O futuro da Igreja Católica com o Papa Francisco

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20 Março 2015

O livro The Future of the Catholic Church with Pope Francis [O Futuro da Igreja Católica com o Papa Francisco] (Viking Penguin) de Garry Wills, escritor, doutor pela Universidade de Yale e ganhador do prêmio Pulitzer, é um estudo das mudanças da Igreja ao longo dos séculos.

A resenha é de William L. Portier, publicada por Commonweal, 05-03-2015. A tradução é de Claudia Sbardelotto.

Eis o texto.

"Ainda temos que aprender todo o bem trazido pelo Concílio Vaticano II", Garry Wills observou em 1972, "e todos os danos". Comparando "a ruína de Roma", após o Concílio à "queda de um mundo - a quebra de uma coisa inquebrável", Wills parafraseou D. H. Lawrence sobre sexo e descreveu o Concílio como tendo "soltado o segredinho sujo ... esse das mudanças da Igreja".

Com essas reflexões começa Bare Ruined Choirs, um conjunto impressionante de artigos que Wills escreveu enquanto as esperanças dos anos de 1960 eram drenadas pela década sombria que se seguiu. Quatro décadas depois, aos oitenta anos de idade, Wills ainda está escrevendo sobre o que os católicos costumavam chamar de "mudanças na Igreja". The Future of the Catholic Church with Pope Francis [O Futuro da Igreja Católica com o Papa Francisco] é um estudo tanto de tais mudanças quanto da própria mudança como "meio de respiração" da Igreja. Wills inicia a jornada "olhando para as fases desse processo, a reação da Igreja como um corpo vivo em situações reais". Visualizando as mudanças na Igreja como uma série de "idas e vindas", ele divide seu livro em cinco partes que tratam, por sua vez, com o vai e vem da língua latina; as pretensões papais à monarquia; o anti-semitismo cristão; a lei natural incidindo sobre a contracepção, o patriarcado e o aborto; e, finalmente, a confissão.

Em Bare Ruined Choirs, as mudanças litúrgicas, especialmente a mudança do latim para o vernáculo "pôs todo o problema da mudança na sua forma mais pungente". Apropriadamente, o novo livro de Wills começa com "o vai e vem do latim" concebido agora em termos de inclusão e exclusão. Sem pungência aqui, no entanto, apenas a tirania e a traição de Pentecostes. Isso poderia ser nada mais do que desdém de um classicista de Yale para o latim desajeitado da Igreja? É difícil acreditar que alguém que ainda escreve Virgílio com um "e" não retém a pungência de uma tradição que ele certa vez descreveu tão elegantemente. Essa é a história sem pathos.

Na metade do livro está uma seção intitulada "Ir e vir da monarquia", incluindo sete capítulos sobre a Igreja e o Estado, estruturados em torno de questões como: Quem é o dono de Constantino? Quem é o dono de Pedro? Quem é o dono da espada? Quem é dono do papa? Wills tem maior familiaridade com o final da Antiguidade, e os capítulos dessa seção sobre a relação da autoridade da Igreja e o poder político estão entre os mais instigantes do livro. Suas opiniões são sempre contrárias.

Em sua interpretação, o Concílio de Niceia não tratou primariamente sobre o arianismo e o Creio, mas mais sobre o papel e a autoridade dos bispos. Constantino "criou a ortodoxia", escreve Wills, que prefere a visão de Newman de um Constantino "eclético" e não a de um imperador "César-papista" de Jacob Burckhardt. Com a reprise do humanista do Renascimento, Lorenzo Valla, sobre a falsa Doação de Constantino, e em seu tratamento das lendas do Papa Silvestre [sic] e Santa Helena, Wills refaz o terreno familiar, contando contos de falsificação e fraude dignos de Bart Ehrman. Essa história inflexivelmente desonesta de queda e corrupção, quando Pedro se torna papa e o papa torna-se vigário de Cristo - um título papal tardio que Wills considera gravemente ofensivo - tem pouco, ou nada, para resgatá-la.

Se há um coração teológico para esse livro, é o capítulo sobre "Igrejas e Estados". Nele, Wills, que escreveu seis livros sobre Santo Agostinho, volta-se para Cidade de Deus, em particular os livros 18 e 20, para explicar sua compreensão da Igreja visível na época como "um pouco de tudo". Nós temos um vislumbre de como Wills pode conciliar sua versão Thomas Nast - desenhos animados sobre a História da Igreja - todos aqueles jacarés episcopais mitrados que emergem do Rio Potomac para devorar as nossas liberdades - com a sua auto-compreensão como católico. Na visão de Wills, a Igreja não é a Cidade Celestial de Santo Agostinho, e a participação nela não garante o próprio destino na Cidade de Deus. Ele argumenta que, para Agostinho, as sociedades humanas não são baseadas na verdade e na justiça, mas em algo mais parecido com o que John Ruskin chamou de "afeições sociais". Como a Cidade Celestial, a Cidade Terrena também é eterna, e para Wills, isso significa que "compartilhamos por um tempo uma terceira cidade, um misto de ambas as esferas políticas e religiosas ... um lugar de lealdades divididas, não só nas relações sociais, mas na alma individual". Na tradução de Wills do Livro 18, a Igreja é um lugar "onde muitos recalcitrantes estão misturados com pessoas boas, e ambos são coletados em uma espécie de arrastão do Evangelho".

