Uma ''atitude prudente'': dois bispos dos EUA renunciam por causa da pedofilia

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22 Junho 2015

Uma atitude prudente. Um processo doloroso. Um passo importante. Um pequeno passo. Um amplo leque de reações cruzadas surgiu a partir da notícia de segunda-feira sobre as renúncias do arcebispo de St. Paul-Minneapolis, Dom John Nienstedt, e do seu bispo auxiliar, Lee Piché.

A reportagem é de Brian Roewe, publicada por National Catholic Reporter, 15-06-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"Eu acho que foi uma medida necessária e prudente", disse Jennifer Haselberger, ex-chanceler canônica cuja decisão de renunciar ao cargo e se pronunciar publicamente sobre um observado mau uso das denúncias de abuso sexual por parte do clero definiu em grande parte o escândalo que se estabeleceu na região desde 2013.

Os anúncios ocorreram no mesmo dia do início da assembleia presbiteral semestral, que reúne os cerca de 400 padres da arquidiocese para reuniões até esta quinta-feira, em Rochester, a sudeste das Cidades Gêmeas. Um padre que falou no anonimato disse ter detectado entre os seus colegas padres uma sensação de alívio com a notícia, que eles entendiam a gravidade da situação, mas também viam um caminho a se seguir rumo à cura na região.

Em uma carta aos sacerdotes, Nienstedt escreveu sobre a sua renúncia: "Eu preferiria compartilhar isso com vocês pessoalmente, mas o desejo da Santa Sé de anunciar a decisão tornou impossível esperar".

Ele repetiu em grande parte a sua declaração pública de renúncia, dizendo que fez a medida "para dar à arquidiocese um novo começo em meio aos muitos desafios que enfrentamos", e que ele deixou o seu posto "com uma consciência limpa" de que a chancelaria implementou os protocolos necessários para garantir a segurança das crianças. Nienstedt disse que o bispo auxiliar Andrew Cozzens iria abordá-los mais tarde na segunda-feira.

Em uma breve declaração perante a mídia na segunda-feira de manhã, Cozzens disse: "Este tem sido um processo doloroso. Uma mudança de liderança nos oferece uma oportunidade para uma maior cura e a capacidade de seguir em frente".

"Eu sei que vocês têm muitas perguntas e devo pedir a paciência de vocês. Haverá muitas questões não respondidas enquanto damos este passo significativo e de transição para a nova liderança", disse Cozzens.

Uma das primeiras perguntas – como as renúncias impactam as acusações criminais e o abaixo-assinado civil interposto contra a arquidiocese – recebeu ao menos uma resposta parcial do promotor que as apresentou 10 dias antes.

Em uma declaração à mídia, o promotor John Choi, do condado de Ramsey, disse que, embora muitos na comunidade podiam ver as renúncias como um desdobramento positivo, as seis acusações criminais, a petição civil e a investigação em curso prosseguiriam.

"Como já dissemos, os objetivos das nossas ações são os de responsabilizar a arquidiocese, buscar a justiça para as vítimas e para a nossa comunidade, e tomar os passos apropriados para assegurar que o que temos alegado e pretendemos provar sobre o comportamento passado das autoridades da Igreja nunca se repita", disse Choi. "As renúncias de hoje não cumprem diretamente esses objetivos, mas eu acredito que é um passo afirmativo em direção a um novo começo e a uma reconciliação muito necessária."

Se as renúncias poderão afetar possíveis acusações criminais contra indivíduos depende, muitas vezes, do promotor, disse Charles Reid, professor de direito da University of St. Thomas, em Minneapolis. Até agora, Choi não trouxe à tona acusações contra indivíduos.

"Às vezes, os promotores distritais ficam felizes ao ver a pessoa sair do cargo. Às vezes, eles ficam felizes ao ver a instituição limpa. Às vezes, eles dão continuidade ao assunto", disse Reid.

Reid descreveu Choi como um "homem cauteloso e deliberado", que não mostra o que vai fazer, mas possui um histórico de apenas dar continuidade a casos "que sejam sérios e bem pensados". As provas apresentadas pelo escritório de Choi sugerem, pelo menos, que algumas autoridades da Igreja ocultaram informações relacionadas com o ex-padre Curtis Wehmeyer antes que a arquidiocese o denunciasse à polícia em junho de 2012.

De acordo com as provas do caso, Piché ficou sabendo por um padre, em setembro de 2010, que Wehmeyer tinha dormido na mesma cama como um menino, uma das vítimas das acusações, durante uma viagem de acampamento no início daquele ano. De acordo com o padre, respondeu Piché, "o padre Curtis Wehmeyer tem muitos esqueletos no seu armário". Piché disse à polícia de St. Paul que não se lembrava da conversa.

A renúncia de Piché também remove a pessoa em questão da investigação separada iniciada pela arquidiocese contra Nienstedt sobre acusações de má conduta sexual com adultos, que remontam ao seu tempo na arquidiocese de Detroit. Essa investigação começou no início de 2014, depois de receber uma série de acusações não relacionadas. A arquidiocese não tinha respondido às perguntas do NCR sobre a investigação de Nienstedt até segunda-feira à noite.

Fora das investigações, a renúncia de Nienstedt levantou a questão prática sobre quem irá sucedê-lo na última sede vacante dos EUA.

Atualmente, ambas as dioceses de Salt Lake City e Superior, Wisconsin, estão sem bispos. Além disso, a diocese de Kansas City-St. Joseph, Missouri, assim como St. Paul-Minneapolis, é supervisionada por um administrador temporário até que seja encontrado um sucessor para Dom Robert Finn, que renunciou ao cargo em abril, sem motivo específico. Em 2012, Finn foi considerado culpado por uma acusação de contravenção por não denunciar o abuso relacionado a um agora ex-padre condenado por posse de pornografia infantil.

