A noite escura de Madre Teresa de Calcutá. Entrevista especial com Luis González-Quevedo

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31 Agosto 2007

"Madre Teresa, como toda pessoa que tem uma fé forte, tirava forças da própria fé. Só quem tem uma fé vigorosa pode experimentar uma crise tão forte e duradoura", afirma Luis González-Quevedo em entrevista especial para a IHU On-Line, comentando o livro com as cartas espirituais de Madre Teresa de Calcutá e amplamente comentadas nesta página. Veja no final da entrevista a relação.

Segundo o padre Quevedo, "quem diz ter “perdido a fé”, por qualquer decepção religiosa ou contra-testemunho da Igreja, na verdade, tinha uma fé muito fraca. Karl Marx nunca teve “crise de fé”. Estava tão convencido de que a questão religiosa tinha sido resolvida, definitivamente, pelos filósofos materialistas que o precederam, que nunca teve a menor dúvida religiosa. Os santos, sim, tiveram dúvidas e sofreram crises de fé. Santa Teresinha de Lisieux escreveu: “Não sinto o gozo da fé, mas me esforço por praticar as obras da fé”. Foi o que, ao parecer, fez Madre Teresa ao longo de toda sua vida.

Luis González-Quevedo é padre jesuíta, membro do Centro de Espiritualidade Inaciana - CEI-Itaici, orientador dos Exercícios Espirituais de Inácio de Loyola e redator da revista Itaici-Revista de Espiritualidade Inaciana. É autor também de uma série de livros sobre espiritualidade inaciana.

Confira a entrevista.

A imagem pública de Madre Teresa que mais ganhou força até recentemente é a de uma mulher de fé, um modelo de entrega de si, de doação até o extremo, mas não se conheciam suas crises de fé. O que traz de novo para sua imagem esta revelação de suas crises de fé?

Eu já tinha lido, em algum texto de Raniero Cantalamessa, que Madre Teresa nunca experimentara a “consolação espiritual” na sua vida de oração. Isso só fez aumentar a minha admiração por ela. Porque orar, quando encontramos gosto, alegria e paz, é fácil. Mas orar, quando não se encontra nisso o menor gosto, quando o coração está seco e a mente é assaltada por pensamentos contrários à própria fé, é muito mais difícil e meritório.

Por “fé” entendemos uma confiança amorosa a respeito de realidades que não se podem ver, nem verificar cientificamente (Deus, a vida eterna, a presença de Cristo na Eucaristia etc). Num mundo que supervaloriza a ciência, é inevitável que toda pessoa que tenha fé passe por momentos ou períodos de “crise de fé”. O que parece novo, no caso de Madre Teresa é que esta “crise” tenha sido tão constante e duradoura.

Como entender o vigor de Madre Teresa no seu testemunho de bondade no agir apostólico, em meio a tal crise de fé e experiência de solidão? De onde tirava sua força em meio a uma experiência tão profunda de vazio interior?

Eu diria que Madre Teresa, como toda pessoa que tem uma fé forte, tirava forças da própria fé. Só quem tem uma fé vigorosa pode experimentar uma crise tão forte e duradoura. Quem diz ter “perdido a fé”, por qualquer decepção religiosa ou contra-testemunho da Igreja, na verdade, tinha uma fé muito fraca. Karl Marx nunca teve “crise de fé”. Estava tão convencido de que a questão religiosa tinha sido resolvida, definitivamente, pelos filósofos materialistas que o precederam, que nunca teve a menor dúvida religiosa. Os santos, sim, tiveram dúvidas e sofreram crises de fé. Santa Teresinha de Lisieux escreveu: “Não sinto o gozo da fé, mas me esforço por praticar as obras da fé”. Foi o que, ao parecer, fez Madre Teresa ao longo de toda sua vida.

Seria possível confrontar-se tão de perto com a realidade da miséria e do sofrimento injusto sem levantar dúvidas sobre Deus? Que aproximações e distanciamentos existem entre a experiência de Teresa de Calcutá e a questão de Deus na Teologia da Libertação?

É sabido que na Índia, onde tenho uma irmã religiosa, coexistem a miséria extrema e um alto desenvolvimento tecnológico. Há muitas tensões políticas, sociais e religiosas, mas o Ocidente pós-cristão olha para o Oriente como um foco de espiritualidade: ex oriens, lux (a luz vem do Oriente). Madre Teresa foi à Índia como missionária e, muito provavelmente, os pobres a evangelizaram.

