O populismo e o antielitismo do Papa Francisco

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05 Agosto 2015

"A filosofia de Francisco não diz apenas sobre “o povo de Deus”: ela diz sobre as pessoas – e ponto final. Esta é a origem da linguagem de Francisco contra o clericalismo e, especialmente, de sua frequente crítica à falta de uma abordagem pastoral por parte dos bispos. Não se trata do anticlericalismo das elites secularistas. Trata-se do anticlericalismo saudável do povo cristão", escreve Massimo Faggioli, professor de história do cristianismo da University of St. Thomas, em artigo publicado por Global Pulse, 03-08-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Segundo ele, "o populismo teológico de Francisco emprega a palavra “povo” para se referir à Igreja e, também, ao povo no sentido civil-político. Não é um populismo apolítico, porque Francisco incentiva as pessoas a serem cidadãos responsáveis e porque ele possui grandes expectativas para com os políticos. É, sim, o populismo dos antielitistas, tanto na Igreja como na sociedade civil e na política".

Eis o artigo.

Francisco configurando-se como uma surpresa positiva aos católicos americanos.

Dados divulgados pela Conferência Episcopal alemã mostram que mais de 200 mil pessoas deixaram a Igreja Católica no país em 2014, um aumento de 22% em relação ao ano anterior.

Desde 2010, mais de 820 mil católicos alemães renunciaram a sua filiação religiosa.

Temos certeza quanto a estes números por causa do sistema alemão chamado Kirchensteuer, o imposto da Igreja: se você pertence a uma igreja, então precisa pagar um imposto para o governo federal, que distribui o dinheiro entre elas. Se você sai desta igreja, isso traz consequências significativas em seus impostos: você deve menos ao governo, o que significa uma redução grande nos impostos, especialmente se for rico. Os jogadores de futebol e as celebridades são, muitas vezes, os exemplos mais brilhantes da decisão de deixar a igreja a que pertencem por razões fiscais.

Este declínio no número de membros confirmou certos comentários de católicos conservadores – comentários proferidos particularmente nos países de língua inglesa –, segundo os quais a Igreja Católica alemã e os católicos europeus em geral estão se dirigindo rapidamente ao desfalecimento. A acusação é que a Igreja, na Europa, está nas mãos de bispos liberais sem noção da realidade, prelados em quem não se devia confiar quando se trata de tomar decisões importantes para a Igreja global. E isso se aplica, em especial, ao Sínodo de outubro, que vai debater soluções para os problemas da família e do casamento modernos.

É irônico ver católicos conservadores (que se recusam permitir que o Estado moderno dite coisa alguma à Igreja) se alegrarem com algo que toca a Igreja na Europa por causa de um arranjo firmado entre ela e o próprio Estado.

A recusa em pagar um imposto ao governo tem consequências imediatas sobre a afiliação religiosa das pessoas. E isso é exatamente o oposto do sistema americano, onde a filiação religiosa não importa em um país que separa a Igreja e o Estado.

Este é apenas um dos mal-entendidos que há entre os conservadores a respeito da Igreja de hoje. Mas esta incompreensão vai mais longe ao alegar um alinhamento entre a eclesiologia de Francisco e o catolicismo europeu. Na verdade, a eclesiologia do Papa Francisco está muito mais próxima da ideia de Igreja como sendo “nós, o povo” do que de um sistema – como os arranjos entre Igreja e Estado que ainda funcionam na Alemanha e em muitos outros países europeus – cujas origens se encontra na Idade Média.

Francisco não é nenhum adepto da guerra cultural. Mas a sua eclesiologia é muito mais militante do que institucional, e o quadro oferecido pelo fosso cultural e político entre liberais e conservadores é ainda menos significativo do que o é para a compreensão dos pontos de referência de Bergoglio.

Desde o início de seu pontificado, Francisco vem se apresentando como o papa do povo. Na noite de 13 de março de 2013, ele disse a famosa frase: “E agora, vamos começar esta jornada: o bispo e o povo. (…) E agora gostaria de dar a bênção, mas primeiro quero pedir-vos um favor. Antes de o bispo benzer o povo, peço que rezem ao Senhor para que me abençoe: a oração do povo, pedindo a bênção do seu bispo”.

Ele não estava inovando com uma maneira extravagante de se apresentar. Estava, isto sim, dizendo que a sua legitimidade vem muito mais do povo do que das pessoas com poder nas instituições eclesiásticas.

Nesse sentido, como afirmei em meu livro – intitulado Pope Francis: Tradition in Transition –, o pontífice trabalha através de um “mandato popular” que não é menos significativo para ele do que o mandato que recebeu do Conclave. O Papa Francisco age sob dois mandatos diferentes: o mandato do conclave e um mandato que poderia ser chamado inadequadamente de “popular”. Estes dois mandatos não necessariamente coincidem, como veremos no Sínodo em Roma em outubro próximo.

Este apelo ao povo não é apenas uma tática; ele faz parte da identidade teológica profunda de Francisco. Em 1974, ao abrir a assembleia provincial dos jesuítas da Argentina, Jorge Mario Bergoglio focou o seu discurso no parágrafo 12 da constituição do Concílio Vaticano II sobre a Igreja, Lumen Gentium, e na ideia do infallibilitas in credendo – a infalibilidade da fé do povo. Este apelo se faz presente na recente exortação Evangelii Gaudium (de 24 de novembro de 2013), onde há uma ênfase semelhante no parágrafo 12 da Lumen Gentium.

A filosofia de Francisco não diz apenas sobre “o povo de Deus”: ela diz sobre as pessoas – e ponto final. Esta é a origem da linguagem de Francisco contra o clericalismo e, especialmente, de sua frequente crítica à falta de uma abordagem pastoral por parte dos bispos. Não se trata do anticlericalismo das elites secularistas. Trata-se do anticlericalismo saudável do povo cristão.

Durante o pontificado de Bento XVI, ficou evidente que o teólogo Ratzinger tinha certo desprezo pela Cúria Romana dos burocratas. Em Francisco, fica evidente a sua distância para uma experiência do episcopado que é típica de uma Igreja que era familiar até algumas décadas atrás. Naquela época, muitos bispos vinham da aristocracia. Se este não era o caso, tornar-se bispo elevava o sujeito automaticamente ao status de um aristocrata europeu (com todos os benefícios e as regalias típicos da aristocracia europeia).

Para Francisco, a ideia de povo é a de um sujeito ativo não só na história da salvação, mas também na história do mundo. A Weltanschauung [visão de mundo] de Francisco é muito diferente d’O Fim da História e o Último Homem, de Francis Fukuyama (best-seller publicado em 1992), trazido à existência pelo advento da democracia liberal ocidental. Ela se distancia também d’O Mundo é Plano, de Thomas Friedman (best-seller publicado em 2005), onde “plano” significa que a globalização capitalista acabaria por eliminar os conflitos.

Este populismo teológico do Papa Francisco ficou em plena evidência na sua recente viagem à América Latina. Ele mencionou a palavra “povo” dezessete vezes em seu discurso de improviso aos religiosos no Equador, e vinte vezes em sua alocução à sociedade civil no Paraguai.

O populismo teológico de Francisco emprega a palavra “povo” para se referir à Igreja e, também, ao povo no sentido civil-político. Não é um populismo apolítico, porque Francisco incentiva as pessoas a serem cidadãos responsáveis e porque ele possui grandes expectativas para com os políticos.

É, sim, o populismo dos antielitistas, tanto na Igreja como na sociedade civil e na política. Em Francisco, não há nenhuma experiência de Igreja decorrente do antigo regime europeu. Este fato sobre ele o faz ficar mais perto de algumas qualidades fundamentais dos católicos não europeus, e especialmente os americanos.

Para Francisco, el pueblo e a fé do povo são algo semelhante à ideia de povo e de vontade do povo comumente invocada na mística política dos Estados Unidos. Nesse sentido, Francisco pode ser uma surpresa positiva para os católicos americanos nesta sua visita ao país.

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