Na Índia, um excelente roteiro para a igualdade de gênero

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28 Abril 2015

Num artigo que publiquei em 12 de março, prometi revisitar a política criativa de gênero aprovada pela Conferência dos Bispos Católicos da Índia – CBCI. O documento aprovado pelos bispos tem o objetivo ambicioso de integrar a justiça de gênero junto às estruturas societais em todos os níveis da Igreja Católica no país, desde o nível paroquial à própria conferência episcopal. Um objetivo importante no documento é “estimular a reflexão na Igreja sobre a sua missão de formar um discipulado de iguais”, com o “objetivo ulterior sendo o de alcançar a igualdade de gênero”.

No texto, os bispos citam o Gênesis 1,27 (“Deus criou o homem à sua imagem; criou-o à imagem de Deus, criou o homem e a mulher”); Gálatas 3,28 (“Já não há judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, pois todos vós sois um em Cristo Jesus”); e Gaudium et Spes (“Mas deve superar-se e eliminar-se, como contrária à vontade de Deus, qualquer forma social ou cultural de discriminação”).

Eu recentemente entrevistei uma das arquitetas do documento sobre a política de gênero, a doutora Astrid Lobo Gajiwala, cientista indiana, teóloga, escritora e mãe de três filhos. Nos últimos 25 anos ela tem vivido o seu compromisso cristão numa família inter-religiosa.

A entrevista é da irmã Christine Schenk, publicada no sítio National Catholic Reporter, 23-04-2015. A tradução de Isaque Gomes Correa.

Eis a entrevista.

Como a senhora acabou se envolvendo no processo de desenvolvimento deste documento episcopal, que trata da política de gênero?

Eu me envolvi depois que pediram a Dom Bosco Penha, de Mumbai, para apresentar um trabalho sobre a situação das mulheres na assembleia plenária da Conferência dos Bispos Católicos da ÍndiaCBCI. Ele decidiu que seria mais apropriado que uma mulher realizasse a tarefa, e me convidou para falar em seu lugar. Eu aceitei e rompi o silêncio sobre a violência contra as mulheres. Como resultado, os bispos instituíram uma secretaria para as mulheres presidida por uma secretária, a primeira da história: a Irmã Cleopatra, que também era a presidente da seção para as mulheres da Conferência dos Religiosos da Índia. Fui nomeada como consultora e continuo trabalhando com isso há 23 anos. Em 1996, graças aos esforços de Dom Bosco Penha, esta secretaria se transformou na Comissão para as Mulheres.

A assembleia plenária de 2008 dos bispos indianos se focou, novamente, sobre a questão das mulheres, mas desta vez no empoderamento delas em especial. Fui uma das principais oradoras do evento. Estive também no comitê organizador sob a liderança da Irmã Lilly Francis, então secretária da Comissão para as Mulheres. Realizamos encontros no nível das bases durante o ano que antecedeu a assembleia, pedindo às mulheres que identificassem as principais preocupações e o que elas gostariam de ver na pauta dos bispos. Nós também realizados uma consulta. Graças à Irmã Lilly, houve 40 mulheres convidadas para esta assembleia, a primeira na história da CBCI. (…) Uma das recomendações era produzir uma política de gênero no período de um ano.

Confiou-se à Comissão para as Mulheres a tarefa de elaborar esta política. A Irmã Lilly teve plena liberdade para compor o comitê de elaboração. Ela me convidou para fazer parte do grupo. Levamos mais de um ano pesquisando, fazendo reuniões, mandando emails, consultando as secretarias regionais, escrevendo, reescrevendo e criando estratégias de como nos mover na corda bamba entre ser verdadeiras para com as mulheres que representamos e, ao mesmo tempo, sermos aceitas pelos bispos. A produção que daí resultou é o documento dos bispos.

Os bispos leram o nosso projeto e o revisaram. A necessidade de uma linguagem inclusiva e de articulação da espiritualidade feminina foi substituída por “articular e expressar o Gênio Feminino”. Uma representação “igual” nas paróquias, nos conselhos diocesanos e nas comissões foi alterado para representação “adequada”. Mas, na maior parte dos casos, os bispos respeitaram a proposta que apresentamos. E, o que é mais importante, não alteraram a visão, a missão, os objetivos e os princípios orientadores das mulheres. Para mim, estes elementos formam o cerne da política, aberta à interpretação criativa. Ele não é um documento perfeito, mas é um bom começo.

A senhora já viu alguns sinais de que esta política de gênero tem feito a diferença?

A primeira coisa que eu gostaria de dizer é que, como qualquer lei, esta política de gênero é uma demonstração visível da vontade dos bispos. Isso é importante, pois ela dá responsabilidades a eles. Ao mesmo tempo, ela oferece aos fiéis uma base para a mudança.

Eu venho da Arquidiocese de Mumbai, e posso dizer – de forma bastante incisiva – que a política de gênero tem feito a diferença. Um dos princípios importantes articulados era o de que a igualdade de gênero é uma questão transversal, e não meramente uma preocupação feminina. É uma questão de direitos humanos e um imperativo evangélico, e portanto deve envolver todos os homens e mulheres, comissões e comunidades, instituições e organizações. Dom John Thakur, que na época era o presidente da Comissão para as Mulheres, ressalta este elemento em sua introdução ao documento.

