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29 Abril 2015

"A maestria do toureiro é somente um disfarce ritualístico para a plateia poder realizar o desejo perverso de ver o touro, o toureiro ou outro integrante desse ritual morto. Quanto mais sanguinolento e perverso for o ritual, maior satisfação psíquica recôndita terão os espectadores", escreve Millos Augusto Stringuini [1], biólogo, doutor em Ciências do Meio Ambiente, em artigo publicado por EcoDebate, 28-04-2015.

Eis o artigo.

Introdução

O que destrói o planeta Terra é a psique humana.

Em artigos anteriores, a Metáfora da Salvação e Erigindo Templos à Vida, foi demonstrado que o instinto primitivo de morte, residente na mente humana, gera as diversas formas de Culto à Morte. Esses cultos, através de seus elementos físicos e processos simbólicos, são responsáveis pela indução de uma série muito ampla de comportamentos humanos destrutivos do meio ambiente e de descaso com as demais espécies.

Por onde se anda no planeta é possível encontrar gravados símbolos humanos reverenciais para com a morte.

O atual biocídio vegetal e animal (redução da biodiversidade) provocado pelos humanos, é um fato sem precedentes na história do planeta. Suas origens estão no Culto à Morte, o qual inibe psicologicamente os humanos para o reconhecimento pleno do esplendor da vida.

Sem sombra de dúvida, é o inconsciente humano, através de seus mecanismos metafóricos de pensamento, que destrói desenfreadamente a vida no planeta Terra.

Para demonstrar essa realidade psicológica, esse artigo apresenta uma evidência real do comportamento realizado pelos humanos, originado nos cultos à morte e sua relação destrutiva para com a vida.

O texto apresenta uma abordagem dos aspectos psicanalíticos constatados em uma visita a uma Plaza de Toros, os quais estão relacionados com o culto à morte e maus-tratos com os animais.

Um templo consagrado à morte e ao sadismo.

No dia 15 de março de 2015, em viagem de férias pela Espanha, o autor esteve na cidade de Sevilha, onde uma das principais atrações turísticas é a famosa “Plaza de Toros de Sevilla – Real Maestranza de Caballería de Sevilla”.

Os dados históricos da Praça de Sevilha estão disponíveis na Internet e aqui não são apresentados, visto não ser o objeto desse trabalho.

A visita ao local é realizada sob supervisão de uma guia turística que apresenta a arena, seus dados físicos e históricos, terminando por uma visita ao museu da praça de touros.

Em dias de tourada, cerca de 12.000 espectadores observam as ações de um ou mais toureiros, grupos de picadores e bandarilheiros e pessoal de apoio.

O objetivo único do encontro é ver um ou mais touros sacrificados com requintada crueldade pelo toureiro e seus acompanhantes. Esse objetivo é disfarçado sobre uma pretensa “arte” chamada de tauromaquia. Um ritual de morte, no qual os touros que dele participam não conhecem as regras, estando sozinhos contra um grupo de humanos.

Em síntese, o touro é entronizado na arena sendo de imediato atacado por “bandarilheiros” que espetam nas proximidades da coluna cervical/dorsal do animal pequenas lanças com ponta de aço ou similar com uma bandeirola na ponta, fato que leva o animal a sofrer um processo de sangramento que o debilita fisiologicamente, mas produz irritabilidade. Após certo tempo e sofrimento, um grupo de pessoas montadas a cavalo – picadores – fere o animal com lanças até a entrada do toureiro, visando deixar o animal irritado.

Nesse processo, cavalos são envolvidos, os quais, segundo o relato da guia turística, antigamente não tinham proteção física corpórea e eram mortos por chifradas dos touros. Atualmente, são usadas capas de proteção para evitar a morte dos cavalos.

A entrada do toureiro na arena acontece quando o touro está fisiologicamente enfraquecido pela perda de sangue, mas amplamente irritado pela dor e estresse.

O toureiro para demonstrar sua “maestria em tornar o animal subserviente aos seus comandos” dribla o touro com capa vermelha até o estresse máximo do animal (ajoelha-se perante o toureiro) quando aí é morto por um golpe de espada.

Observando do ponto de vista etológico, o toureiro e seu grupo de apoio realizam procedimentos de abordagem ao touro de forma muito similar aos cães selvagens e chacais. Nos canídeos selvagens, um ou dois se posicionam pela frente com movimentos de ataque, fuga ou desvio. Outros atacam pelas costas ou laterais, fora do campo visual principal da presa.

De forma teatralizada, a tourada também é uma variação do comportamento atávico existente nas caçadas em bando dos índios montados em cavalos selvagens atacando as manadas de búfalos no oeste americano. Os primatas hominídeos caçam em bandos, pois sozinhos seriam presas fáceis de predadores mais aptos.

A existência da tourada nos dias atuais comprova que os processos civilizatórios históricos não produziram transformações inconscientes nesse sentido. Os humanos continuam a agir através de processos atávicos, ou seja, por comportamentos animais. Entretanto, psicologicamente, sempre negam sua condição animal.

Considerações psicanalíticas.

