Ética e complexidade: entre uma centralidade redescoberta e a busca de um diálogo. Artigo de Piero Dominici

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16 Janeiro 2015

A pesquisa sobre a ética e os valores sociais e, em outro plano, a busca de uma ética compartilhada são, talvez, as respostas mais significativas para a nova complexidade social, cada vez mais fugaz e ambígua.

A opinião é do sociólogo italiano Piero Dominici, professor da Universidade de Perugia, em artigo publicado no seu blog Fuori del Prisma, 11-09-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Além das questões relativas, de um lado, à política, à sociedade civil e à esfera pública (corrupção, legalidade, familismo amoral, cultura da esperteza, irresponsabilidade, transparência, ética pública etc.) e, de outro, as importantes descobertas científicas traduzidas em inovação tecnológica, a reflexão sobre a ética – muito "falada", promovida e discutida, não só em nível midiático, pouco praticada (coerência dos comportamentos e questão cultural) – parece ter voltado à atualidade e a ser reproposta, além de como uma das questões sociais e políticas centrais (para não dizer, talvez, a mais importante pelas repercussões e implicações), também como "objeto de estudo" (e, espera-se, também de pesquisa), não apenas para as diversas disciplinas humanísticas, mas também – e essa talvez seja a novidade, especialmente da forma como ocorreu – para as científicas.

Uma centralidade redescoberta que, sem dúvida, afunda as suas raízes no advento da Modernidade [1] – e do projeto iluminista, que constituiu o seu substrato ético e cultural –, uma fase histórica de mutação global dos sistemas e dos processos culturais e produtivos que, mesmo na sua complexidade e ambivalência, já apresenta, a meu ver, os "gérmens" daquela que, posteriormente, seria chamada de sociedade do conhecimento (2003).

Uma época caracterizada pela crise das ideologias, pelo colapso de todas as utopias que tinham se posto como objetivos fundamentais a criação de uma humanidade nova, de um indivíduo "perfeito", autônomo e consciente até o fim, mas também de uma sociedade ideal fundada na ciência e técnica, e nos valores da razão e do progresso; mas, sobretudo, uma época marcada pela desconstrução, pela crítica radical (operada por todo o pensamento do fim do século XIX e início do século XX) e pela refutação de todos os dogmas, incluindo os da ciência, até então aceitos totalmente e (quase) nunca postos em discussão.

O pensamento moderno e contemporâneo parece afundar as suas raízes justamente na tomada de consciência da fraqueza dos tradicionais sistemas de orientação de valor e de conhecimento; na consciência de que não existem mais conhecimentos indiscutivelmente exatos, culturas hegemônicas e/ou predominantes, valores absolutos, verdades incontroversas, mas sim conhecimentos probabilística e estatisticamente confiáveis (válidos), valores relativos, explicações e análises da complexidade múltiplos.

Além disso, tais dinâmicas são acelerados justamente graças à contribuição determinante das chamadas ciências exatas, que fornecem seiva vital para todos os saberes no seu percurso de autocrítica e de redefinição das fronteiras disciplinares e do método empírico. Trata-se, fundamentalmente, de uma crise da racionalidade ocidental e dos modelos de sociedade por ela produzidos.

Por outro lado, a ciência, servindo-se da técnica, seu "braço armado", escancarou diante da humanidade horizontes impensáveis e inimagináveis na práxis do agir individual e coletivo. A partir de tal divaricação, surgiram novas instâncias éticas e morais, novas problemáticas que põem em sérias dificuldades a decisão individual e/ou política: diante de tal (hiper)complexidade, como e onde se colocam as ciências sociais? Como devem se colocar em relação aos problemas éticos e/ou morais, à questão crucial dos "valores" que orientam o comportamento individual (e coletivo) e que, inevitavelmente, têm repercussões sociais dificilmente quantificáveis ou avaliáveis empiricamente (pense-se no tema da ética pública)?

Até porque a ética e as ciências sociais, antigamente, se frequentavam (basta pensar nos grandes clássicos da área sociológica, da ciência política e econômica). Depois, o objetivo crucial de se apresentarem/credenciarem – e, acima de tudo, serem percebidas e reconhecidas – como ciências criou uma distância que ainda custa a diminuir. E isso, também paradoxalmente, a partir do momento em que, há algum tempo, justamente as ciências "exatas" estão cada vez mais progressivamente tomando consciência do substrato ético sobre o qual se fundamentam.

