A liberdade para além do valor de troca massificado

Revista ihu on-line

Caetano Veloso. Arte, política e poética da diversidade

Edição: 549

Leia mais

Mulheres na pandemia. A complexa teia de desigualdades e o desafio de sobreviver ao caos

Edição: 548

Leia mais

Clarice Lispector. Uma literatura encravada na mística

Edição: 547

Leia mais

Mais Lidos

  • “Vexame mundial” – Frases do dia

    LER MAIS
  • “A liberdade nos assusta”. Íntegra da conversa do Papa Francisco com os jesuítas eslovacos

    LER MAIS
  • No pós-Bolsonaro, enfrentar o neoliberalismo. Entrevista com Marilena Chaui

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


08 Abril 2015

Para Giuseppe Cocco estamos diante de um enigma com relação a um tipo de representação que não funciona mais

             Giuseppe Cocco (dir) - Fotos: Ricardo Machado/IHU
“Nessa revolta contra o sistema fabril temos uma reafirmação da vida, uma reafirmação da liberdade, para além do valor de troca massificado, esses movimentos colocam a metrópole no cerne das questões de nosso tempo”, provoca o professor e pesquisador Giuseppe Cocco, durante a conferência Da fábrica à metrópole: resistências e governamento da vida, realizada na noite da segunda-feira, 06-04-2015. Durante a apresentação, diante de um público de mais de 200 pessoas, no Auditório Central da Unisinos, Cocco estabeleceu reflexões sobre um novo contexto social e político das sociedades pós-industriais.

O evento integra a programação do Ciclo de Estudos Metrópoles, Políticas Públicas e Tecnologias de Governo. Territórios, governamento da vida e o comum, que segue com programação até junho de 2015.

Trabalho e metrópole

Giuseppe Cocco começou sua apresentação explicando que aquilo que entendemos como trabalho se transforma quando passamos da fábrica à metrópole e que isso movimenta duas tendências que se entrecruzam. “No primeiro momento, a partir da década de 1960, ocorre a revolta com o processo fabril, isto é, com a organização disciplinar e funcionalista do tempo. Há, em outra perspectiva, uma revolução, uma reorganização do capital em termos globais, que levou à globalização mais recente. A ideia é pensar na transposição de um regime de acumulação industrial para um regime pós-industrial”, explica.

Lefebvre e o direito à cidade

Henri Lefebvre foi lembrado pelo conferencista como um pensador que já na década de 1960 já pensou nas questões de fundo das cidades. “As lutas das décadas de 1960 e 1970 tinha como horizonte o direito à cidade, são lutas contra o trabalho taylorista e contra uma ordem do trabalho fabril”, aponta. “São lutas que não dizem respeito a uma utopia revolucionária, mas que atravessam todo o sistema da vida, que criticam a separação da esfera da produção e da reprodução, pois sustentam que havia uma forma de 'agir fabril' mesmo quando se estava fora da fábrica”, complementa.

Isso tudo implica em uma revolta do sistema fabril que implicará em uma reafirmação da revolta social contra tal sistema, buscando uma efetiva liberdade para além do valor de troca massificado. “São esses movimentos que colocam a metrópole no centro político de nossas sociedades. A reorganização das lutas contra a ordem fabril, em 1973, desencadeia uma reformulação capitalista que só aparece como retórica, como um regime discursivo que o integra o termo da revolução”, esclarece o professor.

1973

A propósito, o ano de 1973 é marcado por movimentações políticas decisivas para o capitalismo que vivenciamos atualmente, pois é neste período em que há a falência da cidade de Nova Iorque, começam as relações diplomáticas entre Estados Unidos e China e também é quando o FMI ratifica a decisão de desindexar o dólar do ouro, o que resultou, em outras coisas, nas moedas de taxa cambiante de âmbito global.

Foucault e Deleuze

O professor chamou atenção para dois autores que são caros à compreensão de nossas sociedades: Michel Foucault e Gilles Deleuze. “Podemos definir a passagem da sociedade disciplinar para a sociedade do controle. Na sociedade disciplinar há a fábrica e, portanto, a individualidade do corpo a partir da divisão do trabalho. Enquanto na sociedade do controle não tem mais o corpo do indivíduo, mas o corpo da população”, ressalta. “Quando passamos às metrópoles o que interessa é a circulação, não mais a partir de um governo, mas das condições de governabilidade”, pondera.

Sociedade do pólen

Yann Moulier-Boutang, economista e político francês que participou do Maio de 1968, foi lembrado por Cocco, que explicou as metrópoles a partir da metáfora das colmeias. “Nas colmeias a atividade fundamental é a produção de mel. O excedente de mel é utilizado pelo agricultor para gerar renda. Porém, todos sabem que as abelhas tem que ir de flor em flor para fazer o mel. No fundo, a atividade de ir de flor em flor é mais importante que produzir o mel, porque é desse nível de polinização que depende a produção como um todo”, analisa Cocco.

“Na polinização não tem tempo de vida, nem de trabalho. Não há uma determinação clara do tempo de trabalho. Porém só recebemos quando conseguimos produzir mel. O problema é que o trabalho assalariado é cada vez mais precário. Ou seja, o trabalho hoje passa por uma transformação radical e se torna cada vez mais imaterial – é linguístico, interpretativo –, ainda que isto não implica dizer que não existe trabalho industrial e trabalho material”, frisa.

1929 e 2008

Ao pensar os desafios do mundo do trabalho na metrópole, Cocco argumenta que no mundo da empregabilidade, do trabalho precário, “o melhor emprego é aquele que não acontece”. “Em 1929 os operários da Ford não tinham os salários reais para comprar os carros que eles produziam. Daí se originou uma crise não por falta de riqueza, mas por excesso, cuja 'solução' foi a guerra. Em 2008, no cerne do capitalismo contemporâneo, com trabalhadores precários – jovens, imgrantes –, era necessário uma boa conexão, comunicabilidade, mas o problema é que nem todos têm dinheiro para pagar essas coisas”, descreve. A questão, considera o professor, é que atualmente “não temos mais uma relação salarial, mas de débito e crédito, que não é só financeiro, mas também subjetivo”.

O fracasso do modelo neodesenvolvimentista

Retomando o debate de Junho de 2013, o que se apresenta em termos mais consistentes é o fracasso do modelo neodesenvolvimentista. “Nós temos uma antecipação da revolta do trabalho metropolitano. Aqui, no Brasil, o movimento de Junho de 2013 começou pelo transporte. Hoje o reencontramos nos protestos contra a guerra no Rio de Janeiro. As Unidades de Polícia Pacificadora – UPPS são uma milícia do capitalismo cognitivo, cuja única coisa que trazem é a cobrança de serviços que antes não eram pagos porque tinha acordos com quem mandava na região”, relata. “Estamos nesta passagem da fabrica à metrópole com essa linha da potência. Além disso, há um enigma de uma forma de representação que não funciona mais, ao contrário, leva todo mundo para o buraco”, finaliza.

Giuseppe Cocco

Graduado em Ciência Política pela Université de Paris VIII e pela Università degli Studi di Padova, Cocco é mestre em Ciência, Tecnologia e Sociedade pelo Conservatoire National des Arts et Métiers e em História Social pela Université de Paris I (Panthéon-Sorbonne). É doutor em História Social pela Université de Paris I (Panthéon-Sorbonne). Atualmente é professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ e editor das revistas Global Brasil, Lugar Comum e Multitudes. O último livro publicado é KorpoBraz: por uma Política dos Corpos (Mauad, 2014).

 

 

Por Ricardo Machado

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

A liberdade para além do valor de troca massificado - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV