Não há conflito entre as nossas crenças religiosas e a ciência das mudanças climáticas

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23 Junho 2015

"As mudanças climáticas não são um fantasma distante num futuro longínquo. Elas constituem uma realidade presente e que já está afetando algumas das regiões mais vulneráveis do mundo. Na região do Sahel, na África, por exemplo, as secas recorrentes prejudicam o bem-estar humano e podem contribuir para a desestabilização na região", escrevem Cardeal John Onaiyekan, Rabino David Rosen e Professor Dr. M Din Syamsuddin, em artigo publicado pelo jornal The Guardian, 18-06-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo.

Na quinta-feira passada (dia 18 de junho), o Papa Francisco emitiu uma encíclica poderosa e oportuna sobre o meio ambiente, instando a humanidade a se sensibilizar e cessar com a ofensiva imprudente que tem infligido contra a criação de Deus. Francisco endereçou esta carta não só aos seus companheiros católicos, mas a todos os povos do mundo, pedindo às pessoas de diferentes tradições religiosas que se reúnam no propósito comum de salvar nosso planeta.

Como figuras religiosas, nós também aceitamos o consenso científico esmagador de que o aquecimento global deriva da atividade humana, ao mesmo tempo em que não vemos nenhum conflito entre fé e razão.

E, como provenientes das três grandes religiões abraâmicas – o judaísmo, o cristianismo e o islamismo –, estamos juntos no objetivo de sermos bons administradores da Terra. Todas as nossas tradições reafirmam a bondade inerente presente em toda a criação e a obrigação vinculativa dos seres humanos em proteger a nossa casa comum, este planeta que nos sustenta. As Escrituras hebraicas afirmam claramente que a Terra pertence somente a Deus, e que nós somos apenas residentes temporários nela – não temos o direito de propriedade de forma permanente: os frutos da terra pertencem a todos, incluindo os pobres. Este ensinamento antigo é reafirmado tanto pelo cristianismo quanto pelo islamismo. Os cristãos também enxergam o mundo através de lentes sacramentais, acreditando que a redenção de Cristo redimiu, por sua vez, toda a criação. E o Islã pode ser pensado como uma religião da natureza, com os seus 750 versos do Sagrado Alcorão que falam sobre a nossa responsabilidade para com o meio ambiente e nossa relação com todas as criaturas. O Islã também reconhece que tudo o que está nos céus e na terra pertence a Deus, e que somos meros administradores, vice-governadores.

Devemos concordar com o Papa Francisco em que temos violado esta mui sagrada confiança. Essa violação se mostra evidente com o escândalo das alterações climáticas, que resultam predominantemente da queima implacável de combustíveis fósseis com a finalidade de alimentar a nossa economia mundial. O caminho em que estamos é um caminho de destruição. Se não mudarmos de curso, os especialistas nos dizem que a temperatura média global acabará aumentando de 4 a 6º C até o final do século.

As implicações de um tal aumento seriam desastrosas, e mesmo catastróficas, especialmente para as pessoas mais pobres do mundo. Estas são as que menos têm a ver com as alterações climáticas e as que são menos capazes de se adaptarem ao fenômeno – e também são as mais amadas de Deus. Se não formos capazes de intervir, deveremos esperar secas mais severas, inundações, ondas de calor e tempestades. Milhões de pessoas estarão em risco com a elevação dos mares. As produções agrícolas entrarão em colapso, principalmente nos países em desenvolvimento.

As mudanças climáticas não são um fantasma distante num futuro longínquo. Elas constituem uma realidade presente e que já está afetando algumas das regiões mais vulneráveis do mundo. Na região do Sahel, na África, por exemplo, as secas recorrentes prejudicam o bem-estar humano e podem contribuir para a desestabilização na região. Na Síria, a seca mais severa já registrada na história do país forma o pano de fundo de uma guerra civil trágica. E este é o resultado de um aumento nas temperaturas globais, que não chega a 1º C acima do nível da era pré-industrial. Que caos irá causar um aumento de 4 a 6º C?

Se as pessoas não puderem viver em paz com a Terra, eles não poderão viver em paz umas com as outras. As mudanças climáticas, na escala prevista, exigirão grandes deslocamentos de pessoas e uma enorme competição por recursos escassos, e as consequências poderão ser a instabilidade, o conflito e a guerra. Tal situação poderá levar a grandes tensões religiosas também. Na Nigéria, o deslocamento da população causada por um deserto usurpado está gerando conflito entre cristãos e muçulmanos. E a região do Mediterrâneo Oriental e Oriente Próximo é uma das mais vulneráveis à seca com o aumento das temperaturas. Esta é a terra antiga que viu nascer as nossas três religiões abraâmicas, e as mudanças climáticas irão fazer com que seja mais difícil para as pessoas destas diferentes tradições de fé viverem juntas em harmonia neste solo sagrado.

Nós, pois, exortamos todas as pessoas de todas as religiões a se unirem em torno desta nobre e sagrada causa e a fazerem com que as suas vozes cheguem bem alto nos corredores do poder em todo o mundo. Essas vozes devem ser ouvidas especialmente em Paris no próximo mês de dezembro, quando os líderes terão uma última chance de se comprometer com um acordo visando à redução das emissões de carbono antes que passemos do ponto fatal em que não haverá mais retorno.

Acreditamos que as nossas diferentes religiões nos chamam para uma coexistência pacífica, reconhecendo que – apesar de quaisquer divergências políticas – somos todos filhos do mesmo Deus. Como membros de Religiões para a Paz (Religions for Peace), a maior organização do mundo dedicada ao avanço da cooperação multirreligiosa, pedimos a todos para que se manifestem abertamente contra os interesses particulares, contra o provincianismo estreito e contra a indiferença arrogante para com as alterações climáticas.

Estamos diante de uma grande provação dos nossos tempos, e Deus vai nos chamar, algum dia, para que nos expliquemos.

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