Charlie Hebdo e a moral dupla do Ocidente

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13 Janeiro 2015

"A sociedade civil precisa abrir os olhos e se mobilizar para impedir que esse atentado seja instrumentalizado pela extrema-direita, que já se movimenta para avançar na agenda bélica e xenófoba. Como diz o brilhante professor Chomsky, a melhor forma do ocidente combater o terrorismo é deixar de promovê-lo", Rennan Martins, blogueiro e editor do portal Desenvolvimentistas.

Seundo ele, "no mesmo dia do ataque à Charlie Hebdo, a Agência Efe informa que os jihadistas do Boko Haram mataram centenas de pessoas na cidade de Baga, nordeste da Nigéria. Onde estão o repúdio e horror das autoridades? As vítimas nigerianas são de menor valor?"

Eis o artigo.

A França e o mundo assistiram em choque o ataque de extremistas à redação do semanário satírico Charlie Hebdo. Armados de fuzis AK-47, dois homens que o governo francês alega serem franco argelinos invadiram a sede da publicação por volta das 11:30 locais e assassinaram oito jornalistas, dois policiais, um visitante e um transeunte que se encontrava nas imediações do prédio.

No momento que traço estas linhas a imprensa corporativa dá ampla cobertura ao cerco que a polícia francesa fez a fábrica onde dizem estar os suspeitos com reféns. A ostensiva busca realizada nas horas subsequentes mobilizou 88.000 homens das forças de segurança.

Conhecida por um humor corrosivo e politicamente incorreto, Charlie Hebdo possui cerca de três décadas de história na qual publicou charges que atingem e por vezes ofendem a diversos setores da sociedade. Apesar de ligada à extrema-esquerda, a revista muitas vezes se alinhou a pura intolerância em desenhos islamofóbicos e anti-minorias.

Independente do quão desrespeitosos e ofensivos eram os cartoons, é fundamental deixar claro que este atentado é injustificável, monstruoso e que só alimenta ainda mais a violência. Essencial também é lembrar que o terrorismo islâmico mata sobretudo os próprios muçulmanos. Em entrevista à Revista Fórum, o professor de Relações Internacionais da PUC-SP, Reginaldo Nasser, explana:

“No ano passado, foram 18 mil pessoas mortas no mundo por atentados terroristas – são dados oficiais. Quantas pessoas morreram na Europa? Nenhuma. Quantos atos terroristas foram praticados por islâmicos na Europa? Nenhum. Houve vários atentados terroristas na Europa, classificados oficialmente como terrorismo, a grande maioria atribuída a grupos separatistas, e nenhum islâmico. Há um exagero da ameaça islâmica. Há muito preconceito e pouca informação.”

Preocupante, no entanto, é a postura das lideranças ocidentais e a narrativa promovida pela imprensa hegemônica. A abordagem das autoridades e dos veículos evidencia o quão hipócrita e circunstancial é a moral em voga.

Todo o teatro teve reinício e mais uma vez se fala nos EUA e aliados como baluartes da democracia e justiça, restando ao “mundo islâmico” o papel de povo que inveja nossas “liberdades”. A Globo News gasta longos minutos falando de controle de fronteiras, fazendo o jogo fácil de colar na testa do estrangeiro a alcunha de mal. Ora, os suspeitos Chérif e Said Kouachi nasceram na França, são apenas descendentes de árabes. No que o recrudescimento da fiscalização auxiliaria?

É preciso evidenciar os dois pesos e medidas com que a OTAN trata o terrorismo, o uso político que fazem do fenômeno. A população tem o direito de saber que o ocidente tem parte e alimenta o terror quando este convém a seus objetivos geopolíticos.

A Al Qaeda era insignificante até serem financiados e treinados, ainda nos anos 80, pela inteligência norte-americana. Enquanto as ações do talibã serviam aos interesses de desestabilizar o arquirrival, à época a URSS, Bin Laden era retratado como guerreiro da liberdade.

A grande mídia não é exemplo de independência, pratica autocensura e até mesmo espalha mentiras quando estas servem ao Poder. Não nos esqueçamos que a Guerra no Iraque foi legitimada por diversos boatos sobre inexistentes armas de destruição em massa amplamente veiculados por nossos “jornalistas”. Esta intervenção vitimou mais de 110.000 civis.

O Estado Islâmico ganhou poderio e atualmente se consolida, mas somente teve condições para isso após os EUA e as monarquias sunitas locais os financiarem largamente no intuito de que a desestabilização promovida gerasse dividendos geopolíticos e econômicos. O EI só se tornou uma ameaça a civilização após passarem a atuar em regiões inconvenientes.

No mesmo dia do ataque à Charlie Hebdo, a Agência Efe informa que os jihadistas do Boko Haram mataram centenas de pessoas na cidade de Baga, nordeste da Nigéria. Onde estão o repúdio e horror das autoridades? As vítimas nigerianas são de menor valor?

A sociedade civil precisa abrir os olhos e se mobilizar para impedir que esse atentado seja instrumentalizado pela extrema-direita, que já se movimenta para avançar na agenda bélica e xenófoba. Como diz o brilhante professor Chomsky, a melhor forma do ocidente combater o terrorismo é deixar de promovê-lo.

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