A tourada é um ritual de culto à morte, onde existem duas expectativas (desejos) inconscientes/conscientes dos atores ativos e passivos. A primeira é a morte do touro. A segunda é a morte do toureiro. Em ambas expectativas, os espectadores (passivos) sadicamente almejam por um epílogo de morte; ou morre o touro ou morre o toureiro. Alguém irá morrer na arena.

O desejo sádico da plateia é ver a morte de frente. O sadismo emerge catártico em intervalos de liberação dos padrões morais, tornando menor a culpa dos espectadores por seus desejos e prazeres ligados a morte dos outros. Os cultos reverenciais à morte, relativizam temporariamente os efeitos das interdições psicológicas geradas pelas normas morais e éticas; “não matarás” e “primum non nocere [2]”, atenuando as culpas.

Opressão.

O homem sente-se tentado a satisfazer a sua necessidade de agressão a expensas do próximo, a explorar o trabalho de outrem sem contrapartidas, a utiliza-lo sexualmente sem o seu consentimento, a apropriar-se dos bens dele, a humilha-lo, a infligir-lhe sofrimentos, a martirizá-lo e a matá-lo. Homo homini lúpus: quem teria a coragem, perante todos os ensinamentos da vida e da história, de contestar este adágio? FREUD, S. A Civilização e os Seus Descontentamentos (1930) [3].

Se os homens assim agem contra os de mesma espécie, para com as demais formas de vida muito pouco se pode esperar.

Em relação ao toureiro (ativo), inegavelmente, trata-se de uma personalidade narcisista, a qual para compensar sua desvalia emocional inconsciente, necessita de reconhecimento e poder advindo da plateia e da sociedade contígua. Um exibicionista para remediar sua pequenez interior.

Para sentir-se pessoal e socialmente válido, aceita realizar uma disponibilidade psíquica e fática, por meio do uso de uma estrutura mental psicopática, na qual, deliberadamente e sem culpa, se torna um perverso matador contumaz de touros com o beneplácito da sociedade.

A ambivalência exibicionista do herói assassino.

Por outro lado, a psicologia ensina que os narcisistas patológicos possuem ancoramento inconsciente nas fases, anal (2-3 anos) e fálica (4-5 anos) segundo os estágios do desenvolvimento psicossexual determinados por Freud.

A conduta narcisista (exibicionista) do toureiro é profundamente influenciada por sua infantossexualidade ancorada na fase anal, sendo a espada o símbolo fálico.

Esse comportamento psicopatológico do toureiro, tem suas origens na pulsão de morte primitiva do inconsciente humano. Tudo socialmente aceito para servir às necessidades coletivas e projetivas de expiação temporária das culpas morais e éticas.

A teatralização da matança sem culpa moral, muito provavelmente tem origem na Roma antiga, quando os gladiadores lutavam com leões e outros animais em ambiente cercado (Coliseu e similares). Nessas arenas o processo de maus-tratos aos animais começou a sofrer transformação cultural, passando para a condição socialmente aceita de “arte esportiva” e divertimento do povo.

Pão e circo, no qual a mortífera agressividade humana é realizada sem culpas e aceita como socialmente adequada.

A tourada continua repetindo essa pretensa “arte”. Isso prova que chegamos ao século XXI e não ocorreu evolução significativa no comportamento humano em relação a esses cultos de morte.

Uma fé estranha.

Na praça de touros existe uma capela católica. Igualmente, na cidade de Sevilha existe uma Catedral dedicada à Nossa Senhora da Macarena, a qual é dita como padroeira dos toureiros.

Segundo a guia turística, os toureiros antes de entrar na arena realizam suas orações nessa capela, pedindo proteção a Deus e às santas.

Trata-se de ritual religioso muito estranho, pois não é possível entender como uma entidade santificada faria distinção protetora entre um humano e um animal.

Segundo os rituais de fé, salvo raras exceções, os santos são entes dotados de bondade infinita e combatentes do mal. Somente os demônios praticam e protegem o mal.

Por que iriam os santos abdicarem de sua bondade, para colocá-la ao serviço de um matador contumaz de animais, ou seja, alguém que mata por narcisismo, em nome do sadismo coletivo?

Somente é possível entender essa situação quando se reconhece que a fé é um constructo, para a qual, somente os humanos possuem “alma e seu sopro divino” (anima). Esse mesmo comportamento discriminatório foi usado para os escravos, dos quais era dito que não possuíam alma. A alma é algo que somente aparecia para os brancos e, vias de regra, ricos, poderosos, mas tementes a Deus.

Lógica similar encontra-se nos rituais religiosos com sacrifício de animais, ou seja, as entidades santificadas dos humanos, excetuando-se São Francisco de Assis, protetor dos animais, desconsideram o valor da vida de plantas e animais. O que não é humano não possui valia para a fé.

Analisando o “matador”, do ponto de vista psicanalítico, se vê que o mesmo procura proteção na fé por ter medo do animal, antevendo que esse poderá lhe ocasionar a morte. Se tem medo, porque insiste em dar vazão ao seu narcisismo e busca de notoriedade social através desses atos?

