A arte da dúvida. Artigo de Roberto Esposito

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24 Fevereiro 2015

O relevo filosófico da dúvida é antigo – pode ser remontado até a clássica fórmula socrática "saber que não se sabe". Teorizado por Pirrone ainda no século III a.C., ele encontrou uma primeira formulação cristã, condicionada à verdade divina, com Santo Agostinho.

A análise é do filósofo italiano Roberto Esposito, vice-diretor do Instituto Italiano de Ciências Humanas, em artigo publicado pelo jornal La Repubblica, 22-02-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

"Ao procurar e encontrar Deus em todas as coisas sempre resta uma zona de incertezas. (…)  Os grandes guias do povo de Deus, como Moisés, sempre deixaram espaço para a dúvida." Quem pronunciou tais palavras não foi um filósofo neocético, mas o Papa Francisco, na sua entrevista à revista La Civiltà Cattolica. Muitos viram nelas, mais do que uma simples abertura à exigência de renovar a linguagem da Igreja, o testemunho do papel crescente que a dimensão da dúvida assumiu na nossa sociedade.

Nesse sentido, o grande sucesso que está tendo na França, mesmo em nível de participação nos cursos universitários, a "zetética" – como Henri Broch definiu a arte da dúvida em relação aos sectarismos, partidarismos, dogmas envoltos em pretensões científicas – não pode surpreender: vivemos imersos em uma época em que nos chega continuamente uma enorme massa de informações. E, assim, o controle sobre a autenticidade, sobre a boa-fé, sobre a correção ou sobre a lógica interna de qualquer mensagem, do tuíte de um personagem conhecido a um documento oficial de uma instituição, se torna uma atividade crucial, um mecanismo de sobrevivência: o único exercício possível para não permanecer enredado nas miríades de redes da propaganda presentes na internet, assim como nos produtos culturais mais tradicionais, na política, assim como nas disciplinas acadêmicas, nos vídeos dos extremistas islâmicos, assim como nas verdades de regime de todos os tempos e lugares.

É claro que, nesse contexto, a arte da dúvida muda de pele. De eixo de sistemas de pensamento iluministas ou liberais de várias espessuras, torna-se agora aquilo que, no fundo, sempre foi: um método de conhecimento, uma abordagem a ser aplicada de maneira transversal em qualquer campo da nossa vida. Um guia indispensável em um mundo globalizado, despedaçado, confuso e sempre em risco de acabar capturado nas bobinas do pensamento único de plantão.

Por causa dessas suas características, o relevo filosófico da dúvida, naturalmente, é antigo – pode ser remontado até a clássica fórmula socrática "saber que não se sabe". Teorizado por Pirrone ainda no século III a.C., ele encontrou uma primeira formulação cristã, condicionada à verdade divina, com Santo Agostinho.

Posteriormente, Descartes o colocou na base do conhecimento: embora duvidando de tudo, nunca se poderá duvidar de ser, justamente por isso, um sujeito pensante. Se Pascal e Hume submeteram, ao contrário, a ideia de certeza absoluta a uma crítica corrosiva, foi Kant que assumiu como objeto de dúvida a própria razão, identificando as suas possibilidades e limites. Toda a discussão do século XX sobre a relação indissolúvel entre dúvida e certeza – sustentada por Wittgenstein, mas também, diferentemente, por Popper, Kuhn, Lakatos – insistiu sobre a necessária falsificabilidade dos paradigmas científicos.

Por outro lado, se Kierkegaard escreve em Aut Aut que a dúvida pertence ao movimento interno do pensamento, no seu Zibaldone Leopardi afirma que "pequeníssimo é aquele espírito que não é capaz ou é difícil à dúvida". Nessa linha de raciocínio, que deriva a necessidade de duvidar do caráter acabado e incompleto do nosso saber, Vladimir Jankélévitch, em Da qualche parte nell’incompiuto (Ed. Einaudi, editado por Enrica Lisciani Petrini), argumenta que, contra as falsas certezas, deve ser mantido firme "a dúvida em relação às verdades e a si mesmos".