Por outro lado, não há duvida de que uma das possíveis causas do ateísmo, do agnosticismo ou da indiferença religiosa seja o escândalo da persistente situação de injustiça social, precisamente nas sociedades onde a religião está mais estendida. Oscar Niemayer atribui a isso seu agnosticismo. Mas a mesma realidade injusta da nossa América Latina é o pressuposto sociológico que deu origem e continua alimentando a Teologia da Libertação. Para esta corrente teológica, Deus é, sobretudo, o Libertador, aquele que vê a opressão do povo e ouve o clamor dos oprimidos (Ex 3,7).

A injustiça está aí, escancarada diante dos nossos olhos. A reação diante dela pode ser diversa, mesmo entre pessoas que tenham a mesma fé. Tive um companheiro, Fernando Hoyos, que, movido por sua fé, morreu lutando ao lado dos guerrilheiros, na Guatemala. Madre Teresa, movida também por sua fé, dedicou toda sua vida a aliviar o sofrimento dos mais pobres entre os pobres.

Muitos teólogos na América Latina buscam uma interpretação da Bíblia e da tradição cristã que ajude a “gerar uma sociedade sem excluídos, seguindo a prática de Jesus, que come com publicanos e pecadores (cf. Lc 5,29-32), que acolhe os pequenos e as crianças (cf. Mc 10,13-16), que cura os leprosos (cf. Mc 1,40-45) que perdoa e liberta a mulher pecadora (cf. Lc 7,36-49; Jo 8,1-11), que fala com a Samaritana (cf. Jo 4,1-26)”. Encontro este texto não nas obras de Gustavo Gutierrez ou de Jon Sobrino, mas no Documento de Aparecida (n. 135).

Sei que a nossa Teologia da Libertação ganhou muitas simpatias, tanto na Ásia, como na África, mas duvido que Madre Teresa tivesse entusiasmo por ela. Tenho a impressão de que ela preferiria posições teológicas mais tradicionais. Graças a Deus, Madre Teresa nunca escreveu – que eu saiba – um artigo teológico, porque correria o risco de decepcionar muitos dos seus admiradores.

O caminho de crescimento espiritual de pessoas como João da Cruz, Thomas Merton, Teresa de Ávila, Teresa de Lisieux e Inácio de Loyola também é marcado por crises de fé. O que há de comum entre estas experiências? Que relação há entre a “noite escura” dos grandes místicos e o tema da “desolação” de Inácio de Loyola?

A “noite escura”, da qual falam os místicos carmelitanos, e a “desolação espiritual”, da terminologia inaciana, coincidem em apontar o lado sombrio e áspero da fé. Há, no entanto, aspectos ou ênfases que permitem diferenciar os dois conceitos. Para São João da Cruz, a noite escura é necessária, para purificar a nossa sensibilidade e crescer no verdadeiro amor, que consiste em “despojar-se e despir-se, por Deus, de tudo o que não é Deus”. Já Santo Inácio enfatiza que, na desolação, somos guiados e aconselhados pelo “mau espírito”, como ele chama à força do mal. Por isso, quando estamos desolados, não devemos tomar decisões, antes permanecer firmes, resistindo e reagindo contra as tentações.

Todos os místicos coincidem em dizer que a experiência de Deus é inefável, tanto nos seus aspectos positivos (“consolação”, “paz que supera todo sentido”, “sumo saber, não sabendo, toda ciência transcendendo”...), como nos seus aspectos negativos (“desolação”, “noite escura”, “deserto”, saudade imensa de um Deus sempre oculto e silencioso). Permito-me citar o que escrevi em outra ocasião:

"A saudade de Deus, que sua aparente ausência produz em nós, alimenta e fortalece a nossa fé. A “desolação” inaciana, como a “noite” carmelitana, torna-se convite à maturidade espiritual, desafio para crescermos na busca infindável do Deus transcendente, esse Deus sempre maior do que a nossa mente e o nosso coração são capazes de imaginar e desejar" (Experiência de Deus: presença e saudade. 2. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2002, Col. “Leituras e Releituras”, n. 2, p. 55).

Aproveito para sugerir que a Unisinos traduza o último discurso de Karl Rahner, falecido em 1984. Tem por título: «Von der Unbegreiflichkeit Gottes» (Sobre a inefabilidade de Deus) e foi publicado pela editora Herder, com prólogo de Karl Lehmann.

