Francisco no Egito: diálogo e cidadania das religiões. Artigo de Massimo Faggioli

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02 Maio 2017

“As religiões mundiais como o catolicismo e o Islã têm em comum hoje a tarefa de encontrar uma resposta contra a tentação de substituir à cidadania entre iguais uma interpretação exclusiva, etnonacionalista e tribal das identidades políticas. O Vaticano e a Al-Azhar dialogam sobre direitos e cidadania, contra o fundamentalismo: um dos paradoxos do momento presente.”

A opinião é do historiador italiano Massimo Faggioli, professor da Villanova University, nos Estados Unidos, em artigo publicado no sítio L’HuffingtonPost.it, 27-04-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O Papa Francisco estará no Egito nos dias 28 e 29 de abril para uma das viagens mais importantes do pontificado, em que a dimensão inter-religiosa, a ecumênica e a política estão estreitamente entrelaçadas. O programa prevê uma visita ao imã de Al-Azhar (a mais prestigiada universidades do Islã sunita), um discurso aos participantes na Conferência Internacional sobre a Paz, a visita ao Papa Tawadros II, da Igreja Ortodoxa Copta de Alexandria, a celebração da missa em um estádio, o almoço com os bispos egípcios e um encontro de oração com o clero, religiosos e seminaristas.

No Cairo, estará também o patriarca de Constantinopla, Bartolomeu, que se encontrou com o Papa Francisco em muitos dos eventos importantes do seu pontificado: em Roma, em Jerusalém, em Istambul, em Lesbos.

Por motivos óbvios, a visita de Francisco se apresenta como uma viagem não política, seguindo a recente tradição do papado itinerante: a ênfase no “estritamente religioso” é uma das marcas das viagens papais em países nos quais é difícil, senão impossível, separar o plano do diálogo inter-religioso do plano das relações internacionais. Mas é uma visita que tem um perfil político pronunciado.

Por um lado, o papa tem pela frente um percurso muito estreito do ponto de vista das relações entre a Santa Sé e o Egito: entre a voz da Igreja Católica em favor dos direitos humanos e da democracia, por um lado, e, por outro, o respeito pelas autoridades políticas locais. O regime do general Al-Sisi substituiu o governo do islamista Morsi, dá à comunidade cristã no Egito mais tranquilidade do que a Irmandade Muçulmana, mas se manchou com evidentes violações dos direitos humanos e políticos.

O caso do pesquisador italiano Giulio Regeni, morto há mais de um ano no Egito, pesa aos olhos dos italianos sobre a visita do papa a um país como o Egito, hoje sob regime militar – uma situação que o jesuíta argentino Bergoglio experimentou pessoalmente.

Por outro lado, a visita de Francisco ao Egito e, em particular, a Al-Azhar se insere no contexto de um amplo debate em curso sobre o Islã e modernidade política que tem no seu centro a Universidade de Al-Azhar e os Emirados Árabes Unidos. Francisco não tem medo de deixar o seu sinal sobre um dos temas centrais da Igreja Católica pós-Ratzinger: a relação com o Islã.

E é um sinal sobre o qual não faltam polêmicas na Igreja Católica, começando pelos próprios jesuítas, a se julgar pelas entrevistas concedidas por islamólogos jesuítas nos últimos dias nos Estados Unidos, na Itália e no Vaticano – entrevistas em que não se esconde um certo nervosismo de alguns coirmãos em relação às aberturas do papa jesuíta ao Islã.

A questão não é de teologia dogmática, mas de relações de coexistência entre Islã e cristianismo. Se, de fato, a visita não tem como tema uma questão teológica inter-religiosa em sentido dogmático, há um aspecto teológico-político muito importante dessa visita. No Concílio Vaticano II, há pouco mais de 50 anos, o catolicismo se abria teologicamente (e não só de fato) a aceitar a ideia de uma cidadania “secular”, baseada na dignidade humana e a liberdade que lhe é própria, com base no moderno constitucionalismo.

Francisco conhece bem a herança do Vaticano II, e a sua viagem ao Egito ocorre no momento em que o Islã se faz essa pergunta sobre a cidadania, que tem reflexos enormes sobre a relação entre maiorias e minorias religiosas em todo o mundo hoje. Menos de dois meses atrás (28 de fevereiro a 1º de março), a Al-Azhar sediou uma conferência internacional sobre “Liberdade, cidadania, diversidade e integração”. Na declaração final da conferência, a parte mais interessante dizia respeito ao conceito de cidadania. O ponto 2 da declaração fala de “Estado nacional constitucional, fundado sobre os princípios da cidadania, da igualdade e do primado da lei positiva. Consequentemente, a exclusão da noção de cidadania como contrato estipulado entre os cidadãos, as sociedades e os Estados leva ao fracasso dos Estados, das instituições religiosas e das elites intelectuais e políticas, à detenção do desenvolvimento e do progresso, e permite, além disso, que os inimigos do Estado e da sua estabilidade minem as sortes e os destinos dos países. Além disso, o não conhecimento do conceito de cidadania e dos seus conteúdos leva a falar de minorias e dos seus direitos”.

De um ponto de vista católico, essa declaração é interessante por pelo menos duas razões. O primeiro motivo é que o discurso realizado pela Al-Azhar em tempos recentes tenta deslocar o conceito de cidadania a partir de uma ideia confessional (segundo a qual há os direitos da maioria e direitos menores para as minorias) a uma ideia constitucional de cidadania (os direitos da pessoa não dependem do pertencimento a uma maioria ou minoria religiosa).

É uma passagem semelhante a que foi feito pelo catolicismo no século XX e, especialmente, pelo Vaticano II, há meio século: é uma ideia de liberdade religiosa que, por exemplo, ainda é em grande parte desconhecida nas suas consequências para muitos católicos, incluindo o catolicismo de maioria nos Estados Unidos, nação nascida a partir da ideia de liberdade religiosa. Esse é um dos motivos da hostilidade do conservadorismo teológico e político estadunidense em relação ao Papa Francisco. Será interessante observar as reações à viagem nos Estados Unidos de Trump.

O segundo motivo é que a viagem de Francisco ao Egito não é só uma parte da história do diálogo inter-religioso da Igreja Católica com o Islã, mas é também parte do atual debate sobre a religião e a cidadania no contexto da crise do Estado-nação. É um debate que envolve também o catolicismo e faz parte das críticas ao pontificado de Francisco e ao seu esforço de reformular a presença da Igreja em um mundo multirreligioso e multicultural: é um dos desafios diante do Islã, que Francisco tenta ajuda a sair da crise epocal que o detém, também e sobretudo rejeitando a tese da “guerra religiosa”.

De diversos modos e em circunstâncias diversas, o catolicismo do Papa Francisco e o Islã sunita de Al-Azhar estão tentando formular uma resposta à crise das autoridades políticas e do Estado-nação nascido na primeira idade moderna por uma copenetração entre poder político e confessionalismo como monopólio de uma religião.

As religiões mundiais como o catolicismo e o Islã têm em comum hoje a tarefa de encontrar uma resposta contra a tentação de substituir à cidadania entre iguais uma interpretação exclusiva, etnonacionalista e tribal das identidades políticas. O Vaticano e a Al-Azhar dialogam sobre direitos e cidadania, contra o fundamentalismo: um dos paradoxos do momento presente.

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