No entanto, até aqui, ainda não chegamos ao coração do problema. Por que algo que pertence à história de toda a tradição filosófica volta hoje para nos interpelar com particular urgência? O que torna a demanda pela arte da dúvida tão premente?

Já no fim dos anos 1970, um livro coletivo editado por Aldo Gargani, intitulado Crisi della ragione (Ed. Einaudi), monopolizou o debate filosófico em concomitância com o sucesso internacional do livro sobre o pós-modernismo de Jean-François Lyotard (Ed. Feltrinelli). O que naqueles anos parecia se romper era um sistema inteiro de sentido que, por um longo período, tinha constituído, ao mesmo tempo, a estrutura indubitável do real e um modelo normativo de comportamento.

O que desaparecia era o primado do passado sobre o presente – a ideia de que tudo o que acontecia era predeterminado pelo que o precedia, segundo um nexo direto entre causa e efeitos, quando, ao contrário, aos códigos racionais, acompanham-se sempre elementos imprevisíveis de tipo intuitivo, emotivo ou pragmático, muitas vezes, pregados com eles.

Mas um choque ainda mais desestabilizador ocorreu nos últimos anos, quando, com a nova desordem global, todas as referências que até há algum tempo guiaram os nossos comportamentos parecem ter desaparecido. Daí nasce o impulso a uma busca ininterrupta, capaz de desafiar dogmas e lugares comuns.

O próprio termo "zetética" remete ao verbo grego que significa "buscar". Na sua base, há uma necessidade urgente de espírito crítico, uma desconfiança crescente em relação à contínua manipulação que meios de comunicação inescrupulosos ou subservientes, pesquisas com resultados pré-preparados, dispositivos de propaganda derramam sobre nós cotidianamente.

Os atentados de Paris, dirigidos especificamente contra a liberdade de pensamento e de escrita, reforçaram ainda mais essa exigência, como demonstra a rápida escalada das obras de Voltaire na zona alta das classificações de vendas.

Já preparado pelo sucesso de incansáveis adeptos da dúvida como Montaigne e Diderot, o retorno, não só da parte dos franceses, a Voltaire lança novamente a tradição das Luzes contra a cegueira produzida pelo fanatismo.

Tal impulso zetético, por outro lado, se insere em um horizonte filosófico já orientado em direção laica e libertária. Ele remete a filões culturais diferentes, que encontraram um primeiro ponto de agregação no "New Atheism" norte-americano – teorizado por filósofos e ensaístas como Richard Dawkins, Daniel Dennett, Sam Harris e Christopher Hitchens.

O que os conecta em um mesmo ponto de vista não é a polêmica contra religiões particulares, mas contra qualquer tipo de pressuposto dogmático que vincule a pesquisa científica e também os comportamentos práticos. Trata-se de uma interpretação radical do darwinismo, que subtrai o fenômeno da vida da referência a qualquer coisa que transcenda o desenvolvimento específico.

Ao lado dessa corrente – que da América se espalhou para a Alemanha, França, Itália –, colocam-se outros filões libertários inspirados, de vários modos, na tradição iluminista. O neomaterialismo individualista de Michel Onfray, autor de um discutido Trattato di ateologia (traduzido na Itália pela editora Fazi), foi objeto de um amplo debate e também de fortes críticas.

Levando aos resultados extremos a doutrina da tolerância que tem os seus pais em Locke e no próprio Voltaire, a sua perspectiva é caracterizada por uma crítica preventiva de qualquer noção que não seja passada pelo crivo da análise racional.

A outra escola de pensamento que, talvez com maior consciência teórica, rompe com todas as formas de transcendência é aquela que olha, por um lado, para o pensamento de Spinoza e, por outro, para a genealogia de Nietzsche. Isso explica a forte retomada de interesse por um autor como Gilles Deleuze, do qual a editora DeriveApprodi acaba de editar o filme-entrevista, aos cuidados de Claire Parnet, intitulado Abecedario. Talvez prevendo a reviravolta em curso, Michel Foucault já havia previsto uma vez que, "um dia, o século será deleuziano". Prudentemente, ele não tinha especificado de qual século ele falava.

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