Os padres de Bergoglio, pastores globais sem clericalismo e carreirismo

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09 Abril 2015

Chega de padres doentes de clericalismo, de funcionários, aqueles apegados ao dinheiro, de padres que maltratam as pessoas. Ao contrário, que se dê espaço aos sacerdotes que sabem estar no meio das pessoas, do seu rebanho, perto das famílias, de quem sofre, de quem precisa de ajuda; espaço para os educadores, para aqueles que sabem "se sujar" com a realidade e são capazes de compartilhar com os outros e colaborar entre si.

A reportagem é de Francesco Peloso, publicada no sítio Vatican Tabloid, 06-04-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Existe um modelo de padre que, há muito tempo, o Papa Francisco está propondo para a Igreja. Ele fez isso durante muitos discursos "informais", durante as famosas homilias matinais das missas celebradas em Santa Marta e através de mensagens oficiais como a que foi destinada à Conferência Episcopal Italiana em novembro passado.

Francisco vê de perto a crise das vocações que afeta há muito tempo, em primeiro lugar, o Ocidente, ou seja, a parte do mundo em que a tradição cristã tem raízes antigas. E nessa área do mundo a Europa é o continente onde o afastamento da fé e da batina é sentido de modo particularmente evidente.

Assim, o bispo de Roma está tentando dar uma resposta à crise profunda da fé, conjugando uma ideia de Igreja popular e não barroca com o perfil do pastor que deve anunciar o Evangelho neste tempo.

Assim, se a Igreja deve se transformar em um hospital de campanha, em um lugar em que se acolhe e não se rejeita o "ferido" com base em algum artigo do catecismo aplicado secamente e sem olhar para a pessoa, se a Igreja deve deixar de funcionar como uma alfândega em que se deve ter todos os documentos em ordem para entrar, o sacerdote que está em contato com a comunidade dos fiéis deverá, em primeiro lugar, estar no meio do seu povo.

"Não servem padres clericais, cujo comportamento corre o risco de afastar as pessoas do Senhor, nem padres funcionários, que, enquanto desempenham um papel, buscam longe d'Ele a própria consolação." O Papa Francisco deixou isso claro na mensagem dirigida à CEI em novembro de 2014.

Palavras claras que talvez perturbaram uma Igreja um pouco curvada sobre si mesma e que se depara, com crescente dificuldade, com uma sociedade em constante mudança.

Na ocasião, o papa também chamava a atenção dos bispos. Entre as suas tarefas – repetiu ele várias vezes – há também o de estarem perto dos sacerdotes que, na vanguarda, mantêm viva a viva. Quantos deles, explicava Francisco, "com o seu testemunho, contribuíram para nos atrair a uma vida de consagração".

"Nós os vimos gastarem a vida entre as pessoas das nossas paróquias – afirmava o papa –, educando os jovens, acompanhando as famílias, visitando os doentes em casa e no hospital, cuidando dos pobres, na consciência de que 'separar-se para não se sujar com os outros é a maior sujeira'", observou ainda, citando o grande escritor russo Tolstoi.

Mas, se essa é a tarefa nada fácil dos padres, a fraqueza, a queda pode atingi-los ao longo do caminho. Então, é tarefa dos bispos, das Conferências Episcopais recorrer a instrumentos de formação permanente, a verificações periódicas, tentando captar os elementos de cansaço e de solidão que podem marcar a vida de um padre.

Em suma, é um olhar realista voltado pelo pontífice para a condição sacerdotal, fundamentado na consciência de que a escolha de ser padre hoje vai contra a sensibilidade e a cultura dominantes.

Aliás, os números são claros. De 2002 a 2012, a última década para a qual existem dados disponíveis, o número de sacerdotes esteve em queda constante (cerca de 5 mil a menos só na Itália; freis e freiras registram, em todos os lugares, nos países ocidentais, uma contração que parece irrefreável).

Restam mais de 30 mil sacerdotes diocesanos na Itália, mas sobre esses números incide a presença do Vaticano e das inúmeras instituições ligadas a ele (sem contar a idade média superior aos 60 anos).

As novas ordenações, além disso, caem em todo o Velho Continente. Na Itália são agora pouco mais de 300 por ano (em alguns Estados, poucas dezenas). Mas também é preciso ver quanto tempo elas duram. O crescimento ocorre em outros lugares, na África e, em particular, na Ásia, onde florescem Igrejas jovens, mas os católicos são muitas vezes uma minoria.

Mas nem por isso é preciso alargar as malhas dos seminários, ao contrário, o risco é de deixar entrar pessoas não aptas, que têm problemas de relacionamento ou de socialização. O escândalo dos abusos infantis também é filho dessas políticas superficiais.

O Papa Francisco lembrava disso em outubro 2014: "Por favor – era o convite lançado pelo pontífice aos bispos –, é preciso estudar bem o percurso de uma vocação! Examinar bem se aquele homem é sadio, se aquele homem é equilibrado, se aquele homem é capaz de dar vida, de evangelizar, se aquele homem é capaz de formar uma família e renunciar a isso para seguir a Jesus".

Muitos problemas em inúmeras dioceses, acrescentava o papa, surgem porque os bispos acolheram as pessoas que, depois, são expulsas dos seminários e das casas religiosas. Por um lado, havia o problema dos abusos e, por outro, o das vocações incompletas, feitas por pessoas que depois voltavam a uma vida como leigos.

Tornar-se padre, portanto, segundo a abordagem de Bergoglio, não é uma profissão. O padre não deve ser um organizador nem o chefe de uma ONG. A sua missão se realiza, sim, através de instrumentos sociais ou de caridade, mas na ótica forte do Evangelho, de uma fé que orienta profeticamente todo o povo de Deus, incluindo os pastores.

Assim, a adesão à palavra de Jesus, a sua proximidade aos últimos, aos pobres, deve ser tornar central na vida do sacerdote, que também é feita de espiritualidade, de oração.

Mas Francisco, nos últimos meses, tocou também outro ponto clássico de crise da vida sacerdotal, o da relação com o dinheiro. O papa denunciou publicamente aqueles padres que pedem dinheiro em troca dos sacramentos, de um casamento, de um batismo e assim por diante.

"Quantas vezes – disse ele – vemos que, ao entrar em uma igreja, ainda hoje, há ali a lista dos preços para o batismo, a bênção, as intenções para a missa... E o povo se escandaliza", porque, nessas formas, cumpre-se "o escândalo do comércio, da mundanidade".

Portanto, tomando um elemento extremo de verdade na relação entre os fiéis e a Igreja, Bergoglio afirmava: "O povo de Deus sabe perdoar os seus padres quando eles têm uma fraqueza, quando deslizam em um pecado. Mas há duas coisas que o povo de Deus não pode perdoar: um padre apegado ao dinheiro e um padre que maltrata as pessoas!".

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