A censura invisível do Twitter

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Por: Jonas | 05 Fevereiro 2015

Para o sociólogo Diego Ezequiel Litvinoff, da Universidade de Buenos Aires, entre os limites do Twitter está o fato de que “inibe a possibilidade do debate pelo contexto, porque suas condições são a brevidade do enunciado, sua abertura interpretativa, a desmesurada possibilidade de resposta, o anonimato e o estímulo de uma reação imediata, que deriva em uma opinião irreflexiva”. O artigo é publicado por Página/12, 04-02-2015. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

O uso das novas tecnologias de comunicação é tão prontamente festejado como desprezado. De ferramentas democratizantes por si, a mecanismos de alienação constitutivos, as águas se dividem sem mediações aparentes. Talvez se devesse começar pelo evidente: embora seja certa a crescente massificação de seu uso, isso não implica o desaparecimento imediato das velhas tecnologias.

Cada meio se caracteriza por gerar as condições sob as quais se estabelece a comunicação. O aparecimento e o desenvolvimento de novas modalidades respondem a necessidades comunicativas não preenchidas pelos velhos meios de comunicação. Contudo, também a sua própria difusão gera novas experiências que não só contribuem para reproduzir seu próprio uso, mas também, além disso, podem acarretar transformações em outros âmbitos. Talvez, o vínculo entre a denominada Primavera Árabe e o uso de novas tecnologias possa ser explicado menos pela divulgação das marchas via Facebook (cujo alcance, segundo alguns pesquisadores, não teria sido massiva) do que por uma influência indireta: a exposição do rosto e o exercício da opinião em assuntos cotidianos, produto do uso do Facebook, gerou campos perceptivos que tornaram intolerável o poder de regimes políticos que não se submeteram ao voto popular.

Porém, assim como as novas tecnologias podem contribuir para dar visibilidade às arbitrariedades de um sistema ditatorial, também não deixam de invisibilizar seus próprios mecanismos de censura, o que desmente o entusiasmo democratizante com o qual costumam ser avaliadas. E não apenas porque, como se sabe, tendem, assim como em outros meios, a se concentrar em poucas mãos; mas, sim, sobretudo, porque são, na realidade, suas próprias condições de uso as que impõem as dinâmicas de abertura ou fechamento de certos modos de intervenção e, portanto, da difusão de determinados conteúdos.

Serve como exemplo o ocorrido com o tweet de Florencia Saintout, a propósito do atentado em Charlie Hebdo. Em relação ao estilo, pode-se observar que corresponde às típicas mensagens que aparecem nestes dispositivos. Para poder circular, precisam ser breves, contundentes e sugerir mais do que dizem.

No entanto, os comentários negativos suscitados, a condenação moral da qual foi objeto e o feroz exercício de interpretações, que a atribui afirmações atrozes, dão conta dos limites dessa mensagem, que, não concernindo à forma, devem ser buscadas em seu próprio conteúdo. “Os crimes não possuem justificativas, mas, sim, possuem contextos”. Se essa frase tivesse sido pronunciada, por exemplo, no âmbito acadêmico, não teria gerado adesões, nem represálias. E mais, não teria sido necessário, posto que nesse âmbito da contextualização dos fatos é um exercício indispensável, sendo aquilo que se discute a definição do contexto em que cada fato se enquadra. Neste caso, trata-se de uma radicalização da “guerra de civilizações” ou o contexto é o de uma elite que, longe de ser conservadora como outrora, se não provoca os fatos direta ou indiretamente, ao menos se vê beneficiada com a produção de certos acontecimentos? Este debate exige as condições que a comunicação acadêmica oferece, com suas modalidades de escrita extensa, referência teórica, inscrição pessoal e modos de exposição e avaliação.

O Twitter, ao contrário, inibe a possibilidade do debate pelo contexto, porque suas condições são a brevidade do enunciado, sua abertura interpretativa, a desmesurada possibilidade de resposta, o anonimato e o estímulo de uma reação imediata, que deriva em uma opinião irreflexiva. Sob estas condições, o que se reivindica é um enunciado cuja justificativa, compreensão e resposta não exija mais do que outro enunciado do mesmo tipo.

As novas tecnologias geram, mesmo que sutis, diversos mecanismos de uso, ingresso e permanência. O desafio é aprender utilizá-los, aproveitando as possibilidades que abrem, como a de divulgar conteúdos alternativos ou dar voz a quem de outro modo não a tem. O paradoxo do tweet de Saintout foi que mencionou, seguindo as modalidades formais dos novos meios de comunicação, a palavra cujo conteúdo estes excluem: “contexto”. Submeteu-se assim, sem pretender, à implacável utilização política de seus ditos.

A ampliação e democratização dos meios de comunicação devem ser acompanhadas por uma indagação profunda sobre os limites e potencialidades de cada um deles. A mesma que se deve ter quando são utilizados politicamente, por mais louváveis que sejam suas pretensões. Por mais justificadas e contextualizadas que as argumentações estejam.

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