Do Vaticano, não às homilias tidas como sermões abstratos e moralistas

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12 Fevereiro 2015

A homilia “não é um sermão sobre um tema abstrato”, nem “uma ocasião, para o pecador, confrontar argumentos completamente desligados da celebração litúrgica e das suas leituras, ou para fazer violência aos textos previstos pela Igreja, contorcendo-os para adaptá-los a uma ideia preconceituosa”, não é “um puro exercício de exegese bíblica”, “não deve ser empregada como tempo de testemunho pessoal do pecador”, não deve se limitar a expressar “simplesmente a história pessoal do pregador”, nem deve reduzir-se a um caráter “puramente moralista ou doutrinador”. O Vaticano apresentou hoje um “diretório homilético”, elaborado pela congregação para o culto divino e a disciplina dos sacramentos guiada desde novembro pelo cardeal guineense Robert Sarah, acelerado com Papa Francisco, publicado na realidade no último dezembro, e em elaboração desde Papa Bento XVI, quando estava gerindo o dicastério o cardeal espanhol Antonio Canizares Llovera. Em 156 parágrafos e dois apêndices, esse vade-mécum endereçado a todos os bispos, sacerdotes e seminaristas do mundo propõe a indicação sobre como desenvolver uma boa pregação e quais erros devem ser evitados.

A reportagem é de Iacopo Scaramuzi, publicada pelo Vatican Insider, 10-02-2015. A tradução é de Ivan Pedro Lazzarotto.

O cardeal Sarah, em uma coletiva de imprensa no Vaticano, explicou que o diretório “não nasce sem um porque” e citou, a propósito, quanto foi escrito pelo Papa Francisco na exortação apostólica Evangelii Gaudium (135): “Muitas são as reclamações com relação a este importante ministério e não podemos fechar os ouvidos. A homilia é a pedra de comparação para avaliar a aproximação e a capacidade de encontro de um Pastor com o seu povo. De fato – prosseguia o Papa – sabemos que os fiéis dão muita importância a isso; e esses, como próprios ministros ordenados, muitas vezes sofrem, os une para escutar e os une para pregar. É triste que seja assim”.

O diretório está articulado em duas partes. Na primeira, intitulada “A homilia e o âmbito litúrgico”, se descreve – explica uma nota de apresentação – “a natureza, a função e o contexto peculiar da homilia”, na segunda parte “Ars praedicandi”, “são exemplificadas as coordenadas metodológicas e de conteúdo que o pregador deve conhecer e perceber ao preparar e pronunciar a homilia”. Seguem então dois apêndices, um com as referencias ao catecismo e a segunda com referencias a “textos de documentos magistrais sobre a homilia”. Não se trata, portanto, de um “apanho de homilias já elaboradas nem de um subsídio, como existem tantos, com explicações exegéticas, espirituais e pastorais em torno da leitura da missa”, precisou o padre Corrado Maggioni, subsecretario do dicastério, nem o diretório pretende “introduzir normas novas, mas reúne disciplinas existentes”.

Entre as várias indicações, o chamado a prestar atenção em particular sobre as celebrações onde estão presentes também não católicos ou então pessoas que talvez não vão todos os domingos à missa, como os matrimônios e funerais. Reitera-se que a homilia pode ser realizada “somente por bispos, sacerdotes e diáconos”, enquanto um laico, explicou o padre Maggioni, pode “oferecer um testemunho” temático se no calendário litúrgico recorre uma data específica, ou, de uma forma geral, pode intervir com uma “pregação” na Igreja mas dora da “ação litúrgica” que é reservada ao “ministério ordenado”. Quanto à brevidade da homilia, vem novamente o pedido escrito por Papa Francisco no Evangelii Gaudium (“deve ser breve e evitar que se pareça com uma conferencia ou uma aula”), mas também quanto se lê no Lecionário (“não muito longa nem muito curta”).

O tamanho, precisou o cardeal Sarah em resposta aos jornalistas, “depende da cultura de onde estamos: é claro que no Ocidente superar vinte minutos parece muito, na África porém, vinte minutos não são suficientes porque as pessoas vem de longe para escutar a palavra de Deus, se um padra fala dez ou vinte minutos não é suficiente”. O discurso é diferente para missas em dias de semana, quando é então aconselhado que se reproduza uma homilia, mas para que “a Eucaristia diária seja menos solene que a liturgia dominical e deve ser celebrada de tal forma que os que tem responsabilidades familiares e de trabalho possam ter a oportunidade de participar”, é necessário que “a homilia, em tais ocasiões, seja breve”. Quanto à aplicação dessas indicações, “a responsabilidade é dos bispos”, explicou Sarah.

O diretório, disse o religioso africano, não se direciona para um país específico, porque “existem dificuldade na homilia em qualquer lugar”, é um “problema mundial”. Monsenhor Arthur Roche, secretário da congregação, de sua parte, lembrou outra passagem do Evangelii Gaudium (138): “A homilia não pode ser um espetáculo de entretenimento, não responde à lógica dos recursos midiáticos, mas deve dar fervor e significado à celebração. É um gênero peculiar já que trata de uma pregação dentro do quadro de uma celebração litúrgica”. Será portanto um “bom pregador”, citou o monsenhor, “quem, através da pregação Homilética, for capaz de: conduzir ao entendimento daquilo que sai da boca de Deus, abrir os corações à render graças a Deus, alimentar a fé enquanto o Espírito trabalha por nós, agora e aqui na ação litúrgica, preparar uma frutífera comunhão sacramental com Cristo, exortando a viver como ele é recebido em sacrameto”, enquanto “será um mau pregador quem, por ser talvez um grande orador, não será capaz de surtir estes efeitos”. As homilias, acrescentou o vice-diretor da sala de imprensa vaticana, padre Ciro Benedettini, são “bênçãos” de cada padre e de cada fiel, “seguidamente cruzes mais que doces: o importante é que não façamos adormecer os fiéis”. A homilia “deve ser o meio com o qual o sacerdote instiga em mim o desejo de conhecer ou reconhecer Jesus, apresentando-o de maneira mais clara e direta, não amarrotado ou parcial”, disse por si Filippo Riva, oficial do pontifício conselho das comunicações sociais, dando voz a quem escuta as homilias.

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