Permanecer na Síria debaixo das bombas foi "prova de fé", afirma padre

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18 Dezembro 2015

O monge faz parte da comunidade de Deir Mar Musa, fundada pelo Pe. Dall'Oglio. Ele viveu na pele a guerra civil síria e "o que realmente significa ter fé ou não. Discutíamos todos os dias entre os monges se devíamos permanecer na Síria. Permanecemos em solidariedade com os nossos amigos cristãos e muçulmanos, mas não para ser mártires a todo o custo". Os religiosos acolheram 50 famílias muçulmanas em fuga da guerra e reformaram 63 casas de cristãos, destruídas pelos bombardeios em Nebek.

A reportagem é da agência AsiaNews, 14-12-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Permanecer na Síria apesar da guerra e dos bombardeios "foi, para mim, a prova da fé. Eu sabia o que isso significava em teoria, mas nunca tinha experimentado na minha pele. Eu realmente vivi o que significa ter fé ou não, crer ou não. A dúvida sempre se apresentava, diante do sofrimento das pessoas, dos amigos, diante da destruição das cidades".

Com essas palavras, o Pe. Jihad Youssef, monge da comunidade de Deir Mar Musa, conta a sua decisão de não deixar a sua terra, ao falar em Roma em um encontro organizado pela Associação Amigos de Deir Mar Musa, em colaboração com o Centro Astalli e a Fundação Magis.

O Pe. Youssef é membro da comunidade fundada em 1991 pelo Pe. Paolo Dall'Oglio na Síria, que agora tem quatro mosteiros. A primeira fundação, onde até setembro o Pe. Jihad morou, é a de Deir Mar Musa, que surge no deserto a 80 quilômetros de Damasco. No mosteiro, há três monges e quatro monjas, que baseiam a sua vocação na oração, no trabalho manual e na hospitalidade, para construir a harmonia entre islâmico-cristã.

O monge siro-católico fala das fases mais dramáticas do conflito sírio, que o tocaram de perto: "Em 2013, houve o cerco de Nebek, a cidade mais próxima do mosteiro de Deir Mar Musa, a cerca de 17 quilômetros de distância. Nós e os nossos amigos da cidade passamos 25 dias que foram mais longos do que 25 anos, trancados nos porões. As nossas cidades, na realidade, não são construídas para enfrentar a guerra: não temos verdadeiros porões antibombas. A Providência nos deixou o uso do telefone no mosteiro, de modo que podíamos, de vez em quando, ouvir os nossos amigos em Nebek".

"Quando a batalha acabou – continua o Pe. Jihad – descemos para a cidade e vimos a destruição, especialmente do bairro cristão (um dos mais altos de Nebek, severamente bombardeado). Pensamos: 'Se não consertamos as casas dos nossos paroquianos, eles vão embora'. Graças a Deus, com a ajuda de três organizações católicas europeias, fizemos um projeto. Imediatamente nos deram resposta positiva e, dentro de quatro a cinco meses, conseguimos restaurar 63 casas no bairro cristão e também alguns edifícios no bairro muçulmano."

O Pe. Youssef conta que não foi fácil decidir ficar na Síria, depois de ver tanta destruição: "Naquele período, permanecer em Mar Musa era objeto de debate cotidiano entre monges e monjas: ficar, não ficar, o que estamos fazendo aqui, vão vir nos matar, roubar... Ficamos, decidimos permanecer por um simples motivo: porque fizemos um discernimento cotidiano e, nesse discernimento, não digo que Deus nos disse para ficar, mas não nos disse para ir embora. Permanecemos em solidariedade com os nossos amigos de Nebek, cristãos e muçulmanos, e a nossa presença ali foi acolhida por eles como um sinal de esperança, de autenticidade da mensagem de paz e de fraternidade que pregamos por 20 anos".

A prova da fé "foi o desafio mais difícil que passamos na comunidade: mais do que as bombas. Porque toda a nossa fé em um Deus que socorre os seus tinha acabado em nada. Parecia que Deus não nos ouvia, não conseguíamos entender a Sua vontade. Sempre havia na minha mente um interlocutor imaginário que me dizia: 'Eis, vocês, cristãos, não são bons para fazer nada, não são capazes de tomar uma verdadeira posição que dê frutos imediatos. Vocês se refugiam em um Deus que vocês inventaram, vocês, à la Feuerbach'. No entanto, nós optamos todos os dias por acreditar, por confirmar as promessas do nosso batismo. Dissemos: 'Senhor, nós acreditamos, fortalece a nossa fé'. O sinal concreto da presença de Deus na nossa vida era um sentimento comum: de que não estávamos sozinhos. As orações de vocês e as dos amigos chegavam, tanto de cristãos quanto de muçulmanos".

"Em alguns momentos de angústia – confessa o Pe. Youssef – eu entendi com que sentimentos uma pessoa deixa tudo e vai embora, tomando o caminho do mar, enfrentando uma morte quase certa. Nós sempre dizíamos: os cristãos devem permanecer no Oriente Médio, agarrados às suas raízes. Isso é certo, mas, naqueles momentos, eu entendi que o medo faz com que você chegue até lá, até se desarraigar."

"Quem permanece na Síria – destaca o monge – deve ter uma missão e deve entendê-la. Deve ser convencido, não condenado a permanecer. Muitos estão condenados a permanecer ou porque são pobres demais ou porque não querem arriscar a morte no mar. Quem permanece deve ter uma missão, porque o batismo é uma missão."

A missão da comunidade de Deir Mar Musa sempre foi a de um diálogo de amizade com os muçulmanos. "Queremos ser uma presença para o mundo islâmico – afirma o Pe. Jihad –, não ao lado deles, não diante deles, mas para os muçulmanos. Amar os muçulmanos, ter a curiosidade positiva de conhecê-los, entender aquilo em que eles acreditam, aquilo que fazem, como disse São Francisco na regra não bulada: 'Vão entre os sarracenos'. Confessando humildemente que somos cristãos, não fazendo proselitismo, mas esperando que o Espírito Santo sugira e prepare o terreno."

Nesses anos, em colaboração com o JRC (Jesuit Refugee Center) e com a Cáritas, os monges de Deir Mar Musa fizeram um "trabalho humanitário para todos, cristãos e muçulmanos, na zona do mosteiro de Mar Elian, onde o Pe. Jacques Mourad era monge sozinho. Ali, recebemos por três meses 50 famílias muçulmanas, com mulheres, crianças e idosos, porque não tinham nada. Quando chegaram, eles tinham perdido muitos entes queridos e tinham apenas as roupas do corpo. Foram acolhidos no mosteiro, onde as crianças brincavam e iam para a escola. Esse trabalho é indispensável, mas mesmo isso não é suficiente. Mas esse trabalho deu frutos, porque eu posso dizer que os cristãos e os muçulmanos da cidade, quando falam do nosso mosteiro e da nossa comunidade, dizem 'os nossos monges, o nosso mosteiro'".

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