Transexualidade. “Antes os meninos e as meninas que quebravam as normas eram joaninhas ou mulher-macho”. Entrevista com Lucas Platero

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Por: André | 20 Janeiro 2015

Lucas Platero (foto), Raquel de nascimento, é sociólogo, especialista em questões de gênero. Leciona em diversos programas universitários de sua área assim como em ciclos formativos de intervenção sociocomunitária. Recentemente, publicou Trans*exualidades (Ed. Bellaterra), um livrinho que, afirmam, “propõe-se a ser um instrumento para a mudança social”. Precisamente por isso, põe a ênfase na educação, oferecendo uma série de ferramentas para o trabalho de profissionais da educação e de intervenção sociocomunitária. Ele usa o termo “trans*” para enfatizar a diversidade de realidades. Tal é essa diversidade, que as ferramentas que oferece servem para romper estereótipos que afetam a todas as pessoas, em especial crianças e jovens, mais além de sua identidade sexual ou de gênero.

 
Fonte: http://bit.ly/14vtvQk  

A entrevista é de João França e publicada no jornal espanhol El Diário, 12-01-2015. A tradução é de André Langer.

Eis a entrevista.

Muitas pessoas se surpreendem ao ouvir falar de menores trans, seguramente pelos estereótipos existentes. Como explicaria a elas o que é a transexualidade?

Sempre houve meninos e meninas que saem das expectativas que suas famílias ou escolas têm. Às vezes, tem a ver com a capacidade corporal, com as habilidades ou a sexualidade, e neste caso, falamos da identidade de gênero. Nas escolas ou ludotecas sempre há meninos mais femininos ou meninas mais masculinas. Esta expressão pode ser algo temporário ou que não é especialmente intenso, mas para outros será uma atitude que, por sua persistência, duração e intensidade, tem uma qualidade distinta, pelo que vão necessitar de mais apoios, ao serem vulneráveis à discriminação.

Se pensamos na realidade dos menores, os espaços onde socializam são segregados por gênero; são os lavabos, os uniformes, as atividades... Caso queira inscrever-se em outro gênero diferente ao designado no nascimento, as normas sociais e institucionais o impedem e é castigado se as transgredir. Alguns professores chegam inclusive a perceber as pessoas trans* como pessoas conflitivas, precisamente porque rompem com essas normas, em vez de se colocarem que são as normas rígidas que causam as rupturas. Para algumas famílias, estas realidades trans* rompem com as expectativas que projetavam sobre seus filhos e devem se reconciliar, às vezes inclusive fazer um dueto, ajustando-se às necessidades que têm e, por sua vez, com as necessidades de seus filhos.

A definição não é simples.

As pessoas trans* o são na medida em que consideram que o são. Não me interessa tanto a questão diagnóstica, como o papel que a pessoa tem para decidir sobre sua própria vida, com os apoios do seu entorno. Assim, a tarefa dos adultos é acompanhar e ajudar para que a vida destas pessoas jovens seja o mais feliz possível, e não apressá-las na hora de afirmar sua identidade, porque são eles mesmos que têm que decidir. Interessa-me muito que isto surge dos próprios pais e mães, que assinalam que o importante é acompanhar, algo com que concordam também muitos profissionais e ativistas. As definições e os protocolos sobre como agir em espaços como as escolas ou os centros de menores é algo que os adultos se colocam para justificar a nossa atuação frente àqueles que prefeririam que fossem castigados ou corrigidos. Os rapazes, por sua vez, necessitam que os protocolos lhes permitam fazer algumas mudanças, para poder viver segundo suas necessidades. São coisas simples e concretas, é uma questão de lógica que um menino possa se chamar da maneira como quiser. Se não se sente identificado com o nome que colocam no seu DI, que problema há para chamá-lo com outro? Isto não acontece apenas com as pessoas trans*, mas é muito mais difícil mudar o nome legalmente ou conseguir que as pessoas respeitem sua identidade.

Não são apenas as pessoas trans que se veem afetadas por estas regras.

