Índios dos EUA levantam dúvidas sobre a santidade de Junípero Serra

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23 Janeiro 2015

junipero-serraPor gerações, alunos da quarta série das escolas da Califórnia, muitas vezes com a ajuda de seus pais, constroem modelos das missões, feitas de cartolina ou cubos de açúcar, para celebrar o padre Junípero Serra (foto) e as comunidades religiosas que ele estabeleceu ao longo da Costa Oeste dos Estados Unidos no final de 1700.

A reportagem é de Carol Pogash, publicada no sítio do jornal The New York Times, 21-01-2015. A tradução é de Claudia Sbardelotto.

Na semana passada, o Papa Francisco anunciou planos de canonizar o padre Serra, colocando "o evangelizador do Oeste nos Estados Unidos" mais perto da santidade.

Em nossos dias, o pregador piedoso que uma vez andou por onde agora é a Califórnia, levando o cristianismo para os índios norte-americanos, é visto em termos menos benevolentes.

Proeminentes nativos norte-americanos veem o padre Serra longe de ser santo. Suas reações são tão viscerais quanto a disputa sobre o território ocupado no Oriente Médio. Historiadores e autores indígenas culpam o padre Serra pela supressão de sua cultura e pelas mortes prematuras de milhares de seus antepassados nas missões.

"Eu tinha grandes esperanças com este papa, que tem feito algumas declarações em favor da justiça social", disse Deborah A. Miranda, índia Ohlone Costanoan Esselen e professora de literatura americana na Washington and Lee University, em Lexington, Virginia.

"Serra não trouxe apenas o cristianismo. Ele o impôs, sem nos dar escolha sobre o assunto. Ele fez danos incalculáveis para toda uma cultura". disse Miranda, autora de "Bad Indians", referindo-se a seus antepassados e ao que ela chamou de "mitologia das missões".

"Se ele for elevado à santidade", disse Nicole Lim, diretora executiva do Museu do Índio e Centro Cultural da California em Santa Rosa, "então ele deve ser responsabilizado pelo tratamento brutal e mortal dos povos nativos". Lim, índia Pomo, mantém um site para estudantes que, segundo ela, tem como objetivo corrigir a desinformação.

Nascido em Maiorca em 1713, o padre Serra ingressou na ordem franciscana em 1730. Ele tornou-se um eminente professor de teologia antes de abandonar sua vida confortável para evangelizar nas Américas. De 1769 a 1835, 90.000 índios foram batizados ao longo da costa oeste, de San Diego a San Francisco. Uma vez batizados, eles não eram autorizados a deixar as missões, e aqueles que escapavam, eram procurados por soldados e retornavam.

Os índios foram forçados a abandonar suas línguas, vestimentas, religião, alimentação e costumes matrimoniais. Milhares de pessoas morreram pela exposição a doenças europeias, pois não tinham imunidade. Dos cerca de 310 mil índios em 1769 naquela que hoje é a Califórnia, apenas um sexto ainda existiam 100 anos mais tarde, de acordo com um historiador da Universidade da Califórnia.

Os nativos norte-americanos queixam-se não só de sabotagem cultural, mas também do que eles chamam de romantização da verdadeira história das missões feita pelas escolas, Igrejas e meios de comunicação.

Eles ficaram especialmente apreensivos quando, em 1986, a diocese católica de Monterey, na Califórnia, onde o padre Serra está enterrado na Missão Carmel, divulgou um relatório que não indicava indícios de maus tratos indígenas. Embora os pesquisadores diocesanos disponibilizaram depoimentos de historiadores e do clero, nenhum índio foi entrevistado.

Desde então, historiadores têm realizado mais pesquisas. Steven W. Hackel, professor de história na Universidade da Califórnia, Riverside, e autor de "Junipero Serra: California's Founding Father", disse que o padre Serra "foi um homem do seu tempo", que considerava que os índios eram incapazes de se governar ou, por exemplo, escolher um cônjuge.

Os franciscanos tomavam essas decisões pelos índios, disse Hackel. "Eles eram forçados a ficar ou eram trazidos de volta por soldados", disse ele. "Os índios sentiam que isso era uma forma disruptiva e coerciva de escravidão. Os franciscanos viam isso com uma luz diferente".

Albert Camarillo, professor de história americana na Universidade de Stanford, disse que muitos católicos enxergam os "milhares de índios que foram cristianizados e 'civilizados'" como uma história de "benevolência, bondade e altruísmo". Muitos índios veem a "colonização caracterizada pelo tratamento brutal dos nativos, pelo trabalho forçado e pela opressão racial", disse ele, acrescentando que a canonização do padre Serra não irá parar o debate.