Que paralelo se pode fazer entre a experiência destas pessoas e o que se passou com Madre Teresa? Sua experiência de “vazio interior” e “aridez espiritual” seria uma expressão moderna ou pós-moderna dos temas já clássicos da “noite escura” ou da desolação na mística cristã?

Sendo “inefável” a experiência de Deus, tanto nos seus aspectos positivos como nos aparentemente negativos, podemos empregar termos ou expressões diversas para tentar descrevê-la. A expressão “vazio interior” parece-me muito atual. Na minha experiência de padre e orientador de Exercícios Espirituais, escuto-a com freqüência: “Tudo o que faço dá certo – dizia alguém -, mas nada me preenche”. Aqui, haveria que distinguir um “vazio” superficial (o tédio dos personagens burgueses dos filmes de Antonioni, por exemplo), de um vazio mais profundo e positivo, o “vazio” dos místicos, a “solidão sonora”, onde Deus se esconde, porque encontra espaço de escuta. Sem dúvida, o vazio que a Madre Teresa experimentou tão longamente na sua vida não era um vazio superficial.

Qual é a importância do legado espiritual de Madre Teresa para nossos dias? Que lições podemos aprender de sua experiência?

Não conheço suficientemente a vida e a obra de Madre Teresa, mas pelo que sei dela considero-a uma figura admirável. Num século tão complexo como o século passado, deixou-nos um belo testemunho de amor a Deus e ao próximo, de compaixão pelos últimos – “os mais pobres entre os pobres” -, de capacidade de conquistar a boa vontade de pessoas muito diversas, para diminuir o sofrimento dos excluídos em todo o mundo. Se o prêmio Nobel da Paz, inicialmente, lhe deu notoriedade, ela acabou dando prestígio ao prêmio que recebera.

Só a vi uma vez. Estávamos em uma celebração, na basílica de São Pedro. Ela ocupava o banco diante do meu, por pouco tempo. Logo mais, veio um senhor do protocolo e a convidou a ir mais para a frente. E eu fiquei lá, atrás, satisfeito de ter visto uma humilde celebridade da nossa Igreja e do mundo contemporâneo. Ela foi amada por ricos e pobres, de qualquer religião e tendência política. Uma rara unanimidade.

Como o senhor orienta ou orientaria pessoas que vivenciam hoje uma experiência de crise de fé ou um silêncio de Deus?

O primeiro é acolher com sincero afeto a pessoa, na sua singularidade. Os exemplos dos santos e de outras pessoas que passaram por crises semelhantes podem ajudar. Mas cada situação é única e, de certa forma, irrepetível. Valorizo a abertura, a coragem de verbalizar as dúvidas e tentações. “Tentação declarada, tentação superada”, dizia um Doutor da Igreja. Pelo menos, ao ser partilhada, a tentação diminui, tornando-se mais suportável. Toda a tradição cristã recomenda a abertura de consciência com alguém da nossa confiança.

Em segundo lugar, animo a pessoa a olhar os aspectos positivos de sua situação. Quem está em “crise de fé” está vivo... e tem fé! Quem sofre com o “silêncio de Deus” é porque acredita Nele, tem saudade Dele, porque o ama e busca Sua Palavra, muito além da inutilidade do nosso discurso. Fazer um Retiro em silêncio, com o acompanhamento de uma pessoa que conheça a metodologia inaciana, seria uma boa opção, desde que a pessoa não esteja em estado de depressão psicológica. As Regras de “discernimento dos espíritos” ajudam os desolados a compreender melhor sua situação, a ter paciência e perseverar. a “vivenciar com serenidade as aparentes ausências de Deus; a inevitável alternância entre presença e ausência, consolação e desolação, palavra e silêncio, luz e trevas, companhia e solidão, plenitude e vazio, gozo e aridez, terra fértil e deserto...” (Copio de uma pessoa que está experimentando a crise).

Sem deixar de levar a sério as crises das pessoas, costumo convidá-las a olhar a vida e sua própria situação com mais humor. O nosso povo diz: “o que não tem remédio, remediado está”., “a esperança é a última que morre”, “pobre vive de teimoso”, etc. Um poeta italiano, combatente na Primeira Guerra Mundial, escreveu: “Anche questa notte passerà” (Ungaretti, “Noia”, poema do livro A alegria L’allegria). A longa noite da Madre Teresa de Calcutá passou e com a nota máxima, magna cum laude! Eu a admiro e a invejo.

 

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