A história secreta do Jesus de Pasolini

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06 Novembro 2015

O intelectual de Friuli, na Itália, morreu há 40 anos, no dia 2 de novembro. Queremos lembrá-lo voltando a uma das suas obras mais significativas: O Evangelho Segundo Mateus, que, recentemente, o jornal L'Osservatore Romano definiu como "talvez a melhor obra de Jesus na história do cinema". Mas poucos sabem como o filme amadureceu na mente do diretor e conhecem o percurso de obstáculos que ele teve que enfrentar para vir à luz. Sem a mediação de um sacedote, provavelmente, ele nunca teria chegado às salas de cinema...

A reportagem é de Enzo Natta, publicada na revista Vita Pastorale, n. 7, de 2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Por ocasião do 50º aniversário da realização de O Evangelho Segundo São Mateus de Pier Paolo Pasolini, em Matera, na Itália, foi realizada uma mostra cuja intenção é a de restituir a história e os lugares do Evangelho através de uma narrativa audiovisual, tornada possível graças à montagem criativa de documentos, clipes de filmes, fotografias, pinturas, desenhos, entrevistas e materiais diversos.

O nascimento de O Evangelho segundo Mateus teve atrás de si uma história incomum, totalmente original. Normalmente, um filme tem a sua origem no financiamento produtivo que coroa e completa a elaboração de um projeto. No caso do Evangelho pasoliniano, no entanto, tratou-se de uma corrida com obstáculos, na qual foi necessário descartar uma sucessão contínua de dificuldades, driblar uma desconfiança após a outra, contornar perplexidades e tirar dúvidas sem fim. Um percurso de guerra, que começou com um dos costumeiros itinerários errantes de Pasolini.

Em uma dessas fugas, sabe-se lá como, sabe-se lá por que, um dia, Pasolini chegou em Assis quase sem perceber. À força de vagabundear, no dia 2 de outubro de 1962, encontrou-se perto da cidadezinha da Úmbria e, então, lembrou-se que, cerca de um mês antes, ele havia recebido um convite para participar de um congresso de cineastas convocado pela Pro Civitate Christiana. Sob o sinal daquele diálogo que antecipava a linha de fundo que caracterizaria o Concílio Ecumênico Vaticano II, a organização fundada pelo Pe. Giovanni Rossi costumava promover encontros com homens da cultura, intelectuais, empresários. Àquele convite, Pasolini tinha respondido de modo irritado: "Não suporto os fariseus, que usam a religião para os próprios interesses. Se eu for até vocês, irei quando o congresso estiver encerrado".

Ele já estava lá e dava no mesmo manter fé na sua promessa. Mas, um detalhe que ele não tinha previsto, naquele dia, a proverbial paz de Assis tinha sido posta à dura prova pela presença de João XXIII. Um acaso? Uma fatalidade que o escritor também se encontrasse por aquelas bandas?

De início, Pasolini sentiu o desejo de se misturar com a multidão e de ver o papa de perto, mas logo depois se deu conta de que sua presença seria uma distração para muitas pessoas e que o acusariam de buscar uma publicidade fácil. Então foi embora para a Cidadela da Pro Civitate, pegou um quarto e deitou-se na cama.

"Instintivamente, estendi a mão ao criado mudo, peguei o livro dos Evangelhos que estava no quarto e comecei a ler desde o início, isto é, a partir do primeiro dos quatro Evangelhos, aquele segundo Mateus. A ideia de um filme sobre os Evangelhos também tinha me vindo outras vezes, mas aquele filme nasceu ali, naquele dia, naquelas horas. O único, portanto, ao qual eu podia dedicar aquele filme não podia ser senão ele, o Papa João XXIII", contou Pasolini mais tarde.

Portanto, foi lá, no espaço acolhedor da Cidadela e naquele silêncio absoluto, que, para passar o tempo, o escritor tomou mecanicamente entre as mãos o Evangelho.