A resposta a essa pergunta está no fato de que o culto à morte é praticado pelo toureiro de forma real e imaginária em interconectividade e interatividade. Ele se sente poderoso; heroico e busca o poder a qualquer risco. Uma luta psíquica constante contra sua secreta desvalia emocional.

As mães são sempre culpadas.

Existe nesse templo à morte um museu, onde diversas cabeças de touros estão taxidermizadas, fotos, vestimentas de toureiros e outros acessórios estão expostos.

Uma das cabeças taxidermizadas é de uma vaca. A guia apresenta aos visitantes essa cabeça como se fosse uma grande curiosidade. Por que está exposta uma cabeça de vaca, se os toureiros só executam touros?

Em verdade ninguém consegue distinguir o sexo desse animal somente olhando a cabeça taxidermizada. Se a guia não falar sobre o assunto essa cabeça passaria despercebida pelos visitantes.

Ocorre que o famoso toureiro Manolete foi morto por um touro de nome Islero, ou seja, filho da vaca Islera. A cabeça exposta é da vaca Islera. Ela foi morta por ter “cometido o erro” de gerar um touro feroz que matou um toureiro muito amado pelo povo. A morte de Manolete tinha que ser vingada!

Quando um touro mata um toureiro, nesse jogo de morte com cartas marcadas, os humanos se vingam na mãe do touro e a matam também.

A justificativa para matar a vaca é de uma ignorância científica única. Reside na alegação de que a ferocidade de um touro se transmite geneticamente e, assim, matando a vaca não haverá procriação de outros touros tão ferozes. Desconsideram a participação genética do sêmen do touro que fecundou a vaca. Pensamento ignorante, sexista e machista aplicado aos animais. 

Questionada a guia turística de que esse comportamento era eticamente similar a sacrificar a mãe dos assassinos humanos, a mesma respondeu que era diferente, pois, afinal, estamos tratando de animais. Para ela, animais não tem valor existencial.

Nas sociedades humanas, as mães são sempre socialmente acusadas pelos atos negativos dos filhos.

Paradoxalmente, existe um movimento na Europa que atinge a Espanha no sentido de “desescravatura” dos animais de circo, ou seja, os circos são interpelados legalmente para abandonarem o uso de animais em seus espetáculos.

Trata-se de ato social baseado no fato de que os Direitos dos Animais estão estabelecidos desde 1978 através da Declaração Universal dos Direitos dos Animais, aprovada pela organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) e pela Organização das Nações Unidas (ONU).

Na Declaração Universal dos Direitos do Animais está escrito:

– Artigo 2º: “todo o animal tem o direito de ser respeitado”.

– Artigo 10º alíneas a) e b): “Nenhum animal deve ser explorado para entretenimento do homem.” e “As exibições de animais e os espetáculos que se sirvam de animais, são incompatíveis com a dignidade do animal.”,

Artigos 11º e 13º: “todo o ato que implique a morte de um animal, sem necessidade, é um biocídio, ou seja, um crime contra a vida.”

Surgem os questionamentos: O que é então uma tourada? Espetáculo ou Culto à Morte? É o touro um animal escravo ou não?

Conclusões.

Inegavelmente uma tourada é uma das múltiplas formas encontradas pelos humanos de realizar o Culto à Morte.

Nesse culto, a ambivalência perversa da psique humana se apresenta de forma explícita e os espectadores anseiam e desejam ver a morte.

A maestria do toureiro é somente um disfarce ritualístico para a plateia poder realizar o desejo perverso de ver o touro, o toureiro ou outro integrante desse ritual morto. Quanto mais sanguinolento e perverso for o ritual, maior satisfação psíquica recôndita terão os espectadores.

Por sua vez, o toureiro, psicanaliticamente, nada mais é do que um pobre tipo que não soube encontrar caminhos melhores para realização pessoal na vida. Sua baixa estima o vetora para a busca de afeto no seio de uma plateia que agressivamente clama por perversidade contra um desprotegido animal.

Por último, as infelizes vacas serão sempre as culpadas por terem gerado touros que lutam bravamente por sua sobrevivência e vencem seus algozes. Culpar as vacas é hipocritamente ignorar que os humanos, historicamente, realizam melhoramento genético de touros Miura para incrementar a ferocidade desses animais. Uma vingança criada pela ambivalência do binômio psíquico – prazer culpa – originaria na perversidade surgida do relaxamento das interdições morais. 

Restam as perguntas: Por que a humanidade ainda hoje prefere o Culto à Morte em detrimento ao Culto à Vida? Ignorância ou Insanidade?

[1] Biólogo, Doutor em Ciências do Meio Ambiente; Conselheiro Coordenador da CMA – Comissão de Meio ambiente do CRBio – 03.

[2] Tradução livre: Antes de mais nada, não prejudicar.

[3] Extraída do livro Citações e Pensamentos de Sigmund Freud, Organização de Paulo Neves da Silva; 1ª Edição, Janeiro de 2012; Ed. Casa das Letras – Oficina do Livro – Sociedade Editorial, Ltda.; Portugal.

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