Na era secular, a fé não morrerá. Entrevista com Charles Taylor

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02 Março 2015

Estudioso do multiculturalismo, um dos maiores expoentes da corrente filosófica chamada de "comunitarismo" (é célebre o seu livro seus Fontes do Self (Ed. Loyola), Charles Taylor, nos últimos anos, centrou o seu estudo na relação entre religião, espaço público e cultura.

A reportagem é de Lorenzo Fazzini, publicada no jornal Avvenire, 27-02-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O seu poderoso Uma era secular (lançado em inglês em 2007, traduzido para o português pela Editora Unisinos, em 2010 sob o título Uma era secular) tornou-se em pouco tempo um marco na reflexão sobre as relações entre fé e história.

Professor emérito da Universidade McGill, de Montreal, Taylor aceitou responder ao Avvenire, enquanto está prestes a chegar em Roma, onde participará de alguns eventos.

Eis a entrevista.

Professor Taylor, "Renovar a Igreja em uma era secular" é o título do congresso do qual o senhor participa na próxima semana, na Universidade Gregoriana. Esse slogan logo nos faz pensar nos dois anos do Papa Francisco, considerado por muitos como um sinal dessa renovação. De que modo o Papa Bergoglio é considerado nos EUA e no Canadá?

Na América do Norte, o Papa Francisco é visto como um grande defensor da renovação da Igreja. Ele rompeu com as reivindicações de uma autodefesa conservadora e de uma autojustificação que pareciam predominantes. Além disso, ele está sempre pondo em primeiro plano a missão da Igreja em favor das pessoas desfavorecidas.

O senhor defende – e eu acredito que também o fará na intervenção que proferirá em Roma – que uma das tarefas da Igreja hoje é criar "pontes" entre aqueles que, como crentes, estão abertos ao diálogo e ao debate, e aqueles que, ao contrário, têm mais medo do "século". De que modo operar, concretamente, essa unidade?

Na Igreja, existem pessoas que têm abordagens diferentes em relação à situação contemporânea. No entanto, eu não renuncio à esperança de que elas possam aceitar fazer parte da mesma Igreja. Isso pode acontecer se, em cada Igreja local, nas dioceses, houver instituições onde essas pessoas com posições diferentes possam trabalhar juntas e tomar decisões juntas. O problema, neste caso, é que a Igreja tornou-se, sob certos aspectos, uma monarquia absoluta, ao menos há alguns séculos. A situação dos nossos dias enfatiza a necessidade de descentralização, que, além disso, já tinha sido decidida pelo Concílio Vaticano II, mas que, em certo sentido, foi bloqueada posteriormente.

Precisamos de sínodos com base regional com mais poderes de decisão. E, nesses sínodos, também é necessário um impulso mais forte por parte dos leigos. Isso pressupõe organismos em que os leigos possam elaborar juntos a sua contribuição. Os leigos deverão encontrar um modus vivendi para chegar a essas decisões comuns. Na realidade, até agora, os leigos ainda estão fechados em grupos por afinidade e, assim, não encontram pessoas que têm pontos de vista diferentes. Não tenho nada contra aqueles grupos que se reúnem com base na sua sensibilidade, mas é necessário chegar a criar organismos que obriguem aqueles que têm perspectivas diferentes a se encontrarem.

O senhor é famoso, dentre outras coisas, por ter trabalhado na vanguarda da comissão de governo no Quebec sobre o tema da laicidade e do pluralismo cultural e religioso, questão que surgiu com força por causa da presença islâmica no Canadá. A Europa ficou chocada com os fatos de Paris, com o massacre do Charlie Hebdo e da loja judaica. De que modo pode-se realizar uma integração positiva para os migrantes de fé muçulmana na Europa?

A integração na Europa é uma grande interrogação. A maior parte das sociedades europeias ainda têm experiências recentes na integração dos imigrantes, ao contrário de outras sociedades ocidentais. Mas o primeiro ponto deveria ser o de deixar de visar e de atingir os imigrantes, como fez a recente lei francesa nessa matéria.

O noticiário internacional vê o recrudescimento do fenômeno do terrorismo islâmico, com o grupo do IS e do Boko Haram que semeiam morte e da violência no Oriente Médio e na África. Como o senhor avalia esse fenômeno? É o sinal daquilo que será o Islã no futuro ou apenas uma espécie de reação extrema à era secular?

O IS, como você observa com razão, é uma reação extrema. Trata-se de uma ameaça para qualquer pessoa, mas especialmente para as sociedades islâmicas e, de modo particular, para as sociedades árabes. Na realidade, ele não representa uma reação à era secular, mas à percepção da dominação das sociedades ocidentais sobre as sociedades árabes ou que antigamente eram colônias do Ocidente.

Em Roma, o senhor também vai participar de uma etapa do Átrio dos Gentios, intitulada "A praça e o templo". Esse par retoma, por assonância, a perspectiva do "cubo e da catedral", de George Weigel, que talvez colocasse mais em contraste laïcité e religião. O senhor tem uma visão mais positiva da laicidade: por quê?

Sim, eu vejo intuições muito positivas para a vida espiritual de cada pessoa na grande abertura que a era secular trouxe para o Ocidente. A fé cristã pode florescer nesse contexto como nunca antes ocorreu. Os cristãos, e os católicos dentre eles, estão se tornando minorias em certas sociedades, enquanto, em outras, chegam à maioria.

Foto: Avvenire.it

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