Neste mundo caído, Wills encontra equivalência entre Igrejas e Estados. "A grande quadrilha de ladrões chamada de governo tentando fazer valer a justiça", opera na terceira cidade em pé de igualdade com "o grande bando de pecadores chamado Igreja que tenta lembrar uns aos outros sobre o amor de Deus". Wills conclui: "Somos, na melhor hipótese, não só os membros, mas patriotas do nosso Estado desajeitado e de nossa Igreja pecadora, fuçando em nossa cidade compartilhada".

***

Os leitores que esperam um tour de force da história da Igreja se decepcionarão com The Future of the Church with Pope Francis - como aqueles que procuram novas perspectivas sobre o novo papa. A introdução de Wills compara Francisco com Buster Keaton em Seven Chances, descendo de uma montanha "perseguido por um grande deslizamento de pedras gigantes", desviando-se delas por todo o caminho até a parte inferior, onde "uma ameaça ainda maior o força a correr de volta para cima no meio da chuva contínua de rochas". Mais tarde, concluindo o seu tratamento da "tirania" da língua latina, Wills volta a Francisco e sua evocação de Pentecostes na Evangelii gaudium, que dá peso à conclusão de que "o reino do latim foi uma traição maciça do significado de Pentecostes". O papa então fica ausente por 168 páginas, ressurgindo para aparecer esporadicamente, quando Wills o compara a João XXIII, advertindo que não podemos esperar que o Papa Francisco "mude a Igreja sozinho", mas devemos vê-lo como uma parteira que ajuda a trazer a mudança ao "encorajar outros a responder com ele ao chamado do Evangelho para com os pobres".

Wills parece ter escrito rapidamente grande parte desse livro, baseando-se em grande parte nos livros de sua biblioteca pessoal - onde as fontes da era do Vaticano II são muito mais numerosas do que trabalhos mais recentes. O tempo parece ter parado para ele durante os 34 anos dos papas João Paulo II e Bento XVI. Mas o leitor pode muito bem terminar essas páginas com uma pergunta: Se a igreja é "uma grande quadrilha de pecadores ... tentando lembrar uns aos outros do amor de Deus", quem melhor nos lembra do amor de Deus do que o Papa Francisco?

Wills conclui que um papa como Francisco "é um bom augúrio para o futuro da Igreja Católica". "Acolher a mudança", escreve ele, "não significa negar o passado, como se ele não existisse, isso significa reabitá-lo com amor, um sensus fidei, a dependência em relação ao Povo de Deus". Quem poderia argumentar com isso? Infelizmente, no entanto, esse livro é um pouco mais do que uma narrativa aleatória da história da Igreja, cujo núcleo imaginativo faz Buster Keaton esquivar rochas rolando de uma montanha e, em seguida, subir novamente.

Concluindo um longo comentário de Papal Sins de Wills (2000), o matemático e autoproclamado teísta filosófico Martin Gardner escreveu, com apenas um toque de frustração, de um "mistério e estranheza que paira como uma névoa cinza por cima de tudo que Wills escreveu sobre sua fé". O "agostinismo" radical, as afeições sociais a que ele apela sobre a razão e a justiça, ajudam a lançar alguma luz sobre o mistério ao qual Gardner aludiu. Wills, de fato, é um agostiniano tão radical que o antidonatista Agostinho, que parece ter pensado que Deus tinha dotado o tal "arrastão do Evangelho" de forma que a graça de Cristo sempre estivesse em oferta, poderá não reconhecê-lo.

Não está claro, exatamente, qual é o público-alvo desse livro. Quem lê Garry Wills? Eu sou um católico de uma certa idade, que pegou o fim da cauda do mundo que Wills descreve em Memories of a Catholic Boyhood [Memórias de uma infância católica], o capítulo de abertura de Bare Ruined Choirs; e, embora eu preferiria uma palavra diferente de gueto, concordo com a sua conclusão: "Estes momentos pertenceram a um povo, não a mim mesmo. Foi um gueto, inegavelmente. Mas não foi um gueto ruim para crescer". As minhas próprias "afeições sociais" estão irremediavelmente envolvidas com a Igreja. Eu também leciono história da Igreja, e dessa forma as falsificações e enganos que Wills conta não são novidade para mim. Se eu tiver que decidir, sou temperamentalmente inclinado a ter afeições sociais sobre a verdade e a justiça não importa o dia. Mas se a Igreja é realmente é "um pouco de tudo", os afetos sociais vão estar misturados com a verdade; e a verdade, embora parcial e incompleta, faz reivindicações.

Wills cita John Henry Newman frequentemente. Seu estudo das mudanças na Igreja, no entanto, não se aproximam em nada a algo que Newman reconheceria como desenvolvimentos. Eles são simplesmente mudanças. O livro abre com uma invocação do capítulo "As Cinco Mortes da Fé", de G. K. Chestertonem "O Homem Eterno". A corrupção ou o Império Romano deveriam ter acabado a Igreja, escreveu Chesterton, "mas ela foi constantemente reanimada por alguma vida sobrenatural".

Dessa vida sobrenatural, The Future of the Catholic Church with Pope Francis respira muito pouco. Se a lista escandalosa de falsificações e enganos na história da Igreja não está misturada com alguma da verdade de Deus, então, parafraseando Flannery O'Connor, que a Igreja vá para o inferno! A questão para Wills é esta: Por que precisamos da Igreja ou do Papa Francisco para lembrar-nos do amor de Deus? Eu posso ouvir a pergunta milenar: um pouco de tudo - realmente? Por que se preocupar?

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