Em 2012, depois do horrível estupro em Déli, a Arquidiocese de Mumbai se reuniu para abordar o assunto. A Comissão para as Mulheres arquidiocesana, sob a liderança de Marcia D’Cunha, encabeçou a campanha. Eu sugeri que esta fosse chamada de Campanha das 37 Milhões de Diyas (lâmpadas) para chamar a atenção às mulheres desaparecidas da Índia. Todas as comissões trabalharam em conjunto. Os recursos da diocese ficaram disponíveis para isso, em particular para a produção de materiais de divulgação. O Conselho de Educação colaborou junto a uma organização não governamental, Avehi Abacus, para introduzir um programa de sensibilização à questão de gênero entre alunos de escolas de ensino médio.

Durante os últimos dois anos, a arquidiocese vem comemorando o Dia Internacional da Mulher com as demais comissões, as quais normalmente são presididas por sacerdotes. Os homens também fazem parte das comemorações, e não apenas como espectadores, mas como participantes. A mensagem da igualdade de gênero está, cada vez mais, se espalhando pelo país.

Esta política de gênero também defende a educação da sensibilidade ao gênero para a mudança de mentalidade. A arquidiocese apoia esta iniciativa de várias formas. Há dois anos, [a arquidiocese] começou um programa de sensibilidade ao gênero destinado a seminaristas coordenado pela Comissão para as Mulheres. Faço parte deste esforço, realizando uma sessão sobre como as estruturas e políticas eclesiais fazem com que as mulheres precisem “negociar” parcerias na Igreja e em outras relações de gênero nela. Aqui enfatizo a educação para a prevenção de abusos sexuais por parte do clero. Somos uma equipe mista, composta de mulheres e sacerdotes. A resposta tem sido boa. Neste ano iremos realizar o curso novamente. É claro que somente conheceremos os frutos quando estes seminaristas começarem a trabalhar como pastores nas paróquias.

Em outros seminários, há professoras de teologia. Conheço algumas delas pessoalmente, e tenho certeza de que elas trazem uma perspectiva feminista. Entendo também que a teologia feminista está sendo ensinada. A Comissão para as Mulheres, da Arquidiocese de Mumbai, tem igualmente cursos especiais certificados para mulheres oferecidos em colaboração com a Sophia College, uma renomada faculdade feminina católica local. Os assuntos vão desde o exame sobre os estereótipos de gênero até a leitura da Bíblia com o olhar das mulheres.

Mais recentemente, um grupo de mulheres e homens, incluindo alguns sacerdotes, em nível nacional, preocupados com as histórias de abuso sexual que invadiram a imprensa ocidental, mas também com aquelas que ouvimos na Índia por detrás de portas fechadas, montou uma política de prevenção, proteção e reparação a abusos sexuais contra as mulheres na Igreja.

Visto que a política de gênero defende a tolerância zero de violência contra a mulher na sociedade e na Igreja e recomenda a criação de estruturas institucionais para [ajudar em sua implementação], nós oferecemos aquela proposta à CBCI em 2013. Tínhamos a esperança de que ela fosse compor a pauta da assembleia plenária dos bispos em 2014. Infelizmente, isso não aconteceu. Nós ainda estamos esperando a decisão dos bispos. No evento Voices of Faith, tive a oportunidade de falar a Dom Anil Coutto, que faz parte da comissão permanente do CBCI, e ele prometeu levar adiante a proposta.

Nesse ínterim, o Cardeal Oswald Gracias, numa reunião em Mumbai no mês passado, prometeu colocar a proposta de política de gênero em discussão, pelo menos em sua diocese, Mumbai.
Então, sim, a política de gênero está chegando viva. Mas muito ainda depende da disposição e capacidade das pessoas de cobrarem dos bispos por ela.

***

A doutora Astrid Lobo Gajiwala, a Irmã Lilly Frances, Marcia D’Cunha, a Comissão para as Mulheres da CBCI e os bispos indianos devem receber os parabéns por desenvolverem um roteiro verdadeiramente notável para a criação da igualdade de gênero em nossa Igreja e sociedade.

Agora, devemos desafiar a Igreja universal, incluindo o Vaticano e as conferências episcopais de todo o mundo, a fazerem o mesmo. As mulheres devem escrever uma primeira proposta e ter presença significativa na configuração de todos os documentos finais.

Enquanto isso, educar seminaristas, diáconos e ministros pastorais para a sensibilização à questão do gênero me parece algo tanto essencial quanto passível de ser feito imediatamente. Os nossos seminários e programas de ministério pastoral deveriam exigir créditos em estudos bíblicos e teológicos feministas. Isso aumentaria significativamente a valorização da prática inclusiva da Igreja primitiva e do nosso “Deus, Além de Todos os Nomes”.

Talvez então nós nos transformemos, de fato, naquele “discipulado de iguais” primeiramente imaginado por Jesus.

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