Os anjos, uma crítica ao racionalismo e um elogio ao símbolo. Artigo de Piero Stefani

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24 Fevereiro 2015

No cristianismo, os anjos estão não só no céu na presença de Deus, mas também na terra, para tornar Deus presente na vida dos seres humanos. Já segundo a tradição islâmica, o racionalismo destrói os anjos e os precipita no abismo do não senso; quem os salva é apenas o reconhecimento do papel insubstituível confiado ao símbolo dentro do conhecimento humano.

A opinião é do filósofo e biblista italiano Piero Stefani, especialista em judaísmo e em diálogo judaico-cristão, e ex-professor das universidades de Urbino e de Ferrara. O artigo foi publicado no caderno La Lettura, do jornal Corriere della Sera, 22-02-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O maior artista que traz no seu nome uma referência aos anjos os representa, geralmente, sem asas. Na Capela Sistina, na enorme parede do Juízo Universal, tanto aqueles no alto que carregam os sinais da Paixão (cruz, coroa, coluna...), quanto aqueles de baixo que sopram as trombetas para fazer ressurgir os mortos e mostram aos ressuscitados os livros nos quais está escrito o seu destino eterno, são todos ápteros ("sem asas").

Os anjos de Michelangelo são humanizados; no entanto, justamente essa semelhança conosco no aspecto exterior evidencia uma diversidade ainda maior: voar sem asas é mais realista do que fazer isso quando se é dotado do órgão que caracteriza os voadores.

Mas quando surgiram as asas nos anjos? Se seguirmos os livros da Bíblia, elas parecem existir desde o princípio. De fato, fala-se de querubins postos de guarda no Jardim do Éden, para que os progenitores expulsos não retornem para lá (Gênesis 3, 24). O seu nome recorda os karibu babilônios, genes de forma metade humana e metade animal, que vigiam a porta dos templos e dos palácios. Na iconografia oriental e na descrição bíblica, eles são representados como esfinges aladas (Ezequiel 1).

Se, porém, olharmos para as histórias patriarcais e para as de outras antigas figuras bíblicas, encontramos anjos de um aspecto totalmente diferente. A eles, é bem difícil tanto atribuir as asas, quanto atribuir a capacidade de voar. Assim como nós, ao contrário, parece que eles caminham ou se sentam. Basta pensar na história de Gideão: ele vê o anjo do Senhor sentado aos pés de um arbusto e conversa com ele por um longo tempo, sem qualquer perturbação. Só no fim, depois de que, graças à intervenção angélica, ocorreu uma milagrosa oferta sacrificial, Gideão se maravilha pelo fato de que, embora tendo visto face a face o anjo do Senhor, ele se encontre ainda vivo. Ele é tranquilizado: aquele lugar estará sob a insígnia da paz (Juízes 6, 11-24). Histórias semelhantes valem para Hagar (Gênesis 16, 7-13), para Lot (Gênesis 19, 1-29), para os pais de Sansão (Juízes 13), e assim por diante.

Para reencontrar as asas, devemos nos deslocar para Jerusalém, no ano da morte do rei Uzias (provavelmente 740 a.C.); o profeta Isaías, dentro do templo, teve uma visão do Senhor sentado em um trono alto e elevado; acima dele, estavam serafins, cada um dos quais tinha seis asas: com duas, cobriam-se a face, com duas, os pés (eufemismo para "genitais"), com duas, voavam. Enquanto se encontravam nesse estado, trocavam entre si palavras recitadas até hoje também por seres desprovidos de asas: "Santo, santo, santo é o Senhor..." (Isaías 6, 1-3).

Longe de serem ápteros, os serafins são caracterizados por uma superabundância igualmente irrealista de asas. A etimologia da palavra hebraica "serafim" sugere uma tradução tipo "os queimadores". Com toda a probabilidade, o seu nome deriva da imagem do fogo, muitas vezes associada à presença divina. Com efeito, na visão profética, nos é dito que um dos serafins tomou uma brasa ardente do altar do templo e, com ela, purificou os lábios de Isaías, que, naquele momento, foi constituído profeta.

Quase dois mil anos depois, outro serafim, desta vez compenetrado no crucifixo, teria impresso na "rocha nua" de La Verna os estigmas de Jesus Cristo em Francisco de Assis. Estamos diante de duas histórias diferentes de vocação; para Isaías é um início, para Francisco, um selo.

Os serafins da corte celeste louvam o Senhor, de cuja glória estão cheios céu e terra. Angeli. Presenze di Dio tra cielo e terra [Anjos. Presenças de Deus entre céu e terra] é o título de um dos "livros da Biblia" (Ed. Morcelliana, 2012), que reúne contribuições "aladas" de angelologia desde a antiguidade até os nossos dias.

Nele, é proposta uma espécie de definição que alude a uma tarefa própria dos anjos: estar não só no céu na presença de Deus, mas também na terra, para tornar Deus presente na vida dos seres humanos. Foi assim no caso de Gideão e de muitos outros personagens bíblicos, até chegar a Maria (Lucas 1, 26-38).

O que indica isso também é a etimologia que, nas várias línguas, remete os anjos, sempre, de um modo ou de outro, à sua função de mensageiros. O anunciador é aquele que torna presente quem se encontra em outro lugar. O anjo faz isso em relação a Deus e não com relação a qualquer autoridade terrena. Assim é para o hebraico mala'k e para o equivalente árabe, também ele mala'k; assim é para o grego ánghelos (que se encontra atrás do latim e de tantas outras línguas), que significa "anunciador".

Na Bíblia e no Alcorão (que foi feito descer sobre o profeta Maomé não por acaso através de Gabriel), os anjos são, portanto, também e talvez sobretudo presenças de Deus operantes e anunciantes sobre a terra. Lê-se no livro sagrado do Islã: "Louvado seja Deus, criador do céu e da terra, que escolhe como mensageiros os anjos, com as asas – duas, três, quatro – e que acrescenta à criação aquilo que Ele quer, porque Deus é poderoso sobre todas as coisas" (Alcorão 35, 1).

Anjos louvadores do Senhor no céu e mensageiros de Deus na terra: é só isso? Não. De fato, também é antiga outra ideia, a da queda dos anjos. Ela representa uma exemplificação da máxima "do ótimo, o péssimo". É um dito carregado de comprovações, também na existência humana, tanto pessoal quanto coletiva. Quanto mais se está no lato, mais a queda leva para baixo.

Nesse precipício, não caiu só Lúcifer (Isaías 14, 12; Lucas 10, 18). Entre os vários mitos de queda, um dos mais instrutivos se encontra no Alcorão. Diz respeito a Iblis. Alá acaba de criar Adão. Deus ordena a todos os anjos a se prostrarem diante dessa sua nova criatura. Todos obedeceram, exceto Iblis. O anjo motivou a sua própria recusa. De fato, respondeu a Alá dizendo que ele, sendo de fogo, não podia se inclinar diante de quem lhe era inferior, um ser feito de barro. Alá, então, expulsou-o dizendo: "Sai daqui, não te é concedido ser soberbo" (Alcorão 7, 11-18).

Iblis perde a sua mais alta natureza angélica por motivo de um raciocínio: as realidades criadas são dotadas de uma consistência objetiva, das quais há superiores e inferiores. As leis devem ser respeitadas. Na queda de Iblis, está contida uma chave hermenêutica para compreender toda a história dos anjos, alados ou ápteros que sejam: o racionalismo os destrói e os precipita no abismo do não senso; quem os salva é apenas o reconhecimento do papel insubstituível confiado ao símbolo dentro do conhecimento humano.

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