O sexismo faz mal aos homens e às mulheres, não apenas às pessoas que estão transitando ou são trans*. A masculinidade construída na competitividade, na agressividade ou certa feminidade das meninas recatadas, nos aprisiona em papéis de gênero muito limitados. Questionar a identidade corporal ou os papéis binários de gênero é importante, por exemplo, para que as meninas saibam que podem ser o que querem, ou que um menino não tem que ser o típico machão. Para mim, não se trata apenas de que não se discrimine as pessoas trans*, mas também de questionar estas normas tão rígidas, algo que beneficia todas as pessoas.

Nas escolas se educa em uma relação muito determinada entre sexo e gênero?

O currículo da educação infantil (menores de seis anos) contém um critério para avaliar se os meninos e as meninas identificam claramente qual é o gênero dos outros e o próprio. Começamos a experiência educativa aprendendo um binarismo muito ferrenho. Talvez fosse preciso colocar-se a necessidade destas exigências e a importância de encontrar-se com outras experiências educativas com professores que vão além do currículo oficial e que respeitam as necessidades dos meninos e das meninas.

E como se deve responder a esse binarismo?

É importante que as meninas e os meninos tenham um imaginário com muitas referências e maneiras diversas de estar no mundo, que permite pensar-se de uma maneira mais plural. Pensemos que o interesse de separar o que é de menina ou de menino contém uma clara pressão consumista, sobre o uso do rosa para meninas ou dos brinquedos de ação projetados para meninos; diferenciá-los serve para criar espaços de mercado. Você não pode usar a bicicleta rosa da sua irmã porque não é apropriado para um menino. Quem diz uma bicicleta, diz um suéter ou uma caneta.

Por outro lado, quero assinalar que há experiências em escolas que partem da comunicação entre famílias, professorado e estudantes, que colocam modelos não sexistas, que questionam a rigidez destes binarismos e que trabalham ativamente pelos direitos dos menores trans*, possibilitando sua transição ou criando espaços neutros ao gênero. Neste sentido, é vital reconhecer o trabalho das associações como Chrysallis ou AMPGIL na Catalunha, que estão fazendo um trabalho importantíssimo para que se respeite os rapazes.

A situação agora é diferente da de alguns anos atrás. Estamos melhorando?

Começamos a conceber outras realidades que antes não tínhamos presente, como é o fato de que os menores também têm gênero e sexualidade. Antes, todos os meninos e meninas que rompiam as normas eram joaninhas ou mulher-macho, mas agora os meios de comunicação e as redes nos oferecem mais imagens diferentes e possíveis. Agora estamos melhor, porque há pessoas trans* que são visíveis, que mostram que sua vidas são possíveis e diversas. Também há mais direitos, assim como uma maior visibilidade das famílias que defendem os seus filhos e filhas trans*, profissionais que querem inovar e rechaçam as terapias reparativas... Desejo pensar que estamos transformando a sociedade um pouquinho a cada dia.

Então, a chave está em conhecer outras realidades possíveis?

É fundamental que os rapazes conheçam outros que tenham situações parecidas, outras famílias e pessoas trans* adultas que possam ajudá-las a imaginar um futuro possível. Se você pensa que é o único trans* no mundo, o sentimento de solidão é muito grande. Se você conhece outros, pode aprender estratégias e pode compartilhar preocupações.

E nesta questão de conhecer outras realidades a internet exerceu um papel...

Sem dúvida! A internet tem um papel fundamental, tanto para o bem como para o mal. Por um lado, permite acessar informações sobre a transexualidade ou a sexualidade não normativa, conhecer outras pessoas em situações similares. E, por outro lado, a internet também serviu como ferramenta para fazer bullying, como no caso da jovem Carla de Gijón, a quem suas companheiras chamavam de “vesga” e “sapatão”, no qual houve a condenação das jovens que a induziram ao suicídio. Ou no caso da jovem norte-americana trans* Leelah Alcorn, que escreveu em seu blog sobre sua identidade e a falta de apoio de seus pais como motivos do seu suicídio. A internet e as redes sociais fazem parte do nosso tempo, serviram para que estas jovens se expressem e se produza uma mobilização de alcance mundial, que denuncia a violência que vivem os jovens por sua sexualidade e sua identidade de gênero.