Nesse ínterim, o arcebispo coadjutor Bernard Hebda, de Newark, Nova Jérsei, foi nomeado administrador apostólico das Cidades Gêmeas. Anteriormente bispo da diocese de Gaylord, Michigan, ele se tornou arcebispo temporário de Newark em 2013, a pedido do atual arcebispo, John Myers.

Hebda possui graduação em direito civil e canônico pela Columbia University e pela Pontifícia Universidade de São Tomás, em Roma, respectivamente. Esse conjunto de habilidades, disse Haselberger, poderia levar a uma resolução mais suave da falência da arquidiocese e, possivelmente, a um acordo sobre as diversas acusações apresentadas contra ele.

"Eu acho que esse é provavelmente um bom sinal em termos dessas acusações", disse ela.

Hebda continuará as suas funções como coadjutor em Newark enquanto atua como administrador. Em sua própria carta aos padres das Cidades Gêmeas, Hebda disse que pretende "estar tão disponível quanto possível" no seu novo cargo.

"A lei da Igreja nos lembra que um administrador não deve introduzir mudanças, mas sim facilitar uma boa continuidade das atividades ordinárias e essenciais da Igreja, promovendo ao mesmo tempo aquelas iniciativas positivas com as quais a arquidiocese já está comprometida", disse ele.

Quanto a um sucessor permanente para Nienstedt, o processo solicita que o núncio apostólico dos EUA submeta uma lista de três nomes para o papa, que toma a decisão final. A Coalizão Católica para a Reforma da Igreja, uma organização das Cidades Gêmeas, já submeteu ao núncio uma lista de "antigos pastores comprovados" na arquidiocese, que ela vê como "proeminentes candidatos para serem nomeados bispos".

"Roma precisa ouvir as vozes da experiência e o julgamento dos católicos locais na seleção do nosso próximo líder", disse o grupo em um comunicado.

Em novembro, a coalizão realizou uma simulação de eleição do próximo arcebispo, chegando aos nomes dos padres Michael Byron, Paul Feela e Timothy Wozniak. Nenhum dos sacerdotes foram consultados ou questionados sobre a autorização para tal exercício.

Na sua declaração, a coalizão pediu "uma nova atitude de inclusividade", mas acolheu as renúncias dos dois bispos. "A cura pode agora começar", disseram.

Nem todos viram esse sentimento, no entanto.

O capítulo local da Rede de Sobreviventes dos Abusados por Padres (SNAP) apresentou a renúncia de Nienstedt como "um passo muito pequeno mas tardio".

"Depois de séculos de abuso e de acobertamento feitos em sigilo, e de décadas de abuso e de acobertamento feitos um pouco em público, evidentemente, um papa finalmente decidiu derrubar um arcebispo por cumplicidade em crimes sexuais do clero. Isso é encorajador. Mas essa é apenas uma gota muito pequena de reforma em um enorme balde de horrores", disse Frank Meuers, líder da SNAP no sul de Minnesota.

Meuers disse que, enquanto o papa não expulsar clérigos que acobertaram o abuso sexual de menores, junto com aqueles que cometeram os atos, "pouco vai mudar".

O advogado Jeff Anderson, cujos escritórios estão em St. Paul e que representam alguns dos maiores credores nos processos de falência, disse que as renúncias não foram nenhuma surpresa devido ao enorme volume de documentos. A medida "sinaliza um passo importante", mas não "o fim da crise".

"Ela fica aquém da plena responsabilização, porque todo esse problema não é sobre um homem ou dois bispos. Trata-se do sistema que está enraizado nos velhos caminhos e adere ao sigilo e à autogovernança que opera acima da lei", disse ele em uma declaração.

As renúncias, combinadas com a renúncia de Finn, levantam outra questão sobre o que isso significa em termos de resposta do Vaticano à questão dos abusos sexuais. Alguns imediatamente conectaram os pontos a partir das Cidades Gêmeas com o anúncio da quarta-feira pelo Vaticano de novas diretrizes para a responsabilização de bispos que mal administraram casos de abuso sexual do clero.

Reid disse que a questão Nienstedt parece ser um teste ideal para tais diretrizes: "Obviamente, é o primeiro caso".

Anne Barrett Doyle, codiretora do sítio BishopAccountability.org, disse que o caso das Cidades Gêmeas proporciona "uma lição crucial" para o tribunal a ser formado no âmbito das diretrizes.

"O novo processo deve ter um mecanismo para suspender as autoridades eclesiais pendentes de investigações, e essa suspensão deve ser rápida", disse ela, acrescentando que o Papa Francisco deixou Nienstedt no cargo durante meses, apesar de questionamentos sobre a sua liderança.

Em comentários feitos depois de falar em uma conferência de trabalho em Washington, o cardeal Donald Wuerl disse que as duas renúncias mostram aquilo que Francisco disse, ou seja, que enfrentar a questão dos abusos "também tem a ver com o fato de responsabilizar as pessoas".

"Eu acho que esse é um grande tributo ao Papa Francisco", disse Wuerl.

Haselberger disse que estava cautelosa sobre fazer um vínculo muito forte entre as novas diretrizes vaticanas e as medidas das Cidades Gêmeas. Por enquanto, ela disse que é importante que a arquidiocese supere rapidamente a falência e resolva as acusações contra ela.

"Então, a verdadeira renovação pode começar", disse Haselberger.

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