''Se for preciso, o Papa Francisco vai abrir aos padres casados, sem hesitar.'' Entrevista com Alberto Melloni

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23 Fevereiro 2015

"Um cardeal diria que o celibato dos padres é uma tradição venerável, que não pode ser tratada como uma questão banal, de consumo carnal ou erótico. Eu diria que essa é a sua vocação, o seu chamado, a sua vida. Exatamente como pessoa casada, eu diria que o seu matrimônio é o que ele quis e o que mais desejou. Que é o que ele ama. Que é a plenitude de sua vida."

A reportagem é de Virginia Della Sala, publicada no jornal Il Fatto Quotidiano, 20-02-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Alberto Melloni é um historiador italiano, especialista em história do cristianismo e, particularmente, do Concílio Vaticano II. Em março, ele vai publicar, pela editora Il Mulino, um livro intitulado Amore senza fine, amore senza fini [Amor sem fim, amor sem fins] sobre o matrimônio.

Eis a entrevista.

O celibato, como a concepção para o matrimônio, faz parte da vocação do sacerdote?

De um ponto de vista espiritual, é a vocação para o Reino de Deus. É o modo pelo qual os padres respondem à busca de Deus na vida, em todas as coisas, das maiores às menores. Representa uma escolha à qual se deve ser fiel. Fala-se de vocação celibatária.

Existe também uma vocação sacerdotal não celibatária?

Sim. Na doutrina católica, deve-se distinguir o "estado de vida", que pode ser celibatário ou uxorado [casado], e que prevê o chamado pessoal a uma das duas, do "ministério". As duas coisas estão desvinculadas, mas há o costume de reservar o sacerdócio àqueles que fizeram uma escolha de vida de celibato. Não é Deus quem impõe isso: é uma escolha de direito humano, uma obrigação de disciplina, não de direito divino, como, ao contrário, é o fato de reservar o sacerdócio só aos homens.

Por que para a Igreja é tão importante que o sacerdócio seja reservado aos célibes?

O celibato foi inserido com uma norma reformadora, uma espécie de decreto medieval para a anticorrupção, pelos reformadores gregorianos do século XI. Servia para impedir que o episcopado se tornasse um cargo hereditário. Ele resolvia o problema da herança patrimonial e garantia que não houvesse mais entrelaçamentos entre bens eclesiásticos e bens temporais.

O celibato, portanto, nasce apenas para garantir a separação entre as necessidades materiais e as espirituais do padre?

Praticamente, sim. Depois, do século XVII ao século XIX, foi teorizada uma espiritualidade do celibato. Nasceu uma bela construção mística que se baseava na ideia de uma excelência do estado celibatário em relação ao estado conjugal. Fazia-se referência às doutrinas do Novo Testamento, especialmente aos escritos do discípulo Paulo, que, ao contrário de Pedro, não era casado e, nas suas cartas, inseria recomendações com um selo fortemente anticonjugal. O celibato era visto como uma forma de matrimônio com Jesus. O sacerdócio tornou-se uma função desempenhada "in persona Christi". Não se casar era apenas a constatação da intensidade da doação, da prova de si mesmo, de abnegação em relação a Deus. O princípio foi tão forte que deu início a uma cultura revolucionária do celibato: houve um celibato mazziniano e um bolchevique, baseados na ideia de que um homem que tem coisas importantes para fazer não tem tempo para formar uma família.

Por que hoje a Igreja deveria mudar de ideia?

Porque, sem padres, não se celebra a missa. Diante da crise das vocações, a Igreja deve fazer uma escolha. E não pode deixar de escolher a Eucaristia, que é reservada apenas aos padres. E se, para celebrar, for preciso estender o sacerdócio também para as pessoas casadas, a Igreja fará isso. O Papa Francisco fará isso sem hesitação. Embora não se exclua que os problemas ligados à herança matrimonial também poderiam vir à tona: do sustento das viúvas à assistência aos filhos, o problema vai exigir a aplicação das devidas cautelas.

Foto: Vvox.it

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