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Por: Jonas | 17 Abril 2015

“Convidamos os bispos que concluem a 109ª Assembleia Plenária da Conferência Episcopal do Chile para que deem passos audaciosos, predispostos a reconstruir nossa Igreja chilena que hoje se encontra seriamente desacreditada, assumindo o desafio de uma urgente renovação sacerdotal e episcopal, para que pela graça do Espírito de Deus se livrem de desconfianças, de medos e de temores, para que sejam homens com ousadia profética, “de bagagem leve”, abertos aos sinais dos tempos, atentos ao “sentir dos fiéis”, misericordiosos e acolhedores, respeitosos da liberdade de consciência de homens e mulheres, mais pastores do que senhores, mais compreensivos, em resumo, bons pastores com “cheiro de ovelha”, apela o editorial da Revista Reflexión y Liberación, 14-04-2015. A tradução é do Cepat.

Eis o editorial.

Como em ocasiões anteriores, os bispos se reúnem para contemplar a realidade social, política e eclesial de nosso país, assim como para atender a agenda pastoral da Igreja. Trata-se de uma experiência colegiada que sempre desperta expectativas entre o povo de Deus.

Nesta ocasião, a realidade nacional se encontra abalada pela contingência, na qual escândalos econômicos, políticos e eclesiais minaram a confiança cidadã a níveis inéditos em tempos de democracia. É impossível não enxergar nisto eloquentes sinais dos tempos.

Importantes instituições permanentes da nação caíram no descrédito, entre elas grandes empresas, instituições, partidos políticos e a Igreja compartilham uma severa perda de confiança entre os chilenos. Por trás delas, os cidadãos percebem principalmente empresários, políticos e bispos.

A punição para estas instituições radica na contradição que revelam em sua atuação social, no que diz respeito ao seu dever moral. Se o dever social lhes impõe a obrigação de ser canais privilegiados para a realização do bem comum, em sua atuação pública manifestam o poder que possuem, orientando-o a servir seus próprios interesses. Assim, deixam em evidência como a corrupção do poder desvirtua o serviço.

A Igreja, diferente de outras instituições, expressa de maneira mais contundente as contradições de seu atuar, precisamente porque ela é chamada a ser uma referência moral. Dela, os cidadãos esperam coerência com o Evangelho, sendo este a medida das próprias contradições, porque “a mesma medida que vocês usarem para os demais, será usada para vocês” Mt 7,2.

Em poucos meses, registrou-se uma grande quantidade de escândalos eclesiais que a sociedade e os próprios fiéis não toleram. O autoritarismo expressado na falta de liberdade do clero para opinar, falta de liberdade dos teólogos para ensinar, investigações canônicas secretas, acusações anônimas, sanções injustificadas, falta de escuta pastoral e imposição de bispos e párocos, entre outras expressões, são fatos que na sociedade atual não são aceitáveis. Em igual contexto, o abuso de menores e seu amparo são julgados com a maior severidade social.

O entorno cultural, caracterizado por cidadãos mais preparados e melhor informados, coloca em contradição certas práticas pastorais que são próprias de uma cristandade já superada. Valores como o respeito à liberdade individual e a diversidade cultural, o imperativo da transparência e da coerência, o desejo de participação e de comunhão real, entre outros, advertem sobre a necessidade de uma urgente e profunda renovação do ministério sacerdotal e episcopal.

Consequentemente, dos pastores se espera serviço, respeito à consciência alheia, coerência evangélica, acolhida real à participação dos leigos na vida da Igreja, gestos concretos de misericórdia com todos. Em resumo, espera-se uma convergência efetiva para o espírito do Concílio Vaticano II.

Neste contexto, os problemas que as famílias enfrentam atualmente não parecem ser compreendidos devidamente por certa hierarquia que, em pleno século XXI, continua empenhada em expressar um magistério moralizante, que se torna estéril para a consciência da maioria dos fiéis. Esgota-se, assim, a voz dos pastores em questões onde o laicato compreende que a voz da consciência individual é o eixo que rege a conduta cristã. O império da consciência individual se tornou um alentador sinal dos tempos, fruto inegável do concílio. No entanto, não é suficientemente valorizado pela hierarquia da Igreja.

Quando no país começa a se discutir um projeto de lei que despenaliza o aborto – sob condições de estupro, de risco de vida para a mãe e de inviabilidade do feto – é necessário destacar que é indevido participar do diálogo social se considerando os defensores da vida, como se aqueles que são a favor de tal projeto fossem inimigos dela. Atitudes assim não favorecem as condições que garantem um diálogo fecundo.

Cabe questionar, com humildade e honestidade, se quando a Igreja atuou imperativamente no terreno da moral sexual, fechando as portas para o uso dos meios anticonceptivos, ou quando se opôs à implementação de alguns programas de educação sexual em colégios e liceus, ou quando rejeitou o uso da “pílula do dia seguinte”, em casos de estupro, não acabou empurrando, de certo modo, muitas mulheres para o brutal dilema de abortar em condições de gestação avançada.

A vida é o bem mais precioso na sociedade, cujo cuidado merece ser assumido integralmente em todas suas etapas, incluindo também o pagamento de salários justos; a superação da precariedade social; pagando devidamente os impostos para financiar programas sociais; oferecendo condições de saúde, educação e bem-estar social para todos os cidadãos, especialmente aos mais pobres; respeitando os direitos dos trabalhadores; dignificando e integrando social e politicamente os povos originários; respeitando as minorias sexuais; bem como cuidando dos bens naturais e não os espoliando para o benefício de uns poucos.

Por isso, convidamos os bispos que concluem a 109ª Assembleia Plenária da Conferência Episcopal do Chile para que deem passos audaciosos, predispostos a reconstruir nossa Igreja chilena que hoje se encontra seriamente desacreditada, assumindo o desafio de uma urgente renovação sacerdotal e episcopal, para que pela graça do Espírito de Deus se livrem de desconfianças, de medos e de temores, para que sejam homens com ousadia profética, “de bagagem leve”, abertos aos sinais dos tempos, atentos ao “sentir dos fiéis”, misericordiosos e acolhedores, respeitosos da liberdade de consciência de homens e mulheres, mais pastores do que senhores, mais compreensivos, em resumo, bons pastores com “cheiro de ovelha”.

Só assim, com a condução de bons pastores é que poderemos reconhecer juntos que “é melhor se refugiar no Senhor do que confiar nos homens; é melhor se refugiar no Senhor do que confiar nos poderosos” Sl 118 (117), 8-9.

Conselho Editorial da Revista Reflexión y Liberación

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