Pobreza e misericórdia, duas chaves para seguir Jesus

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Por: Jonas | 23 Setembro 2015

Durante a celebração das vésperas com sacerdotes, consagrados e seminaristas, no dia 20 de setembro de 2015, na Catedral de Havana, o Papa Francisco novamente reforçou a centralidade da misericórdia no ministério sacerdotal: “não se cansem de perdoar, sejam perdoadores, não se cansem de perdoar, assim como fazia Jesus. Não se escondam atrás de medos e rigidezes”. Sua homilia é publicada no sítio da Conferência de Bispos Católicos de Cuba, 20-09-2015. A tradução é do Cepat.

Eis a homilia.

O cardeal Jaime nos falou de pobreza e a irmã Yaileny nos falou do pequenino, dos pequeninos: “são crianças”. Eu havia preparado uma homilia para agora, com base nos textos bíblicos, mas, quando falam os profetas – e todo sacerdote é profeta, todo batizado é profeta, todo consagrado é profeta –, prestemos-lhe atenção. E, assim, vou entregar a homilia ao cardeal Jaime para que faça chegar a vocês e a meditem. E, agora, conversemos um pouco sobre o que disseram estes dois profetas.

Ao cardeal Jaime, veio o desejo de pronunciar uma palavra muito incômoda, sumamente incômoda, que inclusive está na contramão de toda a estrutura cultural, entre aspas, do mundo. Ele disse: “pobreza”. E repetiu-a várias vezes. Penso que o Senhor quis que a ouvíssemos, muitas vezes, e a recebêssemos no coração. O espírito do mundo não a conhece, não a quer, esconde-a, não por pudor, mas por desprezo. E se precisa pecar e ofender a Deus para que a pobreza não o alcance, age assim. O espírito do mundo não ama o caminho do Filho de Deus, que esvaziou a si próprio, fez-se pobre, fez-se nada, humilhou-se para ser um de nós.

A pobreza, que causou medo àquele jovem tão generoso – tinha cumprido todos os mandamentos. Quando Jesus lhe disse: “Vende tudo que tem e dá aos pobres”, ficou triste, temeu a pobreza. A pobreza, que sempre procuramos escamotear, seja por coisas razoáveis, mas estou falando de escamoteá-la no coração. Que é necessário saber administrar os bens, não se discute, porque os bens são um dom de Deus; mas, quando estes bens entram no coração e começam a conduzir a sua vida, aí você perdeu. Já não é como Jesus. Tem a sua segurança onde a colocou o jovem triste, aquele que se retirou entristecido.

Acredito que para vocês, sacerdotes, consagrados, consagradas, pode servir aquilo que dizia Santo Inácio, e isto não é fazer publicidade da família! Ele dizia que a pobreza era o muro e a mãe da vida consagrada. Era a mãe, porque gerava mais confiança em Deus. E era o muro, porque a protegia de todo o mundanismo. Quantas almas destruídas! Almas generosas, como a do jovem entristecido, que começaram bem, mas, depois, foi adquirindo amor a esse mundanismo rico, e acabaram mal, isto é, medíocres. Acabaram sem amor, porque a riqueza depaupera, mas depaupera mal. Tira-nos o melhor que temos, torna-nos pobres da única riqueza que vale a pena para colocar a segurança no outro. O espírito de pobreza, o espírito de despojamento, o espírito de deixar tudo para seguir Jesus. Isto de deixar tudo não sou eu que o invento. Aparece várias vezes no Evangelho, no chamado dos primeiros discípulo que deixaram os barcos, as redes e o seguiram, os que deixaram tudo para seguir Jesus.

Certa vez, um padre idoso e sábio me dizia a respeito de quando o espírito de riqueza, de mundanismo rico, entra no coração de um consagrado ou de uma consagrada, de um sacerdote, de um bispo, de um papa, de uma pessoa, seja ela quem for. Dizia que, quando alguém começa a juntar dinheiro para garantir o futuro, é certo que, então, o futuro já não está em Jesus, está em uma companhia de seguros de tipo espiritual que eu dirijo. Assim, por exemplo, quando uma congregação religiosa começa a juntar dinheiro e a poupar cada vez mais, Deus é tão bom que a envia um ecônomo desastroso, que a faz quebrar. São das melhores bênçãos de Deus para sua Igreja, os ecônomos desastrosos, porque a tornam livre, a fazem pobre. A nossa Santa Mãe Igreja é pobre, Deus a quer pobre, da mesma forma que quis pobre a nossa Santa Mãe Maria. Amem a pobreza como uma mãe. E, simplesmente com sugestão, se algum de vocês tiver vontade, interrogue-se: Como é o meu espírito de pobreza? Como é o meu despojamento interior? Acredito que isto poderá fazer bem à nossa vida consagrada, à nossa vida presbiteral. Afinal de contas, não nos esqueçamos que é a primeira das Bem-aventuranças: Felizes os pobres em espírito, os que não estão apegados à riqueza, aos poderes deste mundo.

E a irmã nos falava dos últimos, dos pequeninos que, mesmo que sejam grandes, acabam sendo tratados como crianças, porque se apresentam como crianças: o pequenino, esta é uma frase de Jesus que aparece no protocolo, com base no qual seremos julgados: “O que fizeste ao menor dos meus irmãos, a mim mesmo o fizeste”. Há serviços pastorais que podem ser mais gratificantes do ponto de vista humano, sem serem maus, nem mundanos, mas quando alguém, por íntima preferência, busca o pequenino, o mais abandonado, o mais doente, aquele que ninguém leva em consideração, aquele que ninguém quer, o pequenino, e serve o pequenino, serve a Jesus de maneira superlativa.