A esse propósito, reiteramos a absoluta urgência de superar distinções como essa, que apenas produziram danos e atrasaram o caminho, também social, de produção e distribuição do conhecimento (inclusão social). Em outras palavras, é preciso retomar um diálogo complexo, mas possível, ou, melhor, desejável especialmente quando se considera a relevância das dimensões do risco/incerteza e da vulnerabilidade dentro dos sistemas e das organizações.

Max Weber, consciente da impossibilidade de um conhecimento realmente avaliativo, evidenciou como justamente a mutação ética, mais do que a tecnológica, determina/desencadeia a social (como destacado várias vezes, as causas dos fenômenos são sempre múltiplas, e é preciso evitar explicações reducionistas e determinísticas).

O próprio Émile Durkheim destacou magistralmente como é sempre uma base moral que torna possíveis a integração e a coesão de um sistema social, mesmo o mais complexo.

Por outro lado, embora com perspectivas diferentes, grande parte da literatura científica, não só sociológica – na análise do indivíduo e no estudo das motivações mais profundas que o levam à ação – converge inequivocamente sobre a questão crucial da ética e dos valores compartilhados.

Os princípios éticos (e/ou morais), os valores, dentro das sociedades humanas (mas o também vale para as organizações, que trabalham tanto na definição de uma cultura organizacional justamente por esses mesmos motivos), desempenham, em primeiro lugar, a função fundamental de garantir o consenso (que muitas vezes se traduz em conformismo), assegurando a previsibilidade dos comportamentos, além da formação, do fortalecimento e da partilha de uma visão do mundo comum e compartilhada.

No entanto, a cultura (e os modelos culturais), embora desempenhando a função essencial de atribuir sentido e significado à realidade, tornando-a – como dito – interpretável e aparentemente previsível, às vezes até reconfortante, também conserva em seu interior os elementos da sua contradição (alguns falariam de "gérmens"), que permitem que os atores sociais ponham-na em discussão, até negá-la e negar as suas formas e objetivações.

Portanto, esses mesmos valores/princípios não pertencem a uma esfera que poderíamos definir como metafísica, mas, ao contrário, estão intimamente conectados a um complexo processo de aquisição intersubjetiva, ligado, por sua vez, à existência concreta e à prática dos indivíduos (historicamente determinada), ao grupo de referência e às suas comunidades de pertença, em relação a qual deveríamos ser responsáveis, isto é, responder pelas próprias ações.

Portanto, é possível estudar a ética partindo dos pressupostos próprios das ciências sociais? Nós estamos evidentemente convencidos de que sim, justamente pelo vínculo indissolúvel existente entre esses mesmos princípios éticos (e morais) e os contextos histórico-sociais em que nascem, são elaborados e se difundem, até se cristalizarem nas normas jurídicas; que, lembremos, representam também uma resposta de tipo cultural a reivindicações e problemáticas socioculturais das quais brotam as formas de conflitualidade, próprias da sociedade hipercomplexa (2003-2005).

A pesquisa sobre a ética e os valores sociais e, em outro plano, a busca de uma ética compartilhada são, talvez, as respostas mais significativas para a nova complexidade social, cada vez mais fugaz e ambígua.

Nota:

1. Na infindável literatura sobre a modernidade e sobre as múltiplas dimensões que a constituem, eu me limito a assinalar: J. Habermas (1985), Der philosophische Diskurs der Moderne. Zwölf Vorlesungen, Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag, tradução italiana: Il discorso filosofico della modernità, Roma-Bari: Laterza, 1987; M. Berman (1982), All that is Solid Melts into Air. The Experience of Modernity, New York: Simon and Schuster, tradução italiana: L’esperienza della modernità, Bologna: Il Mulino, 1985; Z. Bauman (2000), Liquid Modernity, Oxford: Polity Press Blackwell Publishers Ltd., tradução italiana: Modernità liquida, Roma-Bari: Laterza, 2002.

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