O encontro com as páginas de Mateus deixou uma marca, porque Pasolini voltou para a Cidadela outras vezes. A ideia de um filme inspirado no texto evangélico de Mateus estava plenamente amadurecida nele e, já convencido da sua escolha, falou a respeito com o fundador da Pro Civitate, o Pe. Giovanni Rossi, que por sua vez encarregou uma pessoa de confiança para acompanhar o projeto.

A pessoa de confiança era Lucio Caruso, jovem voluntário da Pro Civitate, de Nápoles, médico cirurgião que, nos anos seguintes, passaria um longo tempo na África, sempre pronto para prestar a sua obra desinteressada em zonas devastadas por guerras e epidemias.

Com Lucio Caruso, Pasolini estabeleceu uma copiosa correspondência. Em uma carta de fevereiro de 1963, ele evocava o dia em que tinha se hospedado na Cidadela, brincando sobre o fato de ter encontrado uma cópia do Evangelho na mesa de cabeceira. Uma espécie de armadilha, "um delicioso-diabólico cálculo de vocês", ironizava o poeta, embora sabendo que em cada quarto havia um Evangelho.

Mas logo depois acrescentava: "Sobre vocês, naquele dia, eu li tudo em sequência, como um romance. E, na exaltação da leitura, me veio, dentre outras coisas, a ideia de fazer um filme a respeito. Uma ideia que, a princípio, me pareceu utópica e estéril. Mas não...".

Passaram-se cerca de três meses. Pasolini agora tinha bem clara a ideia do filme e falou a respeito com Alfredo Bini, o seu produtor. Bini era um homem culto, inteligente, que gostava do risco e que, precisamente por isso, aceitou o desafio, embora sabendo que as dificuldades que um projeto como aquele iria encontrar. Um risco financeiro, mas ainda mais político e religioso. Porque, querendo ou não, Pasolini foi arrastado várias vezes para os tribunais, porque o seu nome era sinônimo de "escândalo" e por ser um marxista declarado. Como a Igreja reagiria?

Pasolini estava bem consciente do fato e se dirigiu ainda a Lucio Caruso. A partir de fevereiro de 1963, as visitas de Pasolini à Cidadela se tornam mais frequentes. Em maio, ele se dirige diretamente ao Pe. Giovanni Rossi, antecipando-lhe uma visita sua no fim de semana. Com o roteiro recém-terminado. O encontro anunciado se conclui com o projeto de uma viagem à Terra Santa.

Acompanhado por Lucio Caruso e pelo Pe. Andrea Carraro, um sacerdote da Pro Civitate, experiente biblista, entre os dias 27 de junho e 11 de julho de 1963, Pasolini fez uma inspeção naquela parte da Palestina que foi testemunha das vicissitudes terrenas de Jesus Cristo. O resultado foi um documentário em que as notas do diário se entrelaçam com o olhar da alma: "Itinerários evangélicos na Palestina".

No retorno à Itália, o filme começa a ganhar forma. Mas, como previsto, outros problemas surgem para tornar mais difícil o seu caminho. Não problemas financeiros, porque Alfredo Bini encontrou um coprodutor francês e porque a seção de Crédito Cinematográfico do BNL não tem nenhuma dificuldade para abrir os cordões da bolsa diante de uma proposta desse tipo, mas por motivos que alguns não hesitam em definir como diplomáticos, se não até como "oportunismo político".

Em outras palavras, sem um sim do Vaticano, nem um ministro socialista (na Via della Ferratella, sede do Ministério de Turismo e do Espetáculo, estava para tomar posse Achille Corona, signatário da lei que ainda hoje governa a matéria cinematográfica na Itália), teria comprado a briga.

O problema a ser resolvido é encontrar o terceiro lado do triângulo. O primeiro é o projeto do filme (um Evangelho secular, concebido segundo a estética e a poética de um autor difícil e discutido como Pier Paolo Pasolini, bem consciente de que muitas pessoas que o desprezam e o detestam faria qualquer coisa para obstaculizar os seus propósitos); o segundo é o patrocinador que o apoia e promove (a Pro Civitate do Pe. Giovanni Rossi, um santo homem, mas talvez excessivamente confiante na bondade fundamental da natureza humana). Assim, faltava o terceiro lado do triângulo: o mediador institucional entre a Pro Civitate e a Santa Sé.

