Pecado e misericórdia, segundo Dietrich Bonhoeffer

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18 Março 2015

"Reconhecer o pecado e afastar-se dele: isto é possível. De que modo? Admitindo ser culpado de tudo. Não são as circunstâncias, os outros, uma predisposição minha: a culpa é minha", afirmava Dietrich Bonhoeffer, teólogo luterano assassinado pelo regime nazista.

O texto foi reproduzido pelo jornal Il Sole 24 Ore, 15-03-2015. A tradução é de Benno Dischinger.

Eis o artigo. 

Em cada dia a comunidade cristã canta: “Recebi misericórdia”. Obtive este dom também quando fechei o meu coração a Deus; quando ingressei na via do pecado; quando amei as minhas culpas mais do que a Ele; quando encontrei miséria e sofrimento em troca daquilo que cometi; quando me perdi e não encontrei a via do retorno. Então foi a palavra do Senhor que veio ao meu encontro. Então entendi: Ele me ama. Jesus me encontrou: esteve junto de mim, somente Ele.

Deu-me confortou, perdoou todos os meus erros e não me inculpou do mal. Quando eu era seu inimigo e não respeitava os seus mandamentos, tratou-me como um amigo. Quando lhe fiz mal, me retribuiu somente com o bem. Não me condenou pelos maus atos praticados, procurou-me incessantemente e sem rancor. Sofreu por mim e morreu por mim. Suportou tudo por mim. Venceu-me. O Pai reencontrou seu filho.

Pensamos em tudo isto quando entoamos aquele canto. Custo compreender por que o Senhor me ama tanto assim, por que eu lhe sou tão caro. Não posso entender como Ele tenha ressuscitado e tenha querido vencer o meu coração com o seu amor, posso somente dizer: “Recebi misericórdia”.

23 de janeiro de 1938

O sofrimento do justo

“Muitos são os males do justo, mas de todos o liberta o Senhor (Salmo 34, 20). O justo sofre pelo mundo, o injusto não. O justo sofre pelas coisas que para os outros são naturais e necessárias. O justo sofre pela injustiça, a insensatez e o absurdo dos acontecimentos. Sofre pela destruição da ordem divina do matrimônio e da família. Sofre por estes motivos não só porque lhe aparecem como uma privação, mas porque reconhece neles algo de mau, de ímpio. Em torno dele todos dizem: é assim, será sempre assim e assim deve ser.

O justo diz: não deveria ser assim, é contra Deus. O justo se reconhecerá precisamente pelo seu sofrimento: ele traz, por assim dizer, o sensório do Senhor sobre a terra. Por isso ele sofre como o Criador sofre no mundo. No sofrimento do justo, todavia, existe sempre a ajuda do Pai, que lhe é continuamente próximo. O justo sabe que Ele o deixa sofrer para que aprenda a amá-lo por sua causa. No sofrimento o justo encontra Deus. É esta a sua ajuda. Encontrai Deus na vossa separação e encontrareis ajuda!

Oito de junho de 1944

Tempos maus

São tempos maus, aqueles nos quais o mundo cala ante a injustiça, aqueles nos quais a opressão dos pobres e dos míseros provoca um forte clamor dirigido ao céu que deixa indiferentes os juízes e os poderosos; quando as comunidades perseguidas e sofredoras pedem ajuda ao céu e justiça aos homens e não terra não se levanta nenhuma voz para defender os seus direitos. São filhos de Deus os que sofrem estas arbitrariedades, não devemos esquecê-lo: são homens como vocês, sentem dor como vocês, sofrem a violência que provém de vocês; têm alegrias e esperanças como vocês, experimentam honra e vergonha como vocês; são pecadores como vocês e como vocês necessitam da misericórdia do Senhor; são vossos irmãos! São muitos:

Não, não o são, podemos ouvir por toda parte as suas vozes, mas as suas palavras são desapiedadas, parciais. Não apontam à justiça, mas à consideração da pessoa. Não, vocês julgam iniquamente sobre a terra e as vossas ações abrem caminho à violência. Quando a boca dos chefes do mundo cala por injustiça, os braços se preparam para perpetrar ações malvadas. A linguagem expressa por tais atos é pavorosa e não cria equidade. Daqui nascem a miséria e a dor do corpo; e a comunidade perseguida, prisioneira e derrotada, experimenta o desejo de redenção. Abandonai-vos nas mãos do Senhor, e não naquelas dos homens!

11 de julho de 1937

Por que negamos os nossos pecados

Existe uma só via que agrada a Deus e aos homens: não negar as culpas, mas reconhecê-las. Se até agora não o fizemos, ainda há tempo, se decidirmos ajoelhar-nos diante do Senhor para admitir os nossos pecados. Há vários modos para negar as próprias culpas: Fazê-las recair sobre os outros. Inculpar o próximo para libertar a nós mesmos, tornar-nos acusadores dos irmãos. Equivale à traição e ao homicídio!

Atribuí-los ao meu modo de ser, a uma predisposição minha. “Não consigo”, “não depende de mim”, “necessito de algo diverso”. Isso representa um pretexto infame para refutar a responsabilidade que o Criador me confiou. Deste modo torno-me acusador de Deus. Minimizar cada coisa. É uma “solução amigável” de todas estas vivências e dos pecados, uma falta de respeito pelo irmão, pela vida em comum guiada pela palavra, pela prece, pela missa.
Por que negamos as nossas culpas?

Por medo de dever reconhecer-me como um mau cristão e de dever tomar sobre mim toda a responsabilidade. Por medo de Deus, de ter que ver com Ele e com sua misericórdia. Por medo das consequências. Se eu reconhecer o mal devo afastar-me dele e isto comporta efeitos evidentes. Os outros o perceberão. Deverei ir ao meu próximo e pedir perdão, começar finalmente a combater contra mim e contra o pecado, renunciando ao sossego e à comodidade. Devo arriscar e considerar a penitência. Por isso nego tudo. Todavia, não consigo fazer sequer o que quero.

Reconhecer o pecado e afastar-se dele: isto é possível. De que modo? Admitindo ser culpado de tudo. Não são as circunstâncias, os outros, uma predisposição minha: a culpa é minha. O resto não vem ao caso. Sou eu que desprezei a missa, eu que não aproveitei o tempo à minha disposição para rezar, eu que não respeitei o meu semelhante, que não rezei por ele, que não pedi ajuda e conselho. Somente eu!

Indo ao irmão para pedir-lhe perdão, de modo que não haja mais nada que nos separe. Com a penitência. Última recomendação. Se não estás em condições de não pecar mais, serás capaz disso com a penitência. Que isto conseguirás fazer. Enfim, renuncia. O ódio pelo pecado cresce com o amor a Deus. Inicia uma nova vida com a ajuda do Senhor.

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