Nova teologia eucarística: Eucaristia, essencialmente louvor. Artigo de Ghislain Lafont (última parte)

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17 Abril 2018

Mais um passo na reflexão de Ghislain Lafont sobre a “nova teologia eucarística”, que chega a identificar seu centro na “natureza eucarística” da missa: louvor e doxologia pedem uma releitura da palavra e da refeição, assimila a Igreja ao seu Senhor.

Com este texto, conclui-se a primeira parte das intervenções do teólogo francês no blog Come Se Non, 04-04-2018.

“Mas – escreve o teólogo italiano Andrea Grillo –, a partir dos próximos dias, está programada uma ‘nova série’ de intervenções, que tematizará, de modo mais intenso, a relação entre o novo modelo de teologia eucarística e uma nova teologia do ministério ordenado.”

“Como a conclusão do texto aqui embaixo também dá a entender – explica Grillo –, a passagem para a nova teologia eucarística exige uma redescoberta da noção de ‘sacerdócio real’. Por isso, a construção da teologia medieval e tridentina da eucaristia deve ser submetida a uma cuidadosa ‘desconstrução’, fundamentando-a, como veremos, em uma teoria do sacerdócio e do ministério diferente.”

A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Eucaristia, essencialmente um louvor

Por Ghislain Lafont

Uma nova teologia eucarística deveria partir novamente daquilo que a própria palavra diz: eucaristia, feliz palavra de graça ou, ainda, doxologia, palavra de glória. Um elogio feito a uma senhora, pelo seu belo vestido, aplausos que explodem no fim de uma execução musical perfeita ou de uma conferência ao mesmo tempo magistral e modesta, o elogio convicto de um falecido antes de enterrar seu corpo, felicitações (do latino felix, feliz) que acolhem uma certa performance, seja qual for... Considero esses exemplos simples e humanos, porque acredito que nos são úteis para reativar em nós a alegria da admiração, sem a qual não pode haver palavra de graça. Na Eucaristia, trata-se de um ato de maravilha diante de Jesus Cristo, que provoca o louvor e incita espontaneamente à participação.

Um exemplo: durante meu serviço militar, há cerca de 70 anos (!), tinha um companheiro totalmente faminto em termos de religião. Devíamos partir para os exercícios, mas, como as manobras militares eram tão alheias para ele quanto a fé, ele conseguiu permanecer na caserna e garantir uma vigilância contínua no local. Ele me pediu um livro para passar o tempo. Dei-lhe uma biografia de Jesus, redigida para pessoas simples por uma espécie de profeta, o padre Thivollier.

Esse livro, que na época conhecia um imenso sucesso, intitulava-se “O Libertador”. Quando voltei dos exercícios, meu colega me contou seu estupor e sua admiração: “Que cara é esse? Ele realmente existiu? Ele disse e fez todas essas coisas?”. Então tentei convencê-lo de que era tudo verdade, que não era um romance ou uma lenda. Sou grato a esse rapaz que reativou em mim o louvor: eucaristia!

No missal de Pio V, havia um prefácio extraordinariamente simples, para ser utilizado nos dias comuns. Reproduzo-o aqui:

É verdadeiramente justo e necessário,
nosso dever e salvação
dar-vos graças sempre e em todo lugar,
Senhor, Pai Santo, Deus eterno e todo-poderoso,
Por Cristo, Senhor nosso.
Graças a ele, os anjos louvam a vossa majestade,
as dominações a adoram, os tronos a reverenciam,
os céus e as potências do céu, com os bem-aventurados
serafins a celebram, unidos na mesma alegria.
A seu canto, vos pedimos que nos deixeis
unir as nossas vozes
e proclamar com a mesma alegria:
Santo, Santo, Santo...

Nesse texto, encontra-se uma invocação a Deus que expressa o desejo de um louvor perene no tempo e no espaço, depois uma única linha que evoca o mediador graças ao qual esse louvor é possível, por fim a oração alcança o coro dos anjos no céu, primeiros beneficiários dessa mediação. A assembleia reunida, depois, volta para si mesma e assume sobre si a doxologia.

A memória de Jesus Cristo é central: somente com dois títulos – Cristo e Senhor – diz-se tudo. Somos remetidos silenciosamente ao Símbolo apostólico. Esse Jesus, graças ao qual todas as criaturas podem louvar ao Pai, é o Filho unigênito que “nasceu da Virgem Maria, padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado, desceu à mansão dos mortos, ressuscitou ao terceiro dia, subiu ao céu, está sentado à direita de Deus Pai Todo-Poderoso, donde há de vir a julgar os vivos e os mortos”.

De certo modo, a Eucaristia diz tudo isso e se cumpre nessa breve doxologia, que tudo abrange: a invocação de Deus, a evocação da salvação em Jesus Cristo, a antecipação da cidade celeste, lar de louvores, mas também participação de todos nós ainda na terra, que formamos a comunidade, uma espécie de compromisso a viver tudo, ao longo do tempo, in laudem gloriae, em louvor da glória, como Santa Isabel da Trindade gostava de repetir: é o sacrifício espiritual que o louvor inclui no sacrifício de Cristo.

A montante desse louvor e para motivá-lo novamente hoje, existe a proclamação da Palavra de Deus, pois, como diz a Carta aos Hebreus, “sobre mim está escrito no rolo do Livro”, e, portanto, cada passagem da Escritura nos fala do Mistério pelo qual a Eucaristia dá graças.

No entanto, a palavra não é suficiente: é preciso envolver o corpo também, assim como foi para Jesus. Por isso, trazemos pão e vinho, sinais do sacrifício simbólico. Invocamos o Espírito Santo, fruto da Ressurreição, por que assegure ao louvor uma referência, de um lado, à sua fonte corpórea, o corpo e o sangue de Jesus morto e ressuscitado, de outro, à nossa comunidade que se oferece em sacrifício espiritual, em comunhão com as outras comunidades e, em última instância, com toda a humanidade. E, no fim, de novo, façamos ressoar a doxologia: por Cristo, com Cristo e em Cristo... A comunhão sacramental inscreve o nosso corpo na ação litúrgica e faz de nós o Corpo de Cristo.

Parece evidente, portanto, que é a comunidade inteira que celebra esse louvor: este nada mais é do que a função eminente daquilo que o Concílio recordou como sacerdócio real da Igreja (LG, cap. 2, n. 10).

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