Em suma, a figura de um fiador que garantisse a plena ortodoxia da operação, assumindo toda a responsabilidade. Nesse ponto, entra em cena o homem certo que ocupa o lugar certo. O homem da Providência, no caso, é o Pe. Francesco Angelicchio.

Três anos antes, em 1960, o Pe. Angelicchio tinha sido nomeado diretamente pelo Papa João XXIII como consultor eclesiástico do Centro Católico Cinematográfico. O Pe. Angelicchio era aquele que se diz um homem de ação. Se assim não fosse, ele não teria ido à guerra usando o uniforme dos paraquedistas da Brigada Folgore e depois não teria participado ativamente da Resistência.

Ordenado sacerdote aos 34 anos, em 1955 ele tinha deixado para trás a atividade forense, que, como advogado especialista em direito cinematográfico, o levara a ocupar o cargo de secretário-geral da Acec (a Associação dos Cinemas Paroquiais, naqueles anos com mais de 5.000 salas no território italiano), um posto de responsabilidade que lhe permitira manifestar um caráter firme e forte.

Em poucos anos, o Pe. Angelicchio tinha conseguido arrastar a presença dos católicos no cinema de puro momento defensivo a medição crítica, a participação cultural, mas também a encontro e diálogo não apenas com as categorias profissionais, mas também com o mundo secular. O Centro Católico Cinematográfico, portanto, era a instituição natural que podia servir de ponte entre um movimento eclesial como a Pro Civitate Christiana e a Santa Sé.

Se o Centro Católico Cinematográfico tivesse expressado imediatamente um parecer negativo sobre o projeto, muito provavelmente o filme nunca teria sido feito. A estrada foi aplainada por aquele rolo compressor que era o Pe. Francesco Angelicchio, que várias vezes foi à Secretaria de Estado para defender a causa do filme e que começou uma densa correspondência em que rebatia palavra por palavra todas as perplexidades que, de vez em quando, colocavam-se no caminho.

Naquele ponto, o escritor-diretor lhe propôs para assumir o cargo de consultor religioso, mas o Pe. Angelicchio rejeitou a oferta motivando-a com o fato de que ele não era um biblista e, depois, não podia revestir ao mesmo tempo o papel de controlador e de controlado.

Em outras palavras, como responsável pela comissão de revisão do Centro Católico Cinematográfico (que avaliava os filmes e, consequentemente, os classificava a duplo intenção de informar os fiéis e de indicar os filmes que podiam ser apresentados nas salas paroquiais), ele não podia julgar o seu próprio desempenho. No entanto, o Pe. Angelicchio e Pasolini continuaram se ouvindo, se escrevendo, se encontrando e debatendo muitas vezes.

Terminadas as filmagens do Evangelho segundo Mateus, o Pe. Francesco apontou que eles haviam ignorado os milagres de Jesus Cristo, começando pelo maior: a ressurreição. Como resposta, Pasolini voltou ao set e filmou as cenas que faltavam. Assim, chegou-se à apresentação do filme na edição de 1964 da Mostra de Veneza, seguida por uma autêntica colheita de louros, entre os quais se destacavam o Grande Prêmio do Júri e o reconhecimento da crítica internacional e do OCIC (Office Catholique International du Cinéma) .

O selo final de fonte católica chegou poucas semanas mais tarde, quando – sempre na sede da Cidadela – um júri internacional, representando os cinco continentes e presidida por um bispo (o peruano Lucien M. Metzinger), atribuía ao Evangelho segundo Mateus o Grande Prêmio OCIC, que conferia o título de melhor filme do ano com base em uma seleção de candidatos que, nos vários festivais internacionais, tinham sido agraciados com o Prêmio OCIC. O melhor dos melhores, portanto, a partir de uma lista de filmes que "por inspiração e qualidade contribuem para o progresso espiritual e o desenvolvimento dos valores humanos".

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