O arcebispo Salvatore J. Cordileone, de San Francisco, que considera que o padre Serra foi aquele que trouxe "o cristianismo para esta parte do mundo", disse que entendia por que os índios estavam chateados e reconhece as chicotadas e o ambiente coercivo. Mas os missionários também educaram e trouxeram a agricultura, disse ele.

Ao longo da história, uma civilização mais poderosa "vai dominar e procurar transformar a mais fraca", disse o arcebispo Cordileone. "As potências europeias estavam vindo para descobrir este continente e se estabelecer por aqui. Os povos indígenas teriam ficado em melhor situação com os missionários ou sem os missionários? Eu diria que eles teriam ficado em melhor situação com os missionários".

A Missão Dolores, localizada no Mission District, em San Francisco, foi fundada pelo padre Serra em 1776. Feita de adobe e madeira, a igreja branca e simples confina um jardim e um cemitério de oblíquas lápides de pessoas com nomes espanhóis e irlandeses. No meio do pátio, está uma estátua de um pensativo padre Serra. Recentemente, dois primos índios da tribo Ohlone e católicos sentaram-se próximos à sombra de uma oliveira. Andrew Galvan, historiador e curador da missão, e Vincent Medina, seu primo mais novo e assistente, oferecem uma visão contrastante do padre Serra.

Galvan disse que ele poderia ser o único índio na Califórnia que estava em êxtase com a perspectiva da santificação do padre Serra. Medina, por outro lado, disse que estava com raiva pelo fato de que um papa que ele admira elevaria alguém responsável por aquilo que ele chama de atrocidades.

Os dois concordam sobre os fatos: mais de 5.700 índios, muitos dos quais morreram prematuramente, estão enterrados na missão. Em uma vala sem marcação, estão os restos de 363 índios que contraíram sarampo dos europeus e morreram em menos de três dias em 1806. Todos estão enterrados onde agora estão os escritórios da igreja, uma escola e um estacionamento. O único indicador de suas mortes na missão é uma lápide fina de madeira que os primos instalaram.

"Se eu sei o que aconteceu com os meus antepassados, como posso ser devoto de Junipero Serra?", perguntou Galvan. "Eu sei que, por causa do colonialismo, as tradições de meus antepassados se foram".

E, no entanto, disse ele, "a minha família foi uma das primeiras que se tornou cristã" na missão. Galvan reconheceu que a crueldade havia sido promovida por lá, citando uma carta na qual o padre Serra ordenava chicotadas para os índios desobedientes. Mas o padre Serra, disse ele, continua sendo "minha inspiração".

Medina foi menos indulgente. "O padre Serra poderia ter ido contra a política da Igreja e defendido os povos indígenas", disse ele. Canonizar "o líder do sistema genocida e desastroso das missões da Califórnia é uma forma de a Igreja legitimar ainda mais a dor e o sofrimento dos Ohlone e de inúmeros outros índios da Califórnia". A canonização irá apenas aprofundar a divisão entre nativos norte-americanos e a Igreja Católica Romana, disse ele.

Quando ele oferece passeios guiados pela missão, Medina diz para os alunos "imaginarem que estão andando para casa da escola, e as pessoas tomaram as coisas que você gosta e fizeram você mudar seu nome, sua religião e sua língua". Ele lhes poupa as informações mais brutais, tal como a forma como as meninas e as mulheres solteiras eram arrancadas de suas famílias e obrigadas a dormir em quartos apertados até que se casassem.

Muitas missões não gostam de lidar com a questão indígena e são até mesmo hostis em relação aos visitantes indígenas, disse Galvan.

Robert M. Senkewicz, professor de história na Universidade de Santa Clara, disse que a história das missões foi um pouco distorcida.

"Estas eram, em grande parte, comunidades indígenas", disse Senkewicz, coautor de "California, Indians and the Transformation of a Missionary", a ser publicado no próximo mês. "Na forma como as missões contemporâneas são apresentadas, os índios estão ausentes".

Lim, diretora do museu indígena, concordou que a história era imprecisa. "Entristece-me. Irrita-me", disse ela. "Quando ouvi dizer que o papa vai fazer isso, me fez pensar que as pessoas não estão dispostas a aceitar a verdade que temos. É desanimador".

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