta produtos está também se mandando embora a água utilizada em todo o processo de produção. Esse é um dos enfoques que se pode ter sobre o consumo a partir do conceito de pegada hídrica. Essa forma de ver o consumo e pensar a gestão de recursos hídricos foi apresentada pela professora da Universidade Federal do ABC, Vanessa Lucena Empinotti (foto), na conferência do Ciclo de Estudos – Metrópoles, Políticas Públicas e Tecnologias de Governo, promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU. O encontro ocorreu na quarta-feira (29-04). O Ciclo ainda segue até 10 de junho, com temas para se pensar a vida na metrópole.

Vanessa abre sua fala destacando que pegada hídrica é uma metodologia que deriva do conceito de água virtual. Surgiu da necessidade de se pensar não só quanto se gasta de água para produzir alimentos, mas também levar em conta o fluxo de importações. Ou seja, é pensar, por exemplo, que quando se exporta soja brasileira se manda também para fora do país os recursos hídricos empregados. “A pegada hídrica amplia o conceito de água virtual abarcando também os manufaturados”, destaca.

Das métricas que surgem dessa perspectiva é possível se perceber que a dependência de países importadores não é só de alimentos, mas de água também. “E quando falamos desses países não falamos apenas de países pobres e áridos. Falamos também de países da Europa”, aponta a pesquisadora. Para ela, a metodologia ainda possibilita observar o gasto na produção e industrialização como momentos diferentes. “Não é comparar quanto se gasta na produção de algodão e na confecção de uma calça jeans, por exemplo. É levar em conta a produção do bem, o quanto vai durar e o quanto se vai consumir de água para lavar essa calça”.

Da métrica ao consumo

Vanessa entende que a métrica da pegada hídrica acaba proporcionando uma reflexão de cada um sobre o consumo. “Quando você pensa nessa perspectiva, começa a refletir sobre o seu consumo e o quanto realmente precisa”. E nos sentindo provocados a refletir sobre o consumo, somos levados a pensar também em transparência na gestão de mananciais.

Nesse momento é que passamos a olhar para os gestores e percebemos o quão rasas são as informações. Segundo a pesquisadora, levantamento que demonstra o grau de transparência revela, por exemplo, que o estado do Amazonas é o que apresenta menor nível de transparência, que tem menos informações. Já São Paulo e Minas Gerais estão entre os melhores colocados. “Mas não quer dizer que os números são bons. Eles chegam a índices máximos de 60% de transparência”, pondera.

A pegada na metrópole

Como pensar a pegada hídrica na Metrópole? Para entender melhor, Vanessa traz o exemplo da cidade de São Paulo e a crise hídrica. “Quando falamos em água na metrópole falamos das questões físicas de qualidade e distribuição. Assim, olhamos a partir dos sistemas de mananciais que abastecem a cidade”, explica. No entanto, pondera que o mais interessante é pensar nos fluxos invisíveis de água. Na Metrópole, há alimentos e bens de consumo que vêm de fora. “Ou seja, ela não sobrevive apenas com a água de seus mananciais. Dessa forma, começamos a pensar na sua dependência de outras regiões.”

E num estado de crise como a vivida em São Paulo, a questão do consumo se acentua. Nessa metrópole, 59% da água é gasta para abastecimento e tratamento de afluentes. Numa casa, 55% do consumo se esvai pelo chuveiro. Diante da crise, os olhos se voltam para os gestores e para necessidade de saber como e onde estão sendo empregados os recursos hídricos. A constatação de Vanessa é que essas informações nem sempre são ofertadas de forma clara. “As pessoas querem é saber quando chega a água em casa, qual a qualidade, se existe esgoto tratado, quanto deve ser seu consumo e se tem água disponível”, destaca.

Pensar para além dos mananciais

Na perspectiva de Vanessa, crises como a de São Paulo precisam urgentemente ser encaradas de outras formas. Ela explica que os gestores ainda são sempre presos à ideia de uso dos mananciais. Pensa-se muito em formas de explorar ainda mais as reservas – chegando aos tais volumes mortos, que são reservas estratégicas para garantir a qualidade do sistema – e se investe pouco no tratamento de esgoto e em sistemas individuais que possam complementar grandes sistemas. “Estamos num momento em que ou a gente faz diferente ou vamos ter problema ali na frente de novo”.

Outro problema apontado pela pesquisadora é a falta de mobilização maior em torno do tema. Para ela, a discussão não está na agenda do poder público e nem da sociedade. Não há ampla discussão para de fato se repensar os usos da água. O poder público insiste em velhos modelos, e a sociedade, que muitas vezes agrava a crise com o desperdício, se omite e não questiona os caminhos adotados. “Nas manifestações de 2013, por exemplo, a pauta da água não aparecia na agenda”, pontua. Por fim, Vanessa reconhece que os desafios são muitos. Mas todos devem ser encarados a partir de uma postura dos gestores e da sociedade em trazer a discussão hídrica para a agenda, com novas formas e perspectivas de gerenciamento de recursos.

Vanessa Empinotti

Engenheira Agrônoma formada pela Universidade Federal do Paraná, com mestrado em Ciência dos Solos pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e doutorado em Ciência Ambiental pela Colorado University USA. Suas áreas de atuação são recursos hídricos, políticas públicas, gênero e relações entre movimentos sociais e setor privado. Nos últimos 17 anos têm trabalhado com manejo de recursos naturais como pesquisadora e consultora com experiência nacional e internacional. Atualmente é pós-doutora do PROCAM USP, onde trabalha na área de governança da água, pegada hídrica e setor produtivo.

Ecos do evento

Vagner Sinval de Vargas, estudante do 6º semestre do curso de Educação Física da Unisinos.
“É tudo muito contraditório. Se não for usada toda essa água para produzir alimentos, não teremos o que comer. Tudo tem dois lados. Precisamos analisar muito bem os dois lados”.

Alice Seidler, aluna do 7º semestre do curso de Ciências Contábeis da Unisinos.
“A abordagem foi muito interessante. Com essa visão, ficamos atentos, pensando o quanto realmente se precisa de água. A consciência de cada um de nós é fundamental para pensar em consumo”.

Brizabel Rocha, mestre em Serviço Social e ativista da área de segurança alimentar.
“O que ainda preocupa é a poluição por agrotóxicos em nossos mananciais. E tem ainda a extração ilegal de areia dos rios”.

Por João Vitor Santos

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