Há também a parte negativa e todas as ferramentas das redes sociais podem ser usadas para assediar alguém. Tudo depende de como se usa os meios ao alcance. Imaginemos que alguém muito jovem coloca em um buscador palavras como “trans, transgênero ou transexual” e vai encontrar todo tipo de informação, desde leis, associações ou páginas pornô, o que coloca que é necessário produzir materiais específicos, e este é o objetivo que persigo com o livro Trans*sexualidades.

Estão sendo produzidos estes materiais específicos?

Estão sendo feitas algumas coisas e entre todos vamos tecendo uma rede de recursos. Quem está na tarefa de produzir livros e materiais têm a responsabilidade de fazê-lo muito bem, porque há uma grande necessidade de saber e ainda poucos materiais. Há pouco, o jornal Diagonal publicou uma entrevista sobre o nosso livro e várias pessoas já nos escreveram agradecendo, mostrando a necessidade de falar deste tema.

Por outro lado, tenho claro que a informação é muito importante, mas não é suficiente; saber que a transexualidade existe não é suficiente. Em nosso livro há definições para entender as realidades trans*, mostra-se o marco legal e médico, incluem-se também os testemunhos de muitas pessoas. Mas é preciso dar um passo além, é preciso denunciar a transfobia e a discriminação que ainda existem, temos que facilitar para que as pessoas adquiram mais habilidades para entender e conviver com as pessoas existentes. Com este objetivo, o livro contém propostas para a intervenção social que incluem a prevenção e a atuação frente à transfobia, assim como atividades para realizar em grupo e recursos que permitem abordar nossas atitudes e aprofundar com materiais acessíveis (literatura infantil, ensaios, audiovisuais, cinema, etc.).

Você também pôde conhecer muitas realidades com o livro.

O fato de ter feito este livro me levou a fazer um grande trabalho de pesquisa e tem sido uma experiência fantástica! Conversei com pessoas trans*, suas famílias, os profissionais que trabalham com pessoas trans* e com ativistas trans*. O que mais chama a atenção é a heterogeneidade que encontrei. As pessoas trans* entrevistadas são trabalhadores de setores muito diferentes, alguns são pais e mães, outros são meninos e meninas muito pequenos, que se perguntam por sua identidade, ou então são pessoas muito maiores que refletem sobre como suas vivências mudaram ao longo do tempo.

Foi muito esclarecedor ouvir e conhecer meninas e meninos de cinco ou seis anos que vão buscando as palavras para poder se expressar, para construir-se em relação com o seu entorno e poder constatar os esforços que suas famílias fazem para ouvi-los.

Foram quatro anos de entrevistas com pessoas muito diferentes e de aprender a não julgar as pessoas: desde quem se considera “mulher de verdade”, até quem afirma que os papéis de gênero que temos não funcionam. Encontrei-me com uma grande heterogeneidade, por isso gosto de falar de realidades trans* com asterisco, porque há identidades e vivências muito diversas. Interessa-me precisamente essa noção plural da transexualidade. Nem todas as pessoas transitam de um gênero a outro; algumas simplesmente rechaçam o gênero designado no nascimento. E é precisamente com o asterisco que quero assinalar esta diversidade, ao mesmo tempo que também podem encontrar consenso na luta contra a discriminação.

Você fala da importância de ouvir, que é precisamente um dos direitos da infância.

Não respeitar a identidade de gênero ou a necessidade de um menino ou menina de expressar com respeito sua identidade é uma violação dos direitos da infância, assim como o artigo 10 da Constituição sobre o livre desenvolvimento da personalidade. Muitas vezes se esgrime que temos que impedir que os jovens expressem sua identidade discordante pelo próprio “bem do menor”, que é um argumento para aplicar o castigo ou enviar o menor para uma terapia reparativa, para que sejam “como devem ser”. Isto é terrível, porque estamos mandando uma mensagem muito clara de que a pessoa está doente, é errônea, está mal e não é querida. Esta resposta negativa tem um impacto brutal em sua vida e na relação que constrói com sua família e seu entorno. O bem do menor supõe acompanhá-lo em seu crescimento, ir provando e deixar que se expresse.

Por outro lado, também é uma vivência que pode ser difícil para as famílias, que precisam reformular suas expectativas. Por minha experiência, há muitos pais que estão muito dispostos a ouvir e aprender, ao mesmo tempo que seus filhos. Os pais têm que entender que não são eles que têm filhos, mas que são os filhos que têm pais.

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