Mandaram você para onde não queria ir e você chorou. Chorou porque não gostava, o que não significa que seja uma freira chorona. Deus nos livre de uma freira chorona, que sempre está se lamentando. Isto não é meu, é o que Santa Teresa dizia às suas religiosas. É dela. Ai daquela religiosa que passa o dia inteiro se lamentando: porque me fizeram uma injustiça. Na língua castelhana daquele tempo, dizia: “Ai da freira que anda dizendo: fizeram-me isto sem razão”. Chorou porque era jovem, tinha outros sonhos. Talvez tenha pensado que em um colégio você poderia ter melhor rendimento, proporcionar futuro à juventude. Mas, você foi enviada para lá - a “Casa da Misericórdia” -, onde a ternura e a misericórdia do Pai se tornam mais patentes, onde a ternura e a misericórdia de Deus se faz carícia. Quantos religiosos e religiosas queimam – repito o verbo –, queimam a sua vida, acariciando material de descarte, acariciando a quem o mundo descarta, a quem o mundo despreza, a quem o mundo prefere que não exista, a quem o mundo, hoje, quando com os novos métodos de análise que tem, prevê que pode nascer com uma doença degenerativa, propõe eliminá-lo antes de nascer. É o pequenino. E uma jovem, cheia de sonhos, começa a sua vida consagrada, tornando viva a ternura de Deus na sua misericórdia. Às vezes, não entendem, não sabem, mas como é bonito para Deus e quanto bem nos faz, por exemplo, o sorriso de um espático, que não sabe como fazê-lo, e quando querem te beijar, babam em todo o seu rosto. Esta é a ternura de Deus, esta é a misericórdia de Deus. E quando estão mal-humorados e te dão um murro. E queimar a minha vida assim, com material de descarte aos olhos do mundo, fala-nos unicamente de uma pessoa; fala-nos de Jesus, que, por pura misericórdia do Pai, fez-se nada, esvaziou-se, diz o texto de Filipenses, no capítulo dois. Fez-se nada. E estas pessoas, a quem você dedica a sua vida, imitam a Jesus, não por sua vontade, mas porque assim vieram ao mundo. São nada e são escondidas, não são mostradas, nem visitadas. E se puderem, e ainda sobrar tempo, são eliminadas. Obrigado pelo que você faz e, em você, obrigado a estas e tantas outras mulheres consagradas a serviço do inútil, porque não se pode empreender qualquer negócio, não se pode ganhar dinheiro, não se pode realizar absolutamente nada de “construtivo”, entre aspas, com estes nossos irmãos, com os menores, com os pequeninos. Aí, resplandece Jesus. Aí, resplandece a minha opção por Jesus. Obrigado a você e a todos os consagrados e consagradas que fazem isto.

“Padre, eu não sou freira, não cuido de doentes, sou pároco, tenho uma paróquia, ou ajudo um pároco. Quem é o meu Jesus predileto? Quem é o pequenino? Quem é aquele que mais me mostra a misericórdia do Pai? Aonde tenho de ir para encontrá-lo?” Obviamente, continuo repassando o protocolo de Mateus (capítulo 25). Lá temos todos: no faminto, no recluso, no doente. Aí os encontrará.

Mas há um lugar privilegiado para o sacerdote, onde aparece este último, este mínimo, o pequenino, é o confessionário. Lá, quando aquele homem ou aquela mulher mostram a sua miséria – olha que é a mesma que você possui e só Deus te salvou de não chegar ao mesmo! –, quando te mostram a sua miséria, por favor, não censure, não provoque, nem castigue. Se não tiver pecado, atire-lhe a primeira pedra: mas só nesta condição. Caso contrário, pensa nos seus pecados. Pensa que você poderia ser aquela pessoa. E pensa que, potencialmente, você pode cair ainda mais fundo. Pensa que, neste momento, você tem um tesouro nas mãos, que é a misericórdia do Pai.

Por favor, sacerdotes, não se cansem de perdoar, sejam perdoadores, não se cansem de perdoar, assim como fazia Jesus. Não se escondam atrás de medos e rigidezes. Assim como esta religiosa e todas as outras que estão no mesmo trabalho, que não ficam furiosas quando encontram o doente sujo ou mal disposto, mas servem, limpam e cuidam dele, não fique neurótico, não o expulse do confessionário, não o censure. Jesus os abraçava. Jesus os amava. Amanhã, comemoramos São Mateus. Como roubava! Além disso, como traía o seu povo! E diz o Evangelho que Jesus, à noite, foi jantar com ele e outros como ele. Santo Ambrósio tem uma frase que me comove muito: “Onde há misericórdia, está o espírito de Jesus. Onde há rigidez, estão apenas os seus ministros”.

Irmãos sacerdote, irmãos bispos, não tenham medo da misericórdia. Deixem que ela corra por meio de suas mãos e do seu abraço de perdão, porque aquele ou aquela que lá está é o pequenino. E, portanto, é Jesus. Isto é o que me ocorre dizer após ter ouvido estes dois profetas. Que o Senhor nos conceda estas graças que os dois semearam em nosso coração: pobreza e misericórdia, porque